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Clin-Clin, o Beija-Flor Mágico

Clin-Clin é um beija-flor muito especial, a mais delicada e gentil criatura do mundo encantado! Igual, não existe. Impressiona pela sua plumagem de muitas cores, o rabo parece uma tesoura aberta, tão grande para seu tamanho que, quando pousa num galho de árvore, mais da metade fica para fora.

Parece um príncipe de tão elegante! Delicado e cheio de estilo, um artista em acrobacias no ar, façanhas que enchem os olhos de quem admira o milagre da natureza. Clin-Clin vive de cartola no topete, onde esconde uma varinha de condão, presente de uma fada madrinha, generosa como todas que povoam os contos infantis.

Certo dia, ao beijar a Margarida-do-Campo – uma flor, mas rabugenta - leva um safanão.

- Atrevido! – xinga a margarida - Afaste-se de mim!

Clin-Clin recua um pouco, assustado...

- Não acredito! É assim que recebe beija-flor?

- Detesto beija-flores.

- Que pena, adoramos fazer carinho nas flores – revela Clin-Clin, afastando-se um pouco.

Ela mexe a haste, protestando:

- Seu intrometido! O que sinto ou deixo de sentir não é da sua conta.

- Meu Deus!... Por que tanto rancor?

Margarida vira-se mais irritada, dizendo:

- Odeio tudo! Principalmente os chatos.

Uma rosa amarela, que assistia a tudo, palpita:

- Deixe de ser bobo, não perca tempo com essa malcriada.

Clin-Clin voa até a rosa, beija-lhe e diz:

- Não consigo entender o que se passa com sua vizinha margarida.

- Vive assim, passa o dia amuada e infeliz – denuncia a rosa.

- Oh, não! Mal posso acreditar. Adoro o néctar que vocês me oferecem; encanta-me o perfume que exala de suas pétalas. Amo as flores!...

- Ai... Ai que romântico! - suspira outra flor, fresca e risonha.

Clin-Clin resolve ir embora, e despede-se:

- Adeus, flores.

- Ufa! – suspira aliviada a margarida, ao ver o passarinho sumir no meio do campo florido com seu vôo rápido e gracioso.

Em casa, muito preocupado, o beija-flor consulta a varinha de condão:

- Varinha Mágica, por que a Margarida-do-Campo foi tão má comigo?

- Meu doce Clin-Clin, ela está doente... Doente da alma. Acha-se muito feia, deselegante demais para uma flor. Ao beijá-la, pensou que estava zombando de sua feiúra.

Clin-Clin surpreende-se:

- Complexo de inferioridade? Oh, não! Isso não combina com uma flor! As flores têm a nobre função de tornar o mundo mais bonito, inebriando a vida com o perfume do amor e da virtude.

- Bravo! – aplaude a varinha.

- Bem, se é assim, darei jeito de fazê-la mudar de idéia e ser feliz!

Na manhã seguinte, Clin-Clin sai de casa cheio de ânimo para tentar tudo de novo. Ao se aproximar da Margarida-do-Campo, foi recebido com a mesma brutalidade.

- Olha aqui, sua maluquinha, podemos conversar? – pergunta o beija-flor um tanto irritado.

- Não quero beijo de passarinho nenhum. Vocês são todos uns embusteiros!

- Ora essa! Não diga asneira. Fui criado por Deus para beijar as flores!

- Ah, é!... exclama a flor - Pois então cai fora, não sou flor.

- Como não?

- Ora bolas, não me engana!... Tão mixuruca assim não passo de um ramozinho de nada... – protesta a margarida.

- Isso não é verdade! Não diga isso. Pensando bobagem será sempre feia, mas só para você mesma.

- Você deve ser míope! Veja minhas pétalas, são finas demais e tão brancas que dói a vista de quem olha.

Clin-Clin se emociona:

- Não diga isso!

- Uma flor – suspira a margarida - tem de ser muito colorida, pétalas bem perfiladas e vistosas.

Clin-Clin inflama o peito e com ar de bom entendedor, e filosofa:

- Nada disso, suas pétalas brancas são tão puras que nenhuma outra possui igual.

- Zombando de mim, não é? – esbraveja a Margarida.

- Estou sendo sincero, juro! Tudo não passa de sua imaginação. Você é maravilhosa como todas flores do Universo.

Nervosa, a Margarida desaba a chorar. Chora tanto que suas pétalas caem todas. Ao se ver despetalada enlouquece mais ainda:

- Santo Deus, que frio! Como posso viver sem pétalas? Agora morrerei congelada ou queimada pelos raios do Sol.

- Não se desespere, terá suas pétalas de volta – assegura o beija-flor.

Comovido, tira sua varinha e bate três vezes na corola da margarida. Num instante, pétala por pétala, retorna ao seu lugar.

- Que chique!... exclama a margarida, emocionada.

- Agora, espero que se valorize. Importantes que aprenda a reconhecer a beleza de suas pétalas e o quanto elas são essenciais para a vida de todos nós seres vivos.

- Obrigado, Clin-Clin! Garanto não ter mais inveja das outras flores e também prometo tirar da cabeça os pensamentos ruins.

E depois de refletir um pouquinho:

- Oh!... Pássaro de nobre alma!... Esse gesto de bondade e tolerância jamais se apagará de meu coração.

Clin-Clin, meio embaraçado...

- Não é nada, comparado à sua tarefa de embelezar e perfumar o mundo!

- Que lindo!...- sussurra outra flor ao lado.

- Quero ser seu amigo para sempre – revela a Margarida-do-Campo, sorrindo.

- Doce amizade!... Mais uma bela flor plantada no meu coração! Adeus!... Vou beijá-la e partir.

A flor, transbordando pólens, diz:

- Quantos beijos você quiser, mimoso pássaro!...

O céu estava limpo de nuvens, muito azul, e os raios de sol pousavam nas árvores, com doçura matinal.

Mágica e formosa manhã de primavera!  

 

© Welington Almeida Pinto 
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