Grandes Escritores



Luís Vaz de Camões
Sonetos da edição de 1595 (3)

 
20

Males que contra mi vos conjurastes, 
Quanto há de durar tão duro intento? 
Se dura porque dura meu tormento, 
Baste-vos quanto já me atormentastes. 

Mas se assi perfiais, porque cuidastes 
Derrubar meu tão alto pensamento? 
Mais pode a causa dele, em que o sustento, 
Que vós, que dela mesma o ser tomastes. 

E pois vossa tenção com minha morte 
Há-de acabar o mal destes amores, 
Dai já fim a um tormento tão comprido, 

Porque de ambos contentes seja a sorte: 
Vós, porque me acabastes, vencedores; 
E eu, porque acabei, de vós vencido. 

21 

Está-se a Primavera trasladando 
Em vossa vista deleitosa e honesta; 
Nas lindas faces, olhos, boca e testa, 
Boninas, lírios, rosas debuxando. 

De sorte, vosso gesto matizando, 
Natura quanto pode manifesta, 
Que o monte, o campo, o rio e a floresta 
Se estão de vós, Senhora, namorando. 

Se agora não quereis que quem vos ama 
Possa colher o fruito destas flores, 
Perderão toda a graça vossos olhos. 

Porque pouco aproveita, linda Dama, 
Que semeasse Amor em vós amores, 
Se vossa condição produze abrolhos. 

22 

Sete anos de pastor Jacob servia 
Labão, pai de Raquel, serrana bela; 
Mas não servia ao pai, servia a ela, 
E a ela só por prêmio pretendia. 

Os dias na esperança de um só dia 
Passava, contentando-se com vê-la; 
Porém o pai, usando de cautela, 
Em lugar de Raquel, lhe dava Lia. 

Vendo o triste pastor que com enganos 
Lhe fora assi negada a sua pastora, 
Como se a não tivera merecida, 

Começa de servir outros sete anos, 
Dizendo: -- Mais servira, se não fora 
Para tão longo amor tão curta a vida. 

23 

Está o lascivo e doce passarinho 
Com o biquinho as penas ordenando, 
O verso sem medida, alegre e brando, 
Expedindo no rústico raminho. 

O cruel caçador (que do caminho 
Se vem, calado e manso, desviando) 
Na pronta vista a seta endireitando, 
Lhe dá no Estígio lago eterno ninho. 

Destarte o coração, que livre andava 
(Posto que já de longe destinado), 
Onde menos temia foi ferido. 

Porque o Frecheiro cego me esperava, 
Para que me tomasse descuidado, 
Em vossos claros olhos escondido. 

24 

Pede o desejo, Dama, que vos veja; 
Não entende o que pede, está enganado; 
É este amor tão fino e tão delgado, 
Que quem o tem não sabe o que deseja. 

Não há cousa a qual natural seja, 
Que não queira perpétuo seu estado; 
Não quer, logo, o desejo o desejado, 
Porque não falte nunca onde sobeja. 

Mas este puro afeito em mim se dana, 
Que, como a grave pedra tem por arte 
O centro desejar da Natureza, 

Assi o pensamento (pela parte 
Que vai tomar de mim, terrestre, humana) 
Foi, Senhora, pedir esta baixeza. 

25 

Por que quereis, Senhora, que ofereça 
A vida a tanto mal como padeço? 
Se vos nasce do pouco que mereço, 
Bem por nascer está quem vos mereça. 

Sabei que enfim, por muito que vos peça, 
Que posso merecer quanto vos peço, 
Que não consente Amor que em baixo preço 
Tão alto pensamento se conheça. 

Assi que a paga igual de minhas dores 
Com nada se restaura, mas deveis-ma, 
Por ser capaz de tantos desfavores. 

E se o valor de vossos servidores 
Houver de ser igual convosco mesma, 
Vós só convosco mesma andai d'amores. 

26 

Se tanta pena tenho merecida 
Em pago de sofrer tantas durezas, 
Provai, Senhora, em mi vossas cruezas, 
Que aqui tendes uma alma oferecida. 

Nela experimentai, se sois servida, 
Desprezos, desfavores e asperezas, 
Que mores sofrimentos e firmezas 
Sustentarei na guerra desta vida. 

Mas contra vossos olhos quais serão? 
Forçado é que tudo se lhe renda, 
Mas porei por escudo o coração. 

Porque em tão dura e áspera contenda, 
É bem que, pois não acho defensão, 
Com me meter nas lanças me defenda. 

27 

Quando o Sol encoberto vai mostrando 
Ao mundo a luz quieta e duvidosa, 
Ao longo de uma praia deleitosa, 
Vou na minha inimiga imaginando. 

Aqui a vi os cabelos concertando, 
Ali co'a mão na face, tão fermosa, 
Aqui falando alegre, ali cuidosa, 
Agora estando queda, agora andando. 

Aqui esteve sentada, ali me viu, 
Erguendo aqueles olhos tão isentos; 
Aqui movida um pouco, ali segura; 

Aqui se entristeceu, ali se riu. 
Enfim, nestes cansados pensamentos 
Passo esta vida vã, que sempre dura. 

28 

Um mover de olhos, brando e piedoso, 
Sem ver de quê; um riso brando e honesto, 
Quase forçado; um doce e humilde gesto, 
De qualquer alegria duvidoso. 

Um despejo quieto e vergonhoso, 
Um repouso gravíssimo e modesto, 
Uma pura bondade, manifesto 
Indício da alma, limpo e gracioso; 

Um encolhido ousar; uma brandura, 
Um medo sem ter culpa, um ar sereno, 
Um longo e obediente sofrimento: 

Esta foi a celeste fermosura 
Da minha Circe, e o mágico veneno 
Que pôde transformar meu pensamento. 

29 

Tomou-me vossa vista soberana 
Adonde tinha as armas mais à mão, 
Por mostrar que quem busca defensão 
Contra esses belos olhos, que se engana. 

Por ficar da vitória mais ufana, 
Deixou-me armar primeiro da Razão: 
Cuidei de me salvar, mas foi em vão, 
Que contra o Céu não val defensa humana. 

Mas porém, se vos tinha prometido 
O vosso alto destino esta vitória, 
Ser-vos tudo bem pouco está sabido; 

Que, posto que estivesse apercebido, 
Não levais de vencer-me grande glória; 
Maior a levo eu de ser vencido. 
     



 

 

 

         

   

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