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9. NATAL AUTO ASTRAL
Não é invenção minha. Por incrível que pareça, esse título o estou
tirando de uma propaganda que apareceu na televisão durante o período de Natal
de 2000.
A confusão é grande, pois são palavras homófonas (ambas se pronunciam da
mesma forma), mas escrevem-se com certa diferença e significam coisas bem
distintas.
Um alto conhecimento é básico para o autoconhecimento. Notou a diferença?
ALTO (elevado, grande, forte...) é adjetivo, flexionando-se em gênero e
número: alto, alta, altos, altas. AUTO (refere-se à pessoa que realiza algo
por si mesma, em si mesma, sobre si mesma...) é prefixo oriundo do grego e não
se flexiona. Se o vocábulo que vem depois de "auto" começar por
vogal, h, r ou s, deve ser separado dele por hífen. O antônimo (oposto) de
"alto" é "baixo", "pequeno", "fraco",
já o antônimo de "auto" é "hétero".
Vá tirando suas conclusões: esculturas em baixo-relevo e... alto-relevo;
alto-falante fala pra fora e autofalante fala pra dentro; altos-fornos caíram
em alto-mar; quem escreve sobre si mesmo realiza uma autobiografia, sendo uma
bobagem afirmar-se que "ele escreveu sua autobiografia" (notou?); na
dimâmica grupal temos grupos de auto-ajuda e heteroajuda, para resolver
problemas de auto-agressão e heteroagressão; o hipnotizador levou o paciente a
auto-sugestionar-se; pela auto-estrada os automóveis com motoristas
auto-suficientes disparam em alta velocidade, além do limite; enfim,
autocrítica depende de alto e autoconhecimento.
Corretamente, a ISTOÉ registrou na capa de 13/12/2000:
A VOLTA DO ALTO-ASTRAL - Ao se tornar o tenista número 1 do mundo, num dos
piores anos do esporte nacional, Gustavo Kuerten devolve a auto-estima ao
brasileiro. (grifos meus)
Um Natal "auto astral" pode deixar muita gente em baixo-astral. Agora,
falando sério, eu prefiro um Natal alto-astral para todos os internautas do
Cultura.
Obs.: há também o substantivo "auto": "Ariano Suassuna compôs
O Auto da Compadecida." / "O auto cívico aconteceu na praça
principal." / "Autos pretos e luzidios participaram do cortejo."
/ "Os autos do processo."
10.TOMARA QUE A REDAÇÃO TAMBÉM MUDE... PRA MELHOR.
Em "O Popular" (3/1/2001, Caderno Cidades, p.1B), sob o título de O
TRÂNSITO VAI MUDAR, a repórter escreveu:
O POPULAR, que, ao longo do ano que passou publicou uma série de reportagens
sobre os pontos críticos do sistema viário da cidade e apontando as falhas na
sinalização, ouviu o que Antenor José pensa a respeito de alguns dos temas
mais polêmicos que envolvem a questão do trânsito na capital, que mata
centenas de pessoas todos os anos e que preocupa autoridades ligadas ao
assunto.
Esse texto merece algumas modificações pra melhor. Vamos examiná-lo juntos,
separando os blocos frásicos sintáticos, enlaçando os que têm o mesmo
número (1 com 1, 2 com 2), assim:
1[O POPULAR,
2[que, ao longo do ano
3[que passou]
2 publicou uma série de report. sobre os pontos crít. do sist. viário da
cidade] e
4[apontando as falhas na sinalização],
1 ouviu o]
5[que Antenor José pensa a respeito de alguns dos temas mais polêmicos]
6[que envolvem a questão do trânsito na capital],
7[que mata centenas de pessoas todos os anos] e
8[que preocupa autoridades ligadas ao assunto].
O que você notou e anotou? Compare com as falhas da articulista:
1. a oração 2 está com uma vírgula após o "que", para destacar
inicialmente um adjunto adverbial de tempo (ao longo do ano), mas falta outra
vírgula após "passou", a fim de que se estabeleça o vínculo entre
o "que" (sujeito) e o início do predicado verbal (publicou...),
porque é necessário que sujeito e verbo estejam sintaticamente unidos, da
seguinte maneira: jamais separados por vírgula ou com duas vírgulas para
separar um bloco intercalado ("ao longo do ano que passou", no texto
comentado);
2. o sujeito da oração 2, "que", vincula-se ao predicado iniciado
pelo "publicou" e também ao predicado da oração 4, iniciado pelo
"apontando"; ora, sendo duas orações do mesmo nível (coordenadas
pelo conectivo "e") e encabeçadas ambas pelo conectivo
"que", devem os dois núcleos de predicado manter o mesmo tempo e
modo, pretérito perfeito no presente texto: por isso, o correto é
"publicou" e "apontou";
3. há abundância de "quês" (7), empobrecendo muito o estilo do
texto;
4. o texto com tantas subordinadas (7) tornou-se longo, maçante e confuso;
5. capital, por referir-se a nome próprio, seria bom grafá-lo com maiúscula;
6. uma pergunta: o trânsito mata ou cria situações para?
Proponho uma redação mais clara, correta, sóbria e, por que não?, mais
bonita.
O POPULAR, ao longo do ano passado, publicou uma série de reportagens sobre os
pontos críticos do sistema viário da cidade e apontou as falhas na
sinalização. A respeito de alguns dos temas mais polêmicos do trânsito na
Capital, responsável pela morte de centenas de pessoas todos os anos e motivo
de preocupação para as autoridades ligadas ao assunto, este jornal ouviu o que
pensa Antenor José.
Um abraço do Professor Nilton Mario Fiorio.
nmfiorio@cultura.com.br
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