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Canal Contos
Infantis
De crianças, animais e tempo, tudo a filosofar
© Ridamar Batista
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Era uma vez, há muito tempo atrás, numa terra muito distante, havia um lindo rio e dentro dele um peixe mágico que sabia conversar com as pessoas que queriam entendê-lo.
Neste tempo, as pessoas conversavam com os animais e com as plantas e até algumas pedras brutas do caminho, sabiam falar alguma coisa.
Era um tempo de muita convivência e as pessoas sentavam debaixo das árvores para refrescar o calor e fazer a sesta e nestes momentos travavam maravilhosas conversas com a árvore, os pássaros, algumas formigas desocupadas e muitas cigarras cantantes.
As pessoas bebiam água do rio e cantavam à sua margem, afinando a voz. Eram muito felizes, apesar das dificuldades comuns a todos.
Cada estação do ano era vivida de maneira diferente.
No tempo da chuva o rio ficava muito cheio e ninguém tinha coragem de tomar banho nele, mesmo sabendo que o peixe mágico estava por perto e com certeza haveria de socorrer algum imprudente que ousasse desafiar o senhor rio enfurecido pelas grandes correntezas que se formavam quando a chuva era muito intensa.
Havia uma lavadeira que todos os dias chegava cedo e se punha a cantar bonito enquanto ensaboava os panos.
O peixe mágico,ah! ia me esquecendo, chamava-se Momom, gostava de ouvir o canto de Dona Caê a lavadeira cantante.
Já estavam acostumados um com outro, de tal forma que quando alguma roupa se desprendia teimosa, do controle de Caê, e começava a rodopiar correnteza a baixo, Momom, sempre atento e esperto buscava a roupa e trazia solícito para Caê.
Eram cenas de companheirismo, interação e confiança.
Por ali viviam pessoa que se destinavam a morar sempre no mesmo lugar, assim como Momom, o peixe mágico, tinha como função viver sempre por perto daquelas correntezas do belo rio. Nunca saía dali. Cuidava dos peixes menores, cuidava do tempo das desovas, para que todo aquele mundo equilibrado não viesse ruir.
Era um peixe enorme. Muita gente à primeira vista chegava a ficar com medo dele, mas quando o via dançar e assobiar, jogando água para cima e brincando como criança, logo o medo se desfazia e uma grande amizade e admiração nascia no coração de todos que o conheceram.
Foi assim que um dia a menina andante chegou até ali.
Foi amor a primeira vista. Mal nascia o dia e já ia ela para a beira do rio nadar e brincar, criando um elo de amizade com Momom, tão forte e tão salutar que quando a menina andante tinha que partir de novo Momom ficava cheio de saudades e se punha triste a cantar sozinho.
Mas Caê sempre o confortava dizendo que um dia ela voltaria outra vez e assim foi que sempre aconteceu, a menina andante sempre voltava e eles eram sempre felizes.
Depois de muitas idas e vindas os dois se acostumaram com as ausências um do outro, pois compreenderam que cada qual tinha a sua missão nesta vida e que a dela era viajar.
Caê conhecia muito bem as mudanças do tempo, mas estava sempre ali, fazendo a mesma coisa, numa eterna tarefa de lavar a roupa.
Observadora sabia quando as árvores trocavam de folhas, o peixe mágico que conversava com ela também trocava sua escama e ficava mais brilhante, e sabiam os dois que quando os dias eram pequenos e as noites compridas também era época da menina andante voltar.
Ela chegava branca como a neve, a pele macia, os cabelos longos e negros ao vento e trazia muita história bonita para contar.
Momom queria saber tudo. Tinha sede de aprender o que se passava fora de seu reino.
Amarilis era o nome da menina.
Chegava sempre cheia de saudades.
Os caminhos por onde andava nada tinham de tranquilos. Eram caminhos do prender e do experimentar. Essa era a sua missão, para assim poder contar para aqueles que tinham a missão de ficar parados.
Trazia uma bagagem grande, vinha de ombros cansados, mas vinha feliz porque sabia que ali era seu repouso.
Na grande gruta ao lado do rio bonito, ela podia dormir a sua noite mágica e sonhar e descansar o corpo e a alma da longa caminhada.
Havia na gruta um lugar onde descansava seu bastão, e quem cuidava dele era uma velha e sonolenta lagartixa. Também ela sua tarefa, porque o bastão de Amarilis era muito importante para ela quando o caminho se fazei muito íngreme e suas pernas ficavam fracas.
O livro de anotações era guardado com zelo debaixo de uma pedra menor, onde a umidade não penetrava nunca, porque suas páginas continham todo o segredo que trazia para contar a seus amigos.
Naquelas manhãs ensolaradas, sentada à beira do rio, conversava longamente com Momom.
Ele contando de suas proezas de sempre e ela de suas longas jornadas.
Quando os dias ficavam curtos o rio também ficava mais seco, e grandes praias de areia de pedregulho formavam um lindo diadema. Nestes tempos Momom ficava preocupado, com medo de seu lado secar, mas isso nunca acontecera.
Nadava, nadava e nadava, mas às vezes, seguindo-nos correnteza abaixo, deparava com lugares onde tínhamos que carregar a canoa nas costas e ele, saltar de um lado para outro, numa bela e majestosa acrobacia.
Caê, a lavadeira que nunca se afastava dali, numa labuta constante de depuração, era também uma filósofa.
Sabia mais que todos, pois conhecia o lado obscuro de cada um.
Para ela as pessoas vinham de dentro para fora, para os outros as pessoas se mostram de de fora para dentro.
Para cada um dos que com ela convivia, tinha uma palavra certa no momento exato.
Tudo naquela terra distante era meio mágico.
Conhecia as luas de cada um. Muitas vezes avisava aos pássaros e às cigarras cantante que alguém estava numa lua negativa, para terem cuidado.
Sabia primeiro do que ninguém quando as mulheres do lugar estavam a gerar seus filhos e sempre premunizava certo.
Amarilis tinha por ela maior respeito. Sempre que voltava fazia uma verdadeira reciclagem de valores e saberes, porque aquela que ficara em seu canto também havia aprendido muito enquanto Amarilis viajava.
Caê sabia contar as estrelas do céu e sabia quando cada uma estava em movimento. Sabia quando cada erva da beira do rio floria e sabia para que servia cada folha daquelas plantas para curar seu povo.
Caê sabia muito.
Naqueles tempos e naquele lugar tão longe, onde a campina verdejava quase todo o ano, e onde existia aquele peixe mágico que conversava com Amarilis, também o rio falava. Nem sempre... Claro, era muitíssimo reservado.
Cada palavra sua soava leve, suave e certeira. Sabia falar mansa e calmamente a sua verdade.
Certa vez estava Caê num daqueles dias em que ficava totalmente só, porque Momom também havia recolhido ao seu mundo secreto, obedecendo as ordens de Saturno que reinava no céu naqueles dias.
Parecia mais um ermitão do que um peixe mágico, brincalhão e festivo.
Caê deitou-se tranquilamente numa pedra à beira do rio e na sombra daquela grande Gameleira se deixou ficar olhando distraidamente as águas que rolavam.
Seu rosto refletia naquelas águas como se ali houvesse um grande espelho. Podia fitar seus olhos.
E foi assim, absorta neste encantamento que fitando dentro de seus próprios olhos, ouvira por primeira vez a voz do rio.
Ao sussurrar-lhe um conselho com voz tranquila e pausadamente, Caê sentiu um tremor no corpo e um susto enorme.
Nunca imaginaria que o rio pudesse sussurrar tão sábios conselhos.
Com o susto que levara esbarrou a mão na água e o espelho se desmanchou, o rio voltou a correr por cima de suas queridas pedras e não mais pronunciou palavra.
Contudo aquele conselho ficou martelando dentro de si mesma.
Assim falou o rio:
____"Se quiseres conhecer alguém, primeiro conheça-te a ti mesma."
Que coisa rara... parecia já haver ouvido esta frase de alguém, não conseguia se lembrar, mas naquele momento a frase servia mesmo para solucionar um problema que a incomodava a algum tempo e somente ela sabia o que era.
E foi assim que Caê aprendeu a ouvir a voz do rio. Na calma das manhãs, quando ninguém estava por perto, no silencio de si mesma e do rio, se punha deitada sob a sombra da Gameleira, deixava seu rosto refletir nas águas do rio e se punha a fitar seus próprios olhos e quando tudo se quedava em paz, o rio falava.
Nunca mais ficou surpresa e nem amedrontada, apenas ouvia o que o rio tinha para ensinar coisas bonitas e trazer sábios conselhos. Ouvia e calava.
Por isso a lavadeira Caê era uma filósofa, sempre sabendo aconselhar alguém e compreender a todos. Ela também sabia ouvir a voz do espelho que refletia sua própria alma.
Fora ela que encontrara para Amarilis, aquela gruta onde descansava de suas grandes jornadas pelo mundo.
Certa vez, bem fora do tempo das flores, nascera uma grande flor, vermelha, de pétalas largas e de perfume exótico. Caê nunca havia visto aquela flor, naquele lugar e naqueles dias. Admirada, guardou a flor enquanto Amarilis viajava. Queria saber de onde viera aquela flor, só podia ter sido a menina, que para matar a saudade dela e de Momom, plantara ali alguma espécie trazida de longe.
E foi mesmo isso que acontecera.
Momom, muitas vezes era visto a meio corpo fora dágua, a sentir o perfume daquela flor.
No meio da pedreira, bem no centro da gruta, havia um pequeno campo de terra fértil. Ali Estava plantada a flor vermelha e perfumada. Exalava um cheiro de amor e saudade, em dias chuvosos em que nem Caê e nem Momom queria sair de suas casas.
Foi a maneira que Amarilis encontrou de trazer alegria onde tudo é triste.
Por maior que fosse a enchente no rio, nunca atingiria aquele lugar resguardado onde estava plantada a flor. A Flor que Amarilis deixara.
Ela sabia que sua presença estaria ali com eles, apesar da distancia e do afastamento.
Sabia também que quando quisesse se abrigar no ninho amado de seus amigos, bastava voltar o pensamento para a flor e logo sua alma voltaria para matar a saudade, e isso ela fazia sempre que viajava.
Em suas longas viagens pelo mundo, às vezes entrava em túneis escuros de onde não se fazia contato com ninguém. Era como se dormisse um sonho hipnótico, donde só despertava muito tempo depois. Não sabia por onde havia caminhado e nem que coisas tinha feito. Sabia-se guiada por uma força invisível que a conduzia a mundos desconhecidos, mas que era mister vivê-los, para deles trazer notícias.
Entabulavam longa conversas, a menina Amarilis e o peixe mágico Momom. Vez por outra Caê metia sua colher de pau...
Uma vez perguntou Amarilis a Momom, o que ele achava das conversas que faziam mesmo estando separados por longas distancia.
Para ela estas conversas através da mente e das emoções lhe faziam muito bem. Momom, parou para pensar no assunto, para ele tão normal, nem fazia diferença. Mesmo assim explicou para Amarilis:
_____Quando quiser que alguém realmente a ouça, converse com esta pessoa através do pensamento.
_____Como? interrogou Amarilis.
_____Muito simples. Deixe sua alma calma e serena, mentalize o espaço físico onde se encontra a pessoa com quem quer falar, crie dentro de sua mente a mente do outro, se transporte para lá e no silencio de voces dois, fale simples e claramente aquilo que deve ser dito.
Meio sem entender bem, Amarilis silenciou e pensou.
Momom, vendo a incerteza tentou explicar melhor:
____Veja como é fácil o que eu digo:
____É como se você fosse o outro, entende? Você tem que se sentir exatamente como o outro sente. É um transporte mágico de personalidades, você entra na mente do outro e o outro se torna você.
Encabulada Amarilis se cala. Nunca falava daquilo que não sabia.
Mais uma vez, Momom fala.
____Eu sei que isso não se faz assim, de qualquer maneira e a qualquer momento. Tem que se exercitar .É preciso estar consciente daquilo que queremos e muito mais ainda estar em harmonia com o mais sagrado de nós mesmo.
Mas é claro que para Momom, que era mágico, tudo parecia fácil. Amarilis ainda tinha muito que aprender, alem de suas andanças pelo mundo.
Momom não tinha pressa.
Gostava de ensinar. Já havia ensinado isso e muito mais para Caê, vivendo lado a lado,muito aprendera com aquele peixe falante.
Naquele dia, Amarilis viu um brilho doirado nos olhos de seu amigo. Sentiu um arrepio na alma. Parecia que algo de novo tinha acontecido em si mesma. Como se uma porta se abrisse diante de si. Verdadeiro arco-iris se formou sobre sua cabeça e cada cor tinha um recado diferente. As cores foram se desfazendo umas das outras e tomando lugar em seu corpo, de tal forma que cada cor do arco-iris se fixou num determinado ponto da cabeça para baixo. Sentiu uma luz vermelha desprendendo de seu coração, exatamente da cor da planta que havia deixado ali, para mantê-los sempre juntos.
Uma vez, conversando com Momom, ele ficou corado de vergonha e resolveu perguntar a menina Amarilis como era o mundo em que vivia, quando não estava ali.
Momom tinha vergonha de conhecer apenas aquele pedaço de rio, por onde nadava desde que era menino. Nunca havia ousado uma nadada fora de seus paradisíacos lagos e correntezas. Inclusive, antes de conhecer a menina viajante, nem sabia de outros mundos.
____Amarilis, perguntou ele, de que é feito os montes e as estradas por onde você passa? Como é a neve? e os ventos outonais de que me fala tanto? E as pessoas? é verdade que são tolas e que destrói a natureza de onde tiram seus alimentos?
Outro dia passou por aqui um forasteiro e sem querer ouvi sua conversa com Caê. Ele dizia que os homens que vivem longe daqui, destroem a mata para vender suas madeiras. Que caçam os grandes peixes para consumir sua carne e que existem cidades tão grandes que os homens se amontoam como andorinhas em seus ninhos.
Amarilis ficou calada longo tempo, mas depois começou a conversar toda tagarela, como sempre.
____Foi explicando cada pergunta, foi dando respostas e desculpando seus companheiros, os homens, para que seu amigo peixe mágico não ficasse tão decepcionado.
Ela tinha vergonha de seus irmãos e de sua atitude diante da vida e do mundo.
Mas era um pouco orgulhosa e queria disfarçar o incômodo das perguntas.
É mesmo aquilo que Caê sempre dizia:
____Os homens se mostram de fora para dentro.
Tudo é muito disfarçado. É como se estivéssemos sempre num baile de fantasia.
Somente Caê conhece o interior das pessoas, porque ela é a lavadeira.
Porém... Agora dorme minha pequena menina, que já é tarde e a lua quer lhe contar outros segredos.
Amanhã eu conto mais desta história de peixe encantado e menina viajante.
Dorme com Deus.
Apaguei a Luz e fui dormir também. Quem sabe eu receba uma nova lição para contar a minha neta?
x-x-x-x-x-x-x-x-x
Amarílis passeava pelos campos, ria com o som do vento e dançava ao ritmo dolente das águas do rio.
Estava sempre em comunhão com tudo.
Seu mundo era tão vasto que sua mente nunca parava de pensar em tudo que via e sentia através de cada coisa com que formava delicadamente aquele lindo tapete, a sua própria vida.
Amava seus amigos, suas longas viagens, seus aprendizados e sua gente. Era mister continuar a apreender...
© Ridamar Batista |
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