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13.ONDE ME ESPETAM, FICO! (Machado de Assis, em "A linha e a agulha")
A gramática ensina que onde pode ser advérbio (em que lugar) e pronome
relativo regido pelo "em" (em que). Vejamos as frases:
Onde me espetam, fico; moro na cidade onde nasci.
Comumente, é apenas pronome. Vejamos pelos exemplos:
ONDE (no lugar em que) me espetam, fico; moro na cidade ONDE (em que) nasci. Em
ambas, o ONDE refere-se a um termo anterior (lugar, cidade), com a diferença
apenas de estar "lugar" implícito e "cidade" explícito. Se
os dois referem-se a termo anterior, desempenham a função de pronome relativo.
O "onde" desempenha a função de advérbio quando é interrogativo e
exclamativo: onde (em que lugar) se deu o desastre?; onde (em que lugar) você
foi enfiar o dedo!
Em O POPULAR, 26/01/01, Cidades, p.1, aparecem dois ONDE (incorretos) :
Cerca de 80 pessoas se aglomeravam, disputando um lugar onde pudessem enxergar a
lista. (...) Pouco a pouco, os aprovados começaram a seguir para o Parque Vaca
Brava, que se transformou no palco de trotes, onde a comemoração incluiu
generosas porções de batom, ovo, farinha, cerveja, tomate e água.
1.ONDE (em que lugar?, no lugar em que) se emprega com verbos que indicam
estabilidade ou situação: estar, ficar, permanecer, situar, situar-se,
localizar, localizar-se, colocar, pôr, botar, estacionar, parar...
Compare: não sei onde estacionei o carro (certo); aonde estou? (errado).
ONDE TEM A CABEÇA?
Há quem escreve "onde", equivalendo-o a pronome relativo não regido
por "em", principalmente a "cujo, cuja, cujos, cujas", ou a
certos conectivos. Vários exemplos:
* Começaram a seguir para o Parque Vaca Brava, que se transformou em palco de
trotes, onde a comemoração incluiu generoas porções de batom... (correção:
cuja comemoração incluiu generosas porções de batom...)
* A vida é realmente um espetáculo, onde participamos ativamente. (correção:
de que participamos ativamente).
* O jovem se torna desinteressado, onde seu prazer maior é ir ao cinema.
(correção: visto que seu prazer maior é ir ao cinema).
* Caminhamos para uma solução justa, onde ninguém terá responsabilidade
maior do que o outro. (correção: para ninguém ter responsabilidade maior do
que...)
O onde pode estar articulado a quatro preposições: de + onde = donde, a + onde
= aonde, para + onde = para onde e por + onde = por onde.
2.DONDE (de que lugar?, do lugar ... que) se usa com verbos que indicam
proveniência ou origem: vir, provir, emanar, surgir, brotar, emergir, emigrar,
originar-se, sair, partir...
Exemplos: vim donde você veio; donde brota água, também brotará petróleo.
No texto de O POPULAR, citado acima, o "onde" não se refere ao local
da lista, mas a "lugar" de onde os candidatos têm condição de
enxergar o próprio nome. Trata-se de um ponto original, de que se pode ver
algo. A frase correta, pois, é esta: "disputando um lugar donde pudessem
enxergar a lista".
3.AONDE (a que lugar?, ao lugar ... que) e PARA ONDE (para que lugar?, para o
lugar ... que) se empregam com verbos que indicam direção "a" ou
"para": ir, dirigir-se, encaminhar-se, imigrar, destinar-se... AONDE
refere-se a tempo transitório e PARA ONDE a permanência curta ou longa.
Ex.: aonde vais?; ninguém se dirige aonde pode perder-se; o porto para onde vou
não admite volta.
4.POR ONDE (por que lugar?, pelo lugar ... que) se usa com verbos que indicam
passagem, como transitar, passar, veicular, transmitir....
Ex.: por onde passou?; a terra por onde migrou é considerada santa.
14.UM HÍFEN À-TOA NÃO É COLOCADO À TOA
O leitor Renato Oliveira está com dúvida sobre a grafia de
"foradalei": com hífen ou sem?
Existem vários termos locutivos que podem ser substantivos, adjetivos ou
advérbios. É o caso de fora-da-lei / fora da lei, terra-a-terra / terra a
terra, à-toa / à toa, corpo-a-corpo / corpo a corpo, à-beça / à beça,
dia-a-dia / dia a dia... De sua função no discurso, dependerá a presença ou
não do hífen.
Seguinte: quando tais locuções são substantivos, adjetivos ou
pronomes-adjetivos, escrevem-se com hífen. Se forem advérbios, escrevem-se sem
hífen.
É um fora-da-lei (marginal/subst.) porque vive fora da lei
(marginalmente/adv.).
Na luta corpo-a-corpo (corporal/adj.), os atletas combatem corpo a corpo
(corporalmente/adv.).
Dia a dia (diariamente), os atos do dia-a-dia (cotidiano/subst.) transformam-se
em hábitos.
Dizem que vive à toa (ociosamente/adv.) porque é um cara à-toa (vil,
desprezível/adj.).
Fala à beça (muito/adv.), principalmente quando têm ouvintes à-beça
(muitos/pron.adj.) a escutá-lo.
Os problemas terra-a-terra (materiais/adj.) são piores quando se vive terra a
terra (materialmente/adv.).
Um abraço do Professor Nilton Mario Fiorio.
nmfiorio@cultura.com.br
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