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Havia,
no tempo em que os bichos falavam, um coelho extraordinariamente inteligente
chamado Coelhino, que vivia feliz numa região belíssima da Serra da Canastra
bem próxima à nascente do Velho Chico.
Era
um coelho poeta que adorava prestar homenagens ao Sol. Acordava bem cedinho para
assistir à aurora matinal já com um poema na ponta da língua:
Vem,
Sol amado,
é seu o amanhecer
seus raios cromados
façam a Terra viver.
Certo
dia, Coelhino acorda louco para ver o Sol bem de perto. Escolhe o lugar mais
alto da Serra da Canastra e parte animado para lá. Anda e saltita sem parar
pelos campos floridos do chapadão, até que, de tão cansado e a visão
baralhando tudo à sua frente, tropeça na raiz exposta de um Araticum Cortiça,
bate com a cabeça numa pedra e cai desacordado. Pobre coelho!... Começa a
delirar, sonhando que ia mesmo ao encontro do Sol; em vez de saltar, voava feito
foguete até ficar pertinho do astro, que o recebe com sorriso de todo tamanho:
-
Olá, amigo Coelhino!
-
Olá, amigo Sol. Que bom vê-lo tão de perto!
-
O prazer é meu.
-
Gosto tanto de você, que fico triste quando desaparece por muito tempo. Santo
Deus!... Quando não está, a chuva cai sem parar. Quase morro afogado! Eu e
todos os bichos roedores queremos mais Sol, menos chuva.
-
Impossível. Vocês querem morrer torrados? A chuva é tão importante para vida
na Terra como são meus raios.
-
Ah, é!... Mas, adoramos o morninho gostoso que manda para a Terra!– exclama
Coelhino, sorrindo.
-
Aposto que nunca parou para considerar o mundo das nuvens?
-
Gosto de olhar as nuvens só para ver as figuras que formam.
-
Muito mais do que isso! São flocos flutuantes de água e gelo para regar e
controlar a energia que entra e sai da Terra.
-
Puxa!...
-
Sabe como são formadas? Eu explico: através da transpiração dos vegetais e
da evaporação dos rios, mares e lagos. A umidade passa do estado gasoso para
líquido, congela, e forma nuvens.
-
E chuvas?
-
Com a força da gravidade os cristais de gelo se precipitam para Terra. Na
queda, liquefazem e se transformam em milhões e milhões de gotas de água
formando uma cortina líquida que chamamos de chuva.
-
Meu Deus!... Então aqui em cima flutua um oceano de gelo! - Coelhino sorria com
cara de quem estava entendendo tudo.
-
Chuva de gelo? Lembra de ter visto? – pergunta Sol.
-
Claro. Vez ou outra cai uma assim no chapadão. Não tem diversão mais gostosa
do que ficar lambendo o gelo que vem do céu.
-
Das nuvens. Esta é a chuva de granizo. Acontece quando gotinhas de água se
congelam novamente ao atravessar uma camada de ar frio.
-
E aquela chuvinha teimosa que cai dias sem parar, tem nome?
-
Claro, é a chuva Criadeira. Para molhar bem o solo.
-
Tem mais?
-
Sim. A chuva Ciclonal, de Convecção e de Relevo. Além da Artificial, que o
Bicho-Homem provoca por meios científicos.
-
Que chuvarada! – admira Coelhino.
-
Para o sucesso do ciclo da água a ajuda de quem habita a Terra é muito
importante, principalmente do ser humano. Ele precisa parar de destruir
florestas, principalmente as ciliares. Não remover montanhas. Não desviar
rios. Não poluir águas potáveis. Não contaminar o ar.
-
Cruz-credo!... Uma coisa eu garanto, bicho não faz nada disso.
Sol
franze o carão:
-
Huuummm!... Eu sei. Bicho-Homem é que gosta de fazer tudo isso, além do mais,
despeja na atmosfera toneladas e toneladas de gases para destruir a camada de
ozônio que protege o planeta.
-
Repito, os bichos não têm culpa.
-
Iche!... Estupidez do Bicho-Homem!
-
Trem danado!...
O
astro rei continua, nervoso:
-
Observo que o homem moderno usa muito objetos descartáveis, feitos de
plásticos, cada vez menos lavam copos, toalhas, fraldas, vasilhames de bebida.
Com pouco uso são despejados como lixo em aterros, rios ou queimados,
contaminando o ar com gases venenosos – adverte o astro, recolhendo um pouco
os raios.
-
Iche!... Vai ver, é por isso, que meus parentes que moram nas grandes cidades,
vivem dizendo que os rios estão cada vez mais rasos, sujos e malcheirosos.
Coitados!
-
Burrice!... irrita-se Sol.
-
Não se aborreça. Sabe de uma coisa?... Acredito que tudo pode mudar –
anima-se o coelho com otimismo.
Sol,
mais calmo, expande os raios:
-
Ainda bem. Tenho especial carinho pela Terra, apesar de tudo. Enquanto puder,
trabalharei para manter vida na Terra, garantindo a fotossíntese.
-
Foto o quê? – surpreende-se Coelhino.
-
Fotossíntese. O processo de converter energia luminosa em energia química para
alimentar as plantas.
-
Que legal!... Então as plantas se alimentam de sol?
-
Principalmente.
-
E como se dá a fotossíntese?
-
Pela reação de três elementos: clorofila, água e gás carbônico.
-
Nota dez!...
-
Enquanto depender de meus raios terá bastante chuva para você comer sempre
folhinhas tenras de capim bem nutrido.
Coelhino
levanta as orelhas e suspira:
-
Assim fico mais sossegado.
E
conclui:
-
Então, você é o dono da vida! ...
-
Sou dono da luz, do calor e da energia para garantir a vida na Terra, o único
planeta dos que orbitam em torno de mim, que tem esse privilégio.
-
Ufa!... Que aula!
-
Daí por diante, as coisas vão se transformando de acordo com as Leis da
Natureza, boa vontade e inteligência dos homens - completa o Sol, todo vaidoso.
-
Bicho-Homem tem muito que aprender com os bichos – protesta Coelhino.
-
Claro!... Com a Natureza aprendemos a cada instante. Não fique chateado com
minha ausência nos dias em que o céu parece estar forrado de camadas de
algodão sujo. Nesses dias, estarei jogando os raios em outra região da Terra,
para que o ciclo não se interrompa.
-
Legal!...
-
Você é um Coelho sabido. Quero agradecer os poemas que compôs para mim.
-
Uai!... Como sabe?
Quando
Sol ia responder, Coelhino desperta; a cabeça doía. Meio tonto fica de pé
sobre as patinhas traseiras, protege os olhos com a pata dianteira e, com a
outra, dá longo adeus ao amigo Sol, pronto para se pôr. E recita outro
versinho:
Adeus
Sol querido,
Você agora vai descansar,
Nunca se esqueça deste amigo
Que sua luz vive a admirar.
Sol
parece que escutou. No mesmo instante abre um sorriso brilhante, espalhando
raios para todo canto.
Coelhino
arredonda mais ainda os olhos, e grita:
-
Trem de doido!
Esquece
a dor de cabeça e parte saltitante de volta para casa.
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