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10
Quando da bela vista e doce riso
Tomando estão meus olhos mantimento,
Tão enlevado sinto o pensamento
Que me faz ver na terra o Paraíso.
Tanto do bem humano estou diviso,
Que qualquer outro bem julgo por vento;
Assi que em caso tal, segundo sento,
Assaz de pouco faz quem perde o siso.
Em vos louvar, Senhora, não me fundo,
Porque, quem vossas cousas claro sente,
Sentirá que não pode merecê-las.
Que de tanta estranheza sois ao mundo,
Que não é de estranhar, Dama excelente,
Que quem vos fez fizesse céu e estrelas.
11
Doces lembranças da passada glória,
Que me tirou Fortuna roubadora,
Deixai-me repousar em paz uma hora,
Que comigo ganhais pouca vitória.
Impressa tenho n'alma larga história
Deste passado bem que nunca fora,
Ou fora, e não passara, mas já agora
Em mim não pode haver mais que a memória.
Vivo em lembranças, mouro de esquecido
De quem sempre devera ser lembrado,
Se lhe lembrara estado tão contente.
Oh! Quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
Se conhecer soubera o mal presente.
12
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento Etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa sem remédio de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
13
Num bosque que das Ninfas se habitava,
Sílvia, Ninfa linda, andava um dia
Subida numa árvore sombria,
As amarelas flores apanhava.
Cupido, que ali sempre costumava
A vir passar a sesta à sombra fria,
Num ramo o arco e setas que trazia,
Antes que adormecesse, pendurava.
A Ninfa, como idôneo tempo vira
Para tamanha empresa, não dilata,
Mas com as armas foge ao Moço esquivo.
As setas traz nos olhos, com que tira.
-- Ó pastores, fugi, que a todos mata,
Senão a mim, que de matar-me vivo.
14
Os reinos e os impérios poderosos
Que em grandeza no mundo mais cresceram
Ou por valor de esforço floresceram,
Ou por varões nas letras espantosos.
Teve Grécia Temístocles famosos,
Os Cipiões a Roma engrandeceram,
Doze pares a França glória deram,
Cides a Espanha, e Laras belicosos.
Ao nosso Portugal (que agora vemos
Tão diferente de seu ser primeiro)
Os vossos deram honra e liberdade.
E em vós, grão sucessor e novo herdeiro
Do Braganção estado, há mil extremos
Iguais ao sangue e mores que a idade.
15
De vós me aparto, ó vida! Em tal mudança,
Sinto vivo da morte o sentimento;
Não sei para que é ter contentamento,
Se mais há-de perder quem mais alcança.
Mas dou-vos esta firme segurança:
Que, posto que me mate meu tormento,
Pelas águas do eterno esquecimento
Segura passará minha lembrança.
Antes sem vós meus olhos se entristeçam,
Que com qualquer cous'outra se contentem;
Antes os esqueçais, que vos esqueçam.
Antes nesta lembrança se atormentem,
Que com esquecimento desmereçam
A glória que em sofrer tal pena sentem.
16
Cara minha inimiga, em cuja mão
Pôs meus contentamentos a Ventura,
Faltou-te a ti na terra sepultura,
Porque me falte a mim consolação.
Eternamente as águas lograrão
A tua peregrina fermosura,
Mas, enquanto me a mim a vida dura,
Sempre viva em minha alma te acharão;
E se meus rudos versos podem tanto,
Que possam prometer-te longa história
Daquele amor tão puro e verdadeiro,
Celebrada serás sempre em meu canto,
Porque, enquanto no mundo houver memória,
Será minha escritura teu letreiro.
17
Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade
Quero que seja sempre celebrada.
Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se duma outra vontade
Que nunca poderá ver-se apartada.
Ela só viu as lágrimas em fio,
Que, de uns e de outros olhos derivadas,
Se acrescentaram em grande e largo rio.
Ela ouviu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio,
E dar descanso às almas condenadas.
18
Se quando vos perdi, minha esperança,
A memória perdera juntamente
Do doce bem passado e mal presente,
Pouco sentira a dor de tal mudança.
Mas Amor, em quem tinha confiança,
Me representa mui miudamente
Quantas vezes me vi ledo e contente,
Por me tirar a vida esta lembrança.
De cousas de que não havia sinal,
Por as ter postas já em esquecimento,
Destas me vejo agora perseguido.
Ah, dura estrela minha! ah, grão tormento!
Que mal pode ser mor que, no meu mal,
Ter lembrança do bem que é já perdido?
19
Em fermosa Letéia se confia,
Por onde vaidade tanto alcança
Que, tornada em soberba a confiança,
Com os deuses celestes competia.
Por que não fosse avante esta ousadia
(Que nascem muitos erros da tardança),
Em efeito puseram a vingança,
Que tamanha doudice merecia.
Mas Oleno, perdido por Letéia,
Não lhe sofrendo Amor que suportasse
Castigo duro tanta fermosura,
Quis padecer em si a pena alheia;
Mas, por que a morte Amor não apartasse,
Ambos tornados são em pedra dura.
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