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Eram duas vezes
© Vera Ione Molina


Lando morava no litoral. Aos seis anos, conhecia bem o mar. Tinha um embalo na voz e no andar que lembrava o balanço das ondas.
Leko era um menino da cidade. Mar? Só em revistas. Bichos? Nos álbuns de figurinhas. Aventuras? Na televisão.
Uma tarde, Lando apanhava mariscos para o jantar quando enxergou um ser vivo diferente. Colocou-o num prato com água num lugar onde os pais não descobrissem. Mas havia um problema: se aquilo fosse bicho, teria de se alimentar. Que tal algas? Deixava uma pequena alga no prato, de manhã, antes de sair com o pai para o mar.
- Leko e suas figurinhas de bichos - dizia a mãe. E Leko sempre às voltas com a coleção.
Uma vez, ele encontrou a figura de um bicho muito especial. Todo colorido, jeito de cavalo. Ricardo, o irmão, leu o nome: cavalo-marinho.
- Que vontade de ver um bicho daqueles!
Começou a pedir à mãe que os levasse a uma praia para conhecerem o mar e os bichos.
- Vamos ver se o dinheiro dá - dizia ela e prometia fazer o possível.
Os dias iam passando. Um agia, outro sonhava.

Chegou dezembro

Lando ajudava o pai a carregar peixes e materiais de pesca, juntava mariscos para as refeições; vendia puxa-puxa que a mãe puxa-que-puxa e troca-que-troca de mão, depois enrola em papel encerado vermelho, azul e branco e coloca numa cesta bem grande.
Lando saía rua afora. Os papéis coloridos com seu brilho contra o sol, o grito com som de mar:
- Olha o puxa-puxa de leite, de amendoim! - As crianças saindo das casas e chamando o menino-vendedor.

Não é verdade que o dinheiro da mãe do Leko espichou? Eles vieram para a praia: a mãe, Ricardo e Leko.
Foi depois do almoço, no segundo dia de praia, que o Leko ouviu aquela cantoria engraçada:
Olha o puxa-puxa, de leite, de amendoim.
Correu para fora, muito mais pelo menino, que era bem do tamanho dele, do que pelo doce.
- Um de leite, outro de amendoim, pro meu irmão.
Lando entregou os dois puxa-puxas, pegou o dinheiro e ia gritando, quando Leko bateu no braço dele e perguntou:
- E tu, não tens irmão?
Lando, olhando os pés, respondeu, a voz sumindo:
- Só um pequeno que ainda nem brinca.
Leko, sem saber mais o que fazer para se aproximar do menino que morava na praia, pediu que ele esperasse um pouco. Lando esperou, como se tivesse esquecido de que estava trabalhando. Os olhos se abriram enormes, a boca em forma de O, quando o Leko abriu o álbum na página do cavalo-marinho.
E agora? O que tinha ele para mostrar ao novo amigo?
- Eu também tenho uma coisa para te mostrar. Pergunta pra tua mãe se ela te deixa ir lá em casa. Eu passo aqui as cinco da tarde.
Foi, gritando bem rápido, por que se deu conta de que ainda tinha muito para vender:

Olha o puxa-puxa de leite, de amendoim
Olha o puxa-puxa de leite, de amendoim
Olha o puxa-puxa de leite, de amendoim

Chegando em casa, Lando entregou o cesto, o dinheiro e correu para ver o bicho (ou planta?). Hoje ele distinguia um rabinho e, que ( estranho!) uma cabecinha. Era bicho! Escondeu o prato ao ouvir as vozes do pai e da mãe. Que sensação: um frio na barriga, o coração pulando como um peixe fora do mar. Não, ele não deixaria ninguém jogar fora o segredo. Queria ver que bicho dava e agora tinha para quem mostrar.

Leko estava ansioso para conhecer a casa do outro. Foi à praia de manhã cedo, almoçou, ajudou a lavar os pratos e sentou à porta da rua.
O pescoço estava dolorido de tanto olhar para um lado e para outro, quando ouviu de longe:

Olha o __xa__xa de ___te, de ______im
Olha o __xa puxa de leite, de ______im
Olha o puxa-puxa de leite, de amendoim

Estava bem clara a voz de Lando. Leko correu para a mãe, avisou que já voltava e foi ao encontro do amigo.
Lando, o rosto vermelho e suado, perguntou, olhando para os lados, para se certificar de que ninguém espiava:
- Então, tudo certo?
- Tudo certo - respondeu o Leko caminhando lado a lado com o amigo, o álbum embaixo do braço.
Na casa de Lando, foram direto ao prato. O bicho crescera mais. As formas mais definidas, ele parecia ser de várias cores. Os meninos ficaram mudos olhando para ele.
Lando puxou o álbum do Leko. Abriu ligeiro à página do cavalo-marinho e olhou para o prato e para o álbum.
Leko fez o mesmo.
Não havia dúvida: o bicho que Lando encontrou no mar era igual ao que Leko passou tanto tempo desejando conhecer. Lando foi ensinar o caminho de volta para Leko, os dois sorrindo.
Leko brincava com os vizinhos, ia à praia, passeava com a mãe e o irmão, até cair de sono à noite.
Lando ajudava o pai, ajudava a mãe, carregava balde, carregava cesto, trabalhava, trabalha__, traba_____, tra_______, que sono... caía duro na cama todas as noites.
Os meninos conversavam, olhavam o cavalo-marinho, trocavam a água, mas sabiam que era impossível guardá-lo para sempre. O lugar dele era o mar, onde poderia se alimentar e se reproduzir.

Chegado o momento de discutir o destino do bicho, os dois meninos estavam tristes, mas decididos a fazer o que fosse melhor para ele. Iam devolvê-lo ao mar na tarde seguinte, antes da partida do ônibus que levaria Leko para a cidade.

Soltaram o cavalo-marinho num lugar deserto para observar o reencontro com o habitat. Muito desajeitado, ele se desequilibrou e caiu para um lado. Equilibrou-se e pumba: caiu para o outro lado. Conseguiu firmar o corpo e se foi naquele balanço para frente e para trás. Mergulhou e sumiu.

Leko se voltou para Lando:
- Quero passar minhas férias sempre neste lugar. O meu irmão vai escrever o teu endereço num papel para eu te mandar cartas quando aprender a escrever. Vamos aprender bem ligeiro?

Lando, a voz sumindo:
- Vamo, vamo sim - batendo nas costas do amigo.



Vera Ione Molina
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