Grandes Escritores



Luís Vaz de Camões
Sonetos da edição de 1595 (4) 

 
30

-- Não passes, caminhante. -- Quem me chama? 
-- Uma memória nova, e nunca ouvida, 
Dum que trocou finita e humana vida, 
Por divina, infinita e clara fama. 

-- Quem é que tão gentil louvor derrama? 
-- Quem derramar seu sangue não duvida 
Por seguir a bandeira esclarecida 
De um capitão de Cristo que mais ama. 

-- Ditoso fim, ditoso sacrifício 
Que a Deus se fez, e ao mundo juntamente! 
Apregoando direi tão alta sorte. 

-- Mais poderás contar a toda a gente 
Que sempre deu sua vida claro indício 
De vir a merecer tão santa morte. 

31 

Fermosos olhos que na idade nossa 
Mostrais do Céu certíssimos sinais, 
Se quereis conhecer quanto possais, 
Olhai-me a mim, que sou feitura vossa: 

Vereis que de viver me desapossa 
Aquele riso com que a vida dais; 
Vereis como de Amor não quero mais, 
Por mais que o tempo corra e o dano possa; 

E se dentro nest'alma ver quiserdes, 
Como num claro espelho, ali vereis 
Também a vossa, angélica e serena; 

Mas eu cuido que, só por não me verdes, 
Ver-vos em mim, Senhora, não quereis, 
Tanto gosto levais de minha pena. 

32 

O fogo que na branda cera ardia, 
Vendo o rosto gentil que eu n'alma vejo, 
Se acendeu de outro fogo do desejo, 
Por alcançar a luz que vence o dia. 

Como de dous ardores se encendia, 
Da grande impaciência fez despejo, 
E, remetendo com furor sobejo, 
Vos foi beijar na parte onde se via. 

Ditosa aquela flama, que se atreve 
A apagar seus ardores e tormentos 
Na vista de que o mundo tremer deve. 

Namoram-se, Senhora, os Elementos 
De vós, e queima o fogo aquela neve 
Que queima corações e pensamentos. 

33 

Alegres campos, verdes arvoredos, 
Claras e frescas águas de cristal, 
Que em vós os debuxais ao natural, 
Discorrendo da altura dos rochedos; 

Silvestres montes, ásperos penedos 
Compostos em concerto desigual, 
Sabei que, sem licença de meu mal, 
Já não podeis fazer meus olhos ledos. 

E pois me já não vedes como vistes, 
Não me alegrem verduras deleitosas, 
Nem águas que correndo alegres vêm. 

Semearei em vós lembranças tristes, 
Regando-vos com lágrimas saudosas, 
E nascerão saudades de meu bem. 

34 

Quantas vezes do fuso se esquecia 
Daliana, banhando o lindo seio, 
Tantas vezes, de um áspero receio 
Salteado, Laurênio a cor perdia. 

Ela, que a Sílvio mais que a si queria, 
Para podê-lo ver não tinha meio: 
Ora, como curara o mal alheio 
Quem o seu mal tão mal curar sabia? 

Ele, que viu tão clara esta verdade, 
Com soluços dizia (que a espessura 
Comovia, de mágoa, a piedade): 

-- Como pode a desordem da Natura 
Fazer tão diferentes na vontade 
A quem fez tão conformes na ventura? 

35 

Lindo e sutil trançado, que ficaste 
Em penhor do remédio que mereço, 
Se só contigo, vendo-te, endoudeço, 
Que fora c'os cabelos que apertaste? 

Aquelas tranças de ouro que ligaste, 
Que os raios do Sol têm em pouco preço, 
Não sei se para engano do que peço, 
Se para me atar, os desataste. 

Lindo trançado, em minhas mãos te vejo, 
E, por satisfação de minhas dores, 
Como quem não tem outra, hei-de tomar-te; 

E, se não for contente meu desejo, 
Dir-lhe-ei que, nesta regra dos amores, 
Pelo todo também se toma a parte. 

36 

O cisne, quando sente ser chegada 
A hora que põe termo à sua vida, 
Música com voz alta e mui subida 
Levanta pela praia inabitada. 

Deseja ter a vida prolongada, 
Chorando do viver a despedida; 
Com grande saudade da partida, 
Celebra o triste fim desta jornada. 

Assi, Senhora minha, quando via 
O triste fim que davam meus amores, 
Estando posto já no extremo fio, 

Com mais suave canto e harmonia 
Descantei pelos vossos desfavores, 
La vuestra falsa fe y el amor mio. 

37 

Pelos extremos raros que mostrou 
Em saber Palas, Vênus em fermosa, 
Diana em casta, Juno em animosa, 
África, Europa e Ásia as adorou. 

Aquele saber grande, que ajuntou 
Espírito e corpo em liga generosa, 
Esta mundana máquina lustrosa 
De só quatro Elementos fabricou. 

Mas mor milagre fez a Natureza 
Em vós, senhoras, pondo em cada uma 
O que por todas quatro repartiu: 

A vós seu resplandor deu Sol e Lua, 
A vós, com viva luz, graça e pureza, 
Ar, Fogo, Terra e Água vos serviu. 

38 

Tomava Daliana, por vingança 
Da culpa do pastor, que tanto amava, 
Casar com Gil vaqueiro, e em si vingava 
O erro alheio e pérfida esquivança. 

A discrição segura, a confiança, 
As rosas que seu rosto debuxava, 
O descontentamento lhas secava, 
Que tudo muda uma áspera mudança. 

Gentil planta disposta em seca terra, 
Lindo fruito de dura mão colhido, 
Lembranças d'outro amor e fé perjura 

Tornaram verde prado em dura serra; 
Interesse enganoso, amor fingido 
Fizeram desditosa a fermosura. 

39 

Grão tempo há já que soube da Ventura 
A vida que me tinha destinada, 
Que a longa experiência da passada 
Me dava claro indício da futura. 

Amor fero, cruel, Fortuna dura, 
Bem tendes vossa força exp'rimentada; 
Assolai, destruí, não fique nada, 
Vingai-vos desta vida que inda dura. 

Soube Amor, da Ventura, que a não tinha, 
E, porque mais sentisse a falta dela, 
De imagens impossíveis me mantinha. 

Mas vós, Senhora, pois que minha estrela 
Não foi melhor, vivei nesta alma minha, 
Que não tem a Fortuna poder nela. 
     



 

 

 

         

   

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