Grandes Escritores



Luís Vaz de Camões
Sonetos da edição de 1595 (5)

 
40

Se alguma hora em vós a piedade 
De tão longo tormento se sentira, 
Não consentira Amor que me partira 
De vossos olhos, minha saudade. 

Apartei-me de vós, mas a vontade, 
Que pelo natural n'alma vos tira, 
Me faz crer que esta ausência é de mentira, 
Mas inda mal, porém, porque é verdade. 

Ir-me-ei, Senhora, e neste apartamento, 
Tomarão tristes lágrimas vingança 
Nos olhos de quem fostes mantimento: 

E assi darei vida a meu tormento, 
Que enfim cá me achará minha lembrança, 
Sepultado no vosso esquecimento. 

41 

Oh, como se me alonga de ano em ano 
A peregrinação cansada minha! 
Como se encurta e como ao fim caminha 
Este meu breve e vão discurso humano! 

Vai-se gastando a idade e cresce o dano, 
Perde-se-me um remédio, que inda tinha; 
Se por experiência se adivinha, 
Qualquer grande esperança é grande engano. 

Corro após este bem que não se alcança; 
No meio do caminho me falece, 
Mil vezes caio e perco a confiança. 

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança, 
Se os olhos ergo a ver se inda parece, 
Da vista se me perde, e da esperança. 

42 

Tempo é já que minha confiança 
Se desça de uma falsa opinião, 
Mas Amor não se rege por razão; 
Não posso perder logo a esperança, 

A vida, si, que uma áspera mudança 
Não deixa viver tanto um coração; 
E eu na morte tenho a salvação? 
Si, mas quem a deseja não a alcança, 

Forçado é logo que eu espere e viva. 
Ah, dura lei de Amor, que não consente 
Quietação numa alma que é cativa! 

Se hei-de viver, enfim, forçadamente, 
Para que quero a glória fugitiva 
De uma esperança vã que me atormente? 

43 

Amor, co'a esperança já perdida 
Teu soberano templo visitei; 
Por sinal do naufrágio que passei, 
Em lugar dos vestidos, pus a vida. 

Que queres mais de mim, que destruída 
Me tens a glória toda que alcancei? 
Não cuides de forçar-me, que não sei 
Tornar a entrar onde não há saída. 

Vês aqui alma, vida e esperança, 
Despojos doces de meu bem passado, 
Enquanto quis aquela que eu adoro: 

Neles podes tomar de mim vingança; 
E se inda não estás de mim vingado, 
Contenta-te co'as lágrimas que choro. 

44 

Apolo e as nove Musas, discantando 
Com a dourada lira, me influíam 
Na suave harmonia que faziam, 
Quando tomei a pena, começando: 

"Ditoso seja o dia e hora, quando 
Tão delicados olhos me feriam! 
Ditosos os sentidos que sentiam 
Estar-se em seu desejo traspassando!" 

Assi cantava, quando Amor virou 
A roda à Esperança, que corria 
Tão ligeira, que quase era invisível. 

Converteu-se-me em noite o claro dia; 
E, se alguma esperança me ficou, 
Será de maior mal, se for possível. 

45 

Lembranças saudosas, se cuidais 
De me acabar a vida neste estado, 
Não vivo com meu mal tão enganado, 
Que não espere dele muito mais. 

De muito longe já me costumais 
A viver de algum bem desesperado; 
Já tenho co'a Fortuna concertado 
De sofrer os trabalhos que me dais. 

Atado ao remo tenho a paciência 
Para quantos desgostos der a vida, 
Cuide em quanto quiser o pensamento. 

Que pois não há i outra resistência 
Para tão certa queda da caída, 
Aparar-lhe-ei debaixo o sofrimento. 

46 

Apartava-se Nise de Montano, 
Em cuja alma, partindo-se, ficava; 
Que o pastor na memória a debuxava, 
Por poder sustentar-se deste engano. 

Pelas praias do Índico Oceano 
Sobre o curvo cajado se encostava, 
E os olhos pelas águas alongava, 
Que pouco se doíam de seu dano. 

-- Pois com tamanha mágoa e saudade 
De mim se foi -- dizia -- quem adoro, 
Por testemunhas tomo Céu e estrelas; 

Mas se em vós, ondas, mora piedade, 
Levai também as lágrimas que choro, 
Pois assi me levais a causa delas. 

47 

Quando vejo que meu destino ordena 
Que, por me exp'rimentar, de vós me aparte, 
Deixando de meu bem tão grande parte, 
Que a mesma culpa fica grave pena; 

O duro desfavor que me condena, 
Quando pela memória se reparte, 
Endurece os sentidos de tal arte, 
Que a dor da ausência fica mais pequena. 

Pois como pode ser que na mudança 
Daquilo que mais quero estê tão fora 
De me não apartar também da vida? 

Eu refrearei tão áspera esquivança, 
Porque mais sentirei partir, Senhora, 
Sem sentir muito a pena da partida. 

48 

Náiades, vós que os rios habitais 
Que os saudosos campos vão regando, 
De meus olhos vereis estar manando 
Outros, que quase aos vossos são iguais. 

Dríades, vós que as setas atirais, 
Os fugitivos cervos derrubando, 
Outros olhos vereis que, triunfando, 
Derrubam corações que valem mais. 

Deixai as aljavas logo, e as águas frias, 
E vinde, Ninfas minhas, se quereis 
Saber como de uns olhos nascem mágoas; 

Vereis como se passam em vão os dias, 
Mas não vireis em vão, que cá achareis 
Nos seus as setas, e nos meus as águas. 

49 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, 
Muda-se o ser, muda-se a confiança; 
Todo o mundo é composto de mudança, 
Tomando sempre novas qualidades. 

Continuamente vemos novidades, 
Diferentes em tudo da esperança; 
Do mal ficam as mágoas na lembrança, 
E do bem (se algum houve) as saudades. 

O tempo cobre o chão de verde manto, 
Que já coberto foi de neve fria, 
E enfim converte em choro o doce canto. 

E, afora este mudar-se cada dia, 
Outra mudança faz de mor espanto, 
Que não se muda já como soía. 
     



 

 

 

         

   

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