Grandes Escritores



Luís Vaz de Camões
Sonetos da Edição de 1595 (1)


Enquanto quis Fortuna que tivesse 
Esperança de algum contentamento, 
O gosto de um suave pensamento 
Me fez que seus efeitos escrevesse. 

Porém, temendo Amor que aviso desse 
Minha escritura a algum juízo isento, 
Escureceu-me o engenho co tormento, 
Para que seus enganos não dissesse. 

Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos 
A diversas vontades, quando lerdes 
Num breve livro casos tão diversos, 

Verdades puras são, e não defeitos; 
E sabei que, segundo o amor tiverdes, 
Tereis o entendimento de meus versos. 



Eu cantarei de amor tão docemente, 
Por uns termos em si tão concertados, 
Que dous mil acidentes namorados 
Faça sentir ao peito que não sente. 

Farei que o Amor a todos avivente, 
Pintando mil segredos delicados, 
Brandas iras, suspiros magoados, 
Temerosa ousadia e pena ausente. 

Também, Senhora, do desprezo honesto 
De vossa vista branda e rigorosa, 
Contentar-me-ei dizendo a menor parte. 

Porém, para cantar de vosso gesto 
A composição alta e milagrosa, 
Aqui falta saber, engenho e arte. 



Tanto de meu estado me acho incerto, 
Que em vivo ardor tremendo estou de frio; 
Sem causa, juntamente choro e rio, 
O mundo todo abarco, e nada aperto. 

É tudo quanto sinto um desconcerto: 
Da alma um fogo me sai, da vista um rio; 
Agora espero, agora desconfio; 
Agora desvario, agora acerto. 

Estando em terra, chego ao Céu voando; 
Num'hora acho mil anos, e é de jeito 
Que em mil anos não posso achar um'hora. 

Se me pergunta alguém porque assi ando, 
Respondo que não sei, porém suspeito 
Que só porque vos vi, minha Senhora. 



Transforma-se o amador na cousa amada, 
Por virtude do muito imaginar; 
Não tenho, logo, mais que desejar, 
Pois em mim tenho a parte desejada. 

Se nela está minha alma transformada, 
Que mais deseja o corpo de alcançar? 
Em si somente pode descansar, 
Pois consigo tal alma está ligada. 

Mas esta linda e pura semidéia, 
Que, como o acidente em seu sujeito, 
Assim com a alma minha se conforma, 

Está no pensamento como idéia; 
E o vivo e puro amor de que sou feito, 
Como a matéria simples, busca a forma. 



Passo por meus trabalhos tão isento 
De sentimento, grande nem pequeno, 
Que, só pela vontade com que peno, 
Me fica Amor devendo mais tormento. 

Mas vai-me Amor matando tanto a tento, 
Temparando a triaga co veneno, 
Que do penar a ordem desordeno, 
Porque não mo consente o sofrimento. 

Porém, se esta fineza o Amor sente, 
E pagar-me meu mal com mal pretende, 
Torna-me com prazer como ao sol neve. 

Mas se me vê cos males tão contente, 
Faz-se avaro da pena, porque entende 
Que, quanto mais me paga, mais me deve. 



À morte de D. Antônio de Noronha 

Em flor vos arrancou de então crescida 
(Ah! Senhor dom Antônio!) a dura sorte, 
Donde fazendo andava o braço forte 
A fama dos Antigos esquecida; 

Uma só razão tenho conhecida, 
Com que tamanha mágoa se conforte: 
Que, pois no mundo havia honrada morte, 
Que não podíeis ter mais larga a vida. 

Se meus humildes versos podem tanto, 
Que co desejo meu se iguale a arte, 
Especial matéria me sereis. 

E, celebrado em triste e longo canto, 
Se morrestes nas mãos do fero Marte, 
Na memória das gentes vivereis. 



Num jardim adornado de verdura, 
A que esmaltam por cima várias flores, 
Entrou um dia a deusa dos amores, 
Com a deusa da caça e da espessura. 

Diana tomou logo uma rosa pura, 
Vênus um roxo lírio, dos melhores; 
Mas excediam muito às outras flores 
As violas, na graça e fermosura. 

Perguntam a Cupido, que ali estava, 
Qual daquelas três flores tomaria, 
Por mais suave, pura e mais fermosa. 

Sorrindo-se, o Menino lhe tornava: 
-- Todas fermosas são; mas eu queria 
Viol' antes que lírio nem que rosa. 



Busque Amor novas artes, novo engenho, 
Para matar-me, e novas esquivanças, 
Que não pode tirar-me as esperanças, 
Que mal me tirará o que eu não tenho. 

Olhai de que esperanças me mantenho! 
Vede que perigosas seguranças! 
Que não temo contrastes, nem mudanças, 
Andando em bravo mar, perdido o lenho. 

Mas, conquanto não pode haver desgosto 
Onde esperança falta, lá me esconde 
Amor um mal que mata e não se vê: 

Que dias há que na alma me tem posto 
Um não sei quê, que nasce não sei onde, 
Vem não sei como, e dói não sei por quê. 



Quem vê, Senhora, claro e manifesto 
O lindo ser de vossos olhos belos, 
Se não perder a vista só em vê-los, 
Já não paga o que deve a vosso gesto. 

Este me parecia preço honesto, 
Mas eu, por de vantagem merecê-los, 
Dei mais a vida e alma por querê-los, 
Donde já me não fica mais de resto. 

Assi que a vida e alma e esperança 
E tudo quanto tenho, tudo é vosso, 
E o proveito disso eu só o levo: 

Porque é tamanha bem-aventurança 
O dar-vos quanto tenho e quanto posso, 
Que, quanto mais vos pago, mais vos devo. 
     



 

 

 

         

   

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