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50
Se as penas com que Amor tão mal me trata
Quiser que tanto tempo viva delas,
Que veja escuro o lume das estrelas,
Em cuja vista o meu se acende e mata;
E se o tempo, que tudo desbarata,
Secar as frescas rosas sem colhê-las,
Mostrando a linda cor das tranças belas
Mudada de ouro fino em bela prata;
Vereis, Senhora, então também mudado
O pensamento e aspereza vossa,
Quando não sirva já sua mudança:
Suspirareis então pelo passado,
Em tempo quando executar se possa
Em vosso arrepender minha vingança.
51
À sepultura del-Rei D. João III
-- Quem jaz no grão sepulcro que descreve
Tão ilustres sinais no forte escudo?
-- Ninguém, que nisso enfim se torna tudo,
Mas foi quem tudo pôde e tudo teve.
-- Foi Rei? -- Fez tudo quanto a Rei se deve;
Pôs na guerra e na paz devido estudo,
Mas quão pesado foi ao Mouro rudo
Tanto lhe seja agora a terra leve.
-- Alexandre será? -- Ninguém se engane,
Que sustentar, mais que adquirir se estima.
-- Será Adriano, grão senhor do mundo?
-- Mais observante foi da lei de cima.
-- É Numa? -- Numa não, mas é Joane,
De Portugal Terceiro, sem segundo.
52
Quem pode livre ser, gentil Senhora,
Vendo-vos com juízo sossegado,
Se o Menino que de olhos é privado
Nas meninas dos vossos olhos mora?
Ali manda, ali reina, ali namora,
Ali vive das gentes venerado,
Que o vivo lume e o rosto delicado
Imagens são, nas quais o Amor se adora.
Quem vê que em branca neve nascem rosas
Que fios crespos de ouro vão cercando,
Se por entre esta luz a vista passa,
Raios de ouro verá, que as duvidosas
Almas estão no peito traspassando,
Assi como um cristal o Sol traspassa.
53
-- Como fizeste, Pórcia, tal ferida?
Foi voluntária, ou foi por inocência?
-- Mas foi fazer Amor experiência
Se podia sofrer tirar-me a vida.
-- E com teu próprio sangue te convida
A não pores à vida resistência?
-- Ando-me acostumando à paciência,
Porque o temor a morte não impida.
-- Pois por que comes logo fogo ardente,
Se a ferro te costumas? -- Porque ordena
Amor que morra e pene juntamente.
-- E tens a dor do ferro por pequena?
-- Si: que a dor costumada não se sente.
E eu não quero a morte sem a pena.
54
Resposta do Autor a um soneto,
pelos mesmos consoantes
De tão divino acento e voz humana,
De tão doces palavras peregrinas,
Bem sei que minhas obras não são dinas,
Que o rudo engenho meu me desengana;
Mas de vossos escritos corre e mana
Licor que vence as águas cabalinas,
E convosco do Tejo as flores finas
Farão inveja à cópia mantuana.
E pois a vós de si não sendo avaras,
As filhas de Mnemósine fermosa
Partes dadas vos tem ao mundo caras,
A minha Musa e a vossa tão famosa,
Ambas posso chamar ao mundo raras,
A vossa de alta, a minha de invejosa.
55
À sepultura de D. Fernando de Castro
Debaixo desta pedra está metido,
Das sanguinosas armas descansado,
O capitão ilustre, assinalado,
Dom Fernando de Castro esclarecido.
Por todo o Oriente tão temido,
E da inveja da fama tão cantado,
Este, pois, só agora sepultado,
Está aqui já em terra convertido.
Alegra-te, ó guerreira Lusitânia,
Por este Viriato que criaste,
E chora-o, perdido, eternamente.
Exemplo toma nisto de Dardânia,
Que, se a Roma co ele aniquilaste,
Nem por isso Cartago está contente.
56
Vossos olhos, Senhora, que competem
Co Sol em fermosura e claridade,
Enchem os meus de tal suavidade
Que em lágrimas, de vê-los, se derretem.
Meus sentidos vencidos se sometem
Assi cegos a tanta divindade,
E da triste prisão, da escuridade,
Cheios de medo, por fugir remetem.
Mas se nisto me vedes, por acerto,
O áspero desprezo, com que olhais
Torna a espertar a alma enfraquecida.
Ó gentil cura e estranho desconcerto!
Que fará o favor que vós não dais,
Quando o vosso desprezo torna a vida?
57
Pois meus olhos não cansam de chorar
Tristezas, que não cansam de cansar-me,
Pois não abranda o fogo em que abrasar-me
Pôde quem eu jamais pude abrandar;
Não canse o cego Amor de me guiar
A parte donde não saiba tornar-me,
Nem deixe o mundo todo de escutar-me
Enquanto me a voz fraca não deixar.
E se em montes, rios, ou em vales,
Piedade mora, ou dentro mora Amor
Em feras, aves, prantas, pedras, águas,
Ouçam a longa história de meus males
E curem sua dor com minha dor;
Que grandes mágoas podem curar mágoas.
58
Dai-me uma lei, Senhora, de querer-vos,
Que a guarde, sob pena de enojar-vos;
Que a fé, que me obriga a tanto amar-vos,
Fará que fique em lei de obedecer-vos.
Tudo me defendei, senão só ver-vos
E dentro na minh' alma contemplar-vos;
Que, se assi não chegar a contentar-vos,
Ao menos que não chegue a aborrecer-vos.
E se essa condição cruel e esquiva
Que me deis lei de vida não consente,
Dai-ma, Senhora, já, seja de morte.
Se nem essa me dais, é bem que viva
Sem saber como vivo tristemente,
Mas contente porém de minha sorte.
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