|
|
1
Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.
Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co tormento,
Para que seus enganos não dissesse.
Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades, quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,
Verdades puras são, e não defeitos;
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.
2
Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dous mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.
Farei que o Amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.
Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.
Porém, para cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho e arte.
3
Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco, e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto:
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio;
Agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando;
Num'hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar um'hora.
Se me pergunta alguém porque assi ando,
Respondo que não sei, porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.
4
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho, logo, mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está ligada.
Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim com a alma minha se conforma,
Está no pensamento como idéia;
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples, busca a forma.
5
Passo por meus trabalhos tão isento
De sentimento, grande nem pequeno,
Que, só pela vontade com que peno,
Me fica Amor devendo mais tormento.
Mas vai-me Amor matando tanto a tento,
Temparando a triaga co veneno,
Que do penar a ordem desordeno,
Porque não mo consente o sofrimento.
Porém, se esta fineza o Amor sente,
E pagar-me meu mal com mal pretende,
Torna-me com prazer como ao sol neve.
Mas se me vê cos males tão contente,
Faz-se avaro da pena, porque entende
Que, quanto mais me paga, mais me deve.
6
À morte de D. Antônio de Noronha
Em flor vos arrancou de então crescida
(Ah! Senhor dom Antônio!) a dura sorte,
Donde fazendo andava o braço forte
A fama dos Antigos esquecida;
Uma só razão tenho conhecida,
Com que tamanha mágoa se conforte:
Que, pois no mundo havia honrada morte,
Que não podíeis ter mais larga a vida.
Se meus humildes versos podem tanto,
Que co desejo meu se iguale a arte,
Especial matéria me sereis.
E, celebrado em triste e longo canto,
Se morrestes nas mãos do fero Marte,
Na memória das gentes vivereis.
7
Num jardim adornado de verdura,
A que esmaltam por cima várias flores,
Entrou um dia a deusa dos amores,
Com a deusa da caça e da espessura.
Diana tomou logo uma rosa pura,
Vênus um roxo lírio, dos melhores;
Mas excediam muito às outras flores
As violas, na graça e fermosura.
Perguntam a Cupido, que ali estava,
Qual daquelas três flores tomaria,
Por mais suave, pura e mais fermosa.
Sorrindo-se, o Menino lhe tornava:
-- Todas fermosas são; mas eu queria
Viol' antes que lírio nem que rosa.
8
Busque Amor novas artes, novo engenho,
Para matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes, nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal que mata e não se vê:
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei por quê.
9
Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder a vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.
Este me parecia preço honesto,
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e alma por querê-los,
Donde já me não fica mais de resto.
Assi que a vida e alma e esperança
E tudo quanto tenho, tudo é vosso,
E o proveito disso eu só o levo:
Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que, quanto mais vos pago, mais vos devo.
|
|