Grandes Escritores



Luís Vaz de Camões
Sonetos da edição de 1595 (6) 

 
50

Se as penas com que Amor tão mal me trata 
Quiser que tanto tempo viva delas, 
Que veja escuro o lume das estrelas, 
Em cuja vista o meu se acende e mata; 

E se o tempo, que tudo desbarata, 
Secar as frescas rosas sem colhê-las, 
Mostrando a linda cor das tranças belas 
Mudada de ouro fino em bela prata; 

Vereis, Senhora, então também mudado 
O pensamento e aspereza vossa, 
Quando não sirva já sua mudança: 

Suspirareis então pelo passado, 
Em tempo quando executar se possa 
Em vosso arrepender minha vingança. 

51 

À sepultura del-Rei D. João III 

-- Quem jaz no grão sepulcro que descreve 
Tão ilustres sinais no forte escudo? 
-- Ninguém, que nisso enfim se torna tudo, 
Mas foi quem tudo pôde e tudo teve. 

-- Foi Rei? -- Fez tudo quanto a Rei se deve; 
Pôs na guerra e na paz devido estudo, 
Mas quão pesado foi ao Mouro rudo 
Tanto lhe seja agora a terra leve. 

-- Alexandre será? -- Ninguém se engane, 
Que sustentar, mais que adquirir se estima. 
-- Será Adriano, grão senhor do mundo? 

-- Mais observante foi da lei de cima. 
-- É Numa? -- Numa não, mas é Joane, 
De Portugal Terceiro, sem segundo. 

52 

Quem pode livre ser, gentil Senhora, 
Vendo-vos com juízo sossegado, 
Se o Menino que de olhos é privado 
Nas meninas dos vossos olhos mora? 

Ali manda, ali reina, ali namora, 
Ali vive das gentes venerado, 
Que o vivo lume e o rosto delicado 
Imagens são, nas quais o Amor se adora. 

Quem vê que em branca neve nascem rosas 
Que fios crespos de ouro vão cercando, 
Se por entre esta luz a vista passa, 

Raios de ouro verá, que as duvidosas 
Almas estão no peito traspassando, 
Assi como um cristal o Sol traspassa.

53 
-- Como fizeste, Pórcia, tal ferida? 
Foi voluntária, ou foi por inocência? 
-- Mas foi fazer Amor experiência 
Se podia sofrer tirar-me a vida. 

-- E com teu próprio sangue te convida 
A não pores à vida resistência? 
-- Ando-me acostumando à paciência, 
Porque o temor a morte não impida. 

-- Pois por que comes logo fogo ardente, 
Se a ferro te costumas? -- Porque ordena 
Amor que morra e pene juntamente. 

-- E tens a dor do ferro por pequena? 
-- Si: que a dor costumada não se sente. 
E eu não quero a morte sem a pena. 

54 

Resposta do Autor a um soneto, 
pelos mesmos consoantes 

De tão divino acento e voz humana, 
De tão doces palavras peregrinas, 
Bem sei que minhas obras não são dinas, 
Que o rudo engenho meu me desengana; 

Mas de vossos escritos corre e mana 
Licor que vence as águas cabalinas, 
E convosco do Tejo as flores finas 
Farão inveja à cópia mantuana. 

E pois a vós de si não sendo avaras, 
As filhas de Mnemósine fermosa 
Partes dadas vos tem ao mundo caras, 

A minha Musa e a vossa tão famosa, 
Ambas posso chamar ao mundo raras, 
A vossa de alta, a minha de invejosa. 

55 

À sepultura de D. Fernando de Castro 

Debaixo desta pedra está metido, 
Das sanguinosas armas descansado, 
O capitão ilustre, assinalado, 
Dom Fernando de Castro esclarecido. 

Por todo o Oriente tão temido, 
E da inveja da fama tão cantado, 
Este, pois, só agora sepultado, 
Está aqui já em terra convertido. 

Alegra-te, ó guerreira Lusitânia, 
Por este Viriato que criaste, 
E chora-o, perdido, eternamente. 

Exemplo toma nisto de Dardânia, 
Que, se a Roma co ele aniquilaste, 
Nem por isso Cartago está contente. 

56 

Vossos olhos, Senhora, que competem 
Co Sol em fermosura e claridade, 
Enchem os meus de tal suavidade 
Que em lágrimas, de vê-los, se derretem. 

Meus sentidos vencidos se sometem 
Assi cegos a tanta divindade, 
E da triste prisão, da escuridade, 
Cheios de medo, por fugir remetem. 

Mas se nisto me vedes, por acerto, 
O áspero desprezo, com que olhais 
Torna a espertar a alma enfraquecida. 

Ó gentil cura e estranho desconcerto! 
Que fará o favor que vós não dais, 
Quando o vosso desprezo torna a vida? 

57 

Pois meus olhos não cansam de chorar 
Tristezas, que não cansam de cansar-me, 
Pois não abranda o fogo em que abrasar-me 
Pôde quem eu jamais pude abrandar; 

Não canse o cego Amor de me guiar 
A parte donde não saiba tornar-me, 
Nem deixe o mundo todo de escutar-me 
Enquanto me a voz fraca não deixar. 

E se em montes, rios, ou em vales, 
Piedade mora, ou dentro mora Amor 
Em feras, aves, prantas, pedras, águas, 

Ouçam a longa história de meus males 
E curem sua dor com minha dor; 
Que grandes mágoas podem curar mágoas. 

58 

Dai-me uma lei, Senhora, de querer-vos, 
Que a guarde, sob pena de enojar-vos; 
Que a fé, que me obriga a tanto amar-vos, 
Fará que fique em lei de obedecer-vos. 

Tudo me defendei, senão só ver-vos 
E dentro na minh' alma contemplar-vos; 
Que, se assi não chegar a contentar-vos, 
Ao menos que não chegue a aborrecer-vos. 

E se essa condição cruel e esquiva 
Que me deis lei de vida não consente, 
Dai-ma, Senhora, já, seja de morte. 

Se nem essa me dais, é bem que viva 
Sem saber como vivo tristemente, 
Mas contente porém de minha sorte. 
     



 

 

 

         

   

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