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ROMANTISMO NO BRASIL
A TERCEIRA GERAÇÃO
CASTRO ALVES (1847-1871)
Vida: Descendente de uma família tradicional e poderosa do interior baiano -
seu pai era médico, formado na Europa - Antônio de Castro Alves nasceu em 14
de março de 1847 na Fazenda das Cabeceiras, perto da cidade de Curralinho.
Quando tinha sete anos, a família mudou-se para Salvador. Lá estudou no
Colégio Abílio, que revolucionara o ensino brasileiro pela eliminação dos
castigos físicos aplicados aos alunos. Em 1858, morreu-lhe a mãe. Seu irmão
mais velho, José Antônio, ficou muito abalado, suicidando-se alguns anos
depois. Mas já no início de 1862, Castro Alves estava no Recife, fazendo os
preparatórios para a Faculdade de Direito, ainda em companhia do irmão.
Conheceu então a famosa atriz portuguesa Eugênia Câmara, de quem se tornou
amante aos dezenove anos. Na Faculdade, parecia mais interessado em agitar
idéias abolicionistas e republicanas e produzir versos (que obtinham grande
repercussão entre os colegas) do que propriamente estudar leis.
Após concluir um drama em prosa, Gonzaga, especialmente composto para Eugênia
Câmara, seguiu com a atriz rumo a Salvador. Ali os dois receberam espetacular
consagração com a estréia da peça no Teatro São João. Estando ele disposto
a retornar ao curso de Direito, viajaram para São Paulo, antes parando dois
meses no Rio de Janeiro, onde foram celebrados por José de Alencar e Machado de
Assis. A temporada paulista durou apenas um ano. O nome de Castro Alves
tornara-se uma legenda: ótimo declamador de seus próprios poemas, recitou O
navio negreiro e Vozes d'África sob a ovação dos estudantes. Um colega
escreveu que Castro Alves "era grande e belo como um deus de Homero".
Sua vida afetiva, no entanto, entrou em crise pelas constantes traições à
orgulhosa Eugênia Câmara. Ela terminou por abandoná-lo definitivamente. Para
esquecer a ruptura, o poeta começou a se dedicar à caça, ferindo-se
casualmente no pé, que infeccionou. Levado para o Rio, foi submetido a uma
amputação sem anestesia. Depois disso, debilitado, retornou à Bahia, onde
viveu por pouco mais de um ano, até que sobreveio a tuberculose fatal. Morreu
em fevereiro de 1871, antes de completar vinte e quatro anos.
Obras: Espumas Flutuantes (1870); A cachoeira de Paulo Afonso (1876); Os
escravos (1883); Gonzaga ou A Revolução de Minas (drama - 1875).
Sua obra se abre em duas direções:
Poesia social - causas liberais e humanitárias.
Poesia lírica - natureza e amor sensual.
POESIA SOCIAL
Castro Alves é um caso típico do intelectual convertido em homem de ação.
Não apenas realizou uma poesia humanitária, como participou ativamente de toda
a propaganda abolicionista e republicana. Esse engajamento político muitas
vezes prejudica a sua literatura - que se torna mais denúncia do que arte -
embora tal problema seja secundário diante da generosidade social do poeta.
O jovem baiano tinha consciência de sua posição e de sua situação de
letrado, e do papel que poderia exercer dentro da sociedade. Compreendia o
significado da educação num país constituído por analfabetos, e foi o
primeiro dos grandes românticos a valorizar a imprensa, o livro e a
instrução, conforme diz no poema O livro e a América:
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe - que faz a palma,
É chuva - que faz o mar.
Castro Alves cantou todas as causas libertárias - a poesia como arma de combate
a serviço da justiça e da igualdade - mas o que ficou na memória popular são
os seus poemas abolicionistas.
A base econômica da sociedade agrária brasileira, na década de 1860, ainda
era o escravo, porém as pressões internacionais, somadas às críticas das
classes urbanas nacionais e à perspicácia de certos proprietários - que viam
a escravidão como anti-econômica - possibilitaram o surgimento das primeiras
vozes contestadoras. Castro Alves será a encarnação mais retumbante desse
protesto.
O condoreirismo
Os seus poemas sociais são conhecidos também como condoreiros. "A praça,
a praça é do povo, assim como o céu é do condor" - escreve num de seus
primeiros trabalhos. É uma metáfora exuberante: o condor voa altaneiro e livre
por sobre os Andes. Como exuberantes, indignados e patéticos são parte
considerável de seus versos. Ele quer inebriar os jovens liberais com a força
bombástica de um discurso metrificado. Quer comover e convencer. Por isso, nem
sempre se contenta em dizer o essencial. Acaba caindo na retórica, provocada
pelo excesso verbal, por antíteses e hipérboles* em demasia e por várias
imagens de mau gosto.
É possível, no entanto, compreender que o tom oratório dessas composições
tinham uma finalidade pedagógica: feitas para serem declamadas em público,
elas deviam se parecer a um discurso que conscientizasse as massas. Daí sua
redundância e sua ênfase emocional. Mesmo assim, em vários textos
condoreiros, o poeta atingiu uma eloquência pura, vibrátil, "de poderosa
sugestão visual e impressão auditiva".
O navio negreiro e Vozes d'África se constituem nos mais soberbos monumentos de
poesia social do século XIX. E ainda que a escravidão tenha acabado, e este
tema não pertença mais a experiência atual, é impossível ao leitor ficar
indiferente diante de tamanha densidade dramática.
* Hipérbole: figura do exagero
O NAVIO NEGREIRO
O navio negreiro, cujo título geral é Tragédia no mar, começa com uma longa
e belíssima descrição do oceano, até que o poeta, postado nas alturas,
avista um barco que parece navegar alegremente. Então o poeta solicita ao
albatroz ("águia do oceano") que lhe dê suas asas para se aproximar
da embarcação. Ao mergulhar por sobre o navio, descobre a realidade em todo o
seu horror.
As cenas que se sucedem são impressionantes: a violência opressiva dos
traficantes; as apóstrofes* exasperadas do poeta, tanto a Deus quanto às
forças mais grandiosas da natureza; o repúdio à bandeira nacional que cobre
tanta iniqüidade; e, por fim, o apelo aos heróis do Novo Mundo para que dêem
um basta à espantosa tragédia:
Era
um sonho dantesco...O tombadilho
Que das luzernas* avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros...estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite
Horrendos a dançar...
Negras mulheres suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães.
Outras, moças... mas nuas, espantadas
No turbilhão de espectros arrastadas
Em ânsia e mágoa vãs.
E ri-se a orquestra, irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doidas espirais...
Se o velho arqueja... se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala
E voa mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali ...
Um de raiva delira, outro enlouquece...
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri...
No entanto o capitão manda a manobra...
E após, fitando o céu que se desdobra
Tão puro sobre o mar,
Diz, do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar." (...)
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus...
Ó mar! por que não apagas
Com a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! (...)
E existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e covardia!...
E deixa-a transformar nessa festa
Em manto impuro de bacante* fria!...
Meu Deus! Meu Deus! mas que bandeira é esta
Que impudente* na gávea tripudia?! ...
Silêncio!... Musa! Chora, chora tanto,
Que o pavilhão se lave no teu pranto...
Auriverde pendão* de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra,
E as promessas divinas da esperança...
Tu, que da liberdade após a guerra
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!... (...)
...Mas é infâmia demais... Da etérea plaga*
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo...
Andrada! arranca este pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta de teus mares!"
* Apóstrofe: interpelação direta a alguém
* Luzernas: clarões
* Bacante: mulher devassa
* Impudente: sem pudor
* Pendão: bandeira
* Plaga: região, país
VOZES D'ÁFRICA
Dramaticidade semelhante está presente no antológico Vozes d'África, quando o
poeta personifica o continente negro e deixa-o expressar sua dor, numa figura de
linguagem chamada prosopopéia. Esta composição poética começa com a mais
famosa das apóstrofes da literatura brasileira e segue traduzindo o sofrimento
e a humilhação dos povos africanos. Observem-se os excertos abaixo:
Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde, desde então, corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus? (...)
Não basta inda de dor, ó Deus terrível?
É pois teu peito eterno, inexaurível*
De vingança e rancor?
E que é que eu fiz, Senhor? que torvo* crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio* vingador?!
* Embalde:
* Inexaurível: inesgotável
* Torvo: pavoroso
* Gládio:
OUTROS POEMAS
Curioso é o poema narrativo A cachoeira de Paulo Afonso, composto por uma
série de quadros, onde se fundem o lírico e o social. É a história de amor
entre dois escravos, Lucas e Maria, que termina com o suicídio de ambos na
cachoeira. Uma história melodramática, mas pontilhada de excepcionais
descrições da natureza brasileira, como esse Crepúsculo sertanejo:
A tarde morria. Nas águas barrentas
As sombras das margens deitavam-se longas!
Na esguia atalaia* das árvores secas
Ouvia-se um triste chorar de arapongas.
A tarde morria! Dos ramos, das lascas,
Das pedras, do líquen, das heras, dos cardos*
As trevas rasteiras com o ventre por terra
Saíam, quais negros, cruéis leopardos.
A tarde morria! Mais funda nas águas
Lavava-se a galha do escuro ingazeiro...
Ao fresco arrepio dos ventos cortantes
Em músico estalo rangia o coqueiro. (...)
Somente por vezes, dos jungles* das bordas,
Dos golfos enormes daquela paragem,
Erguia a cabeça, surpreso, inquieto,
Coberto de limos - um touro selvagem.
* Cardo: planta espinhosa
* Jungle: mata espinhosa
Um Verdadeiro Defensor dos Escravos?
Nas últimas décadas, tornou-se moda acusar Castro Alves de ter apenas piedade
do escravo e de não vê-lo integrado no processo produtivo. Sendo assim, seu
condoreirismo estaria impregnado dos preconceitos da burguesia branca contra o
negro. Tal visão é ridícula. Basta atentarmos para poemas como Saudação a
Palmares e Bandido Negro. No último, há inclusive um refrão verdadeiramente
revolucionário para uma época em que o escravo que levantasse o braço contra
o seu senhor era punido com ferocidade:
Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.
POESIA LÍRICA: O AMOR SENSUAL
O lirismo amoroso de Castro Alves distingue-se das concepções dominantes na
poesia romântica brasileira. Ao contrário de Gonçalves Dias, não considera o
amor como impossível de ser realizado. Tampouco encobre a sensualidade, como
Casimiro de Abreu. Muito menos apresenta a relação física como perversão
fantasiosa, a exemplo de Álvares de Azevedo. Em Castro Alves, as ligações
sentimentais são apresentadas de uma maneira viril, sensual e calorosa.
Mário de Andrade observou que tanto o homem quanto o artista alcançam a plena
realização sexual. Disso resulta uma lírica original por explorar o erotismo
sem subterfúgios e sem culpa.
Ninguém como Castro Alves sabe cantar as excelências das uniões corpóreas,
ninguém como ele sabe falar de homens e mulheres reais. Até mesmo sua
linguagem - freqüentemente retórica ao tratar de temas condoreiros - torna-se
simples e coloquial na poesia amorosa.
A partir de um esplêndido domínio da metáfora, o poeta cria imagens de rara
beleza e intenso sentido de plasticidade, conforme se pode observar em versos
como: "Sob a chuva noturna dos cabelos..." Ou: "Minha Maria é
morena / Como as tardes de verão." Ou ainda, referindo-se a uma de suas
amadas: "Lírio do vale oriental, brilhante! / Estrela vésper do pastor
errante!" Encantador e de singelo erotismo é o poema Adormecida, onde
galhos e ramos assediam amorosamente a jovem que dorme numa rede:
Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão...solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.(...)
De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras*,
Iam na face trêmulos - beijá-la
Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a ...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia... (...)
* Aura: vento brando.
Em Os anjos da meia-noite, o poeta inventa a imagem quase surrealista de um seio
solto a flutuar:
Como o gênio da noite que desta desata
O véu de rendas sobre a espádua nua,
Ela solta os cabelos...Bate a lua
Nas alvas dobras de um lençol de prata...
O seio virginal que a mão recata,
Embalde o prende a mão...cresce, flutua... (...)
Castro Alves é, pois, um cantor de mulheres. Em seus ardentes versos,
descreve-as, confessa-lhes a paixão e, não raro, as possui em clima de
delírio. Mas falta alguma coisa, alguma inquietação por aquilo que transcende
ao sexo. Ele não ultrapassa a superfície dos corpos e nada revela a respeito
das verdades mais profundas da relação amorosa. Simplesmente registra os
encontros e os desencontros físicos dos amantes, com seu inegável estilo
sedutor.
No poema Boa-noite, por exemplo, a beleza de algumas metáforas não impede que
se perceba a superficial ligação que o poeta estabelece entre a amada e
várias heroínas da literatura ocidental, numa espécie de ronde de femmes
(rodízio de mulheres). O resultado é atraente, mas desprovido de profundidade:
Boa-noite, Maria - Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa-noite, Maria! É tarde... é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.
Boa noite!... E tu dizes - Boa noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não me digas descobrindo o peito,
Mar de amor onde vagam meus desejos.(...)
É noite ainda! Brilha na cambraia
- Desmanchando o roupão, a espádua nua -
O globo do teu peito entre os arminhos*
Como entre as névoas se balouça a lua...
É noite, pois! Durmamos, Julieta!
Recende a alcova ao trescalar* das flores.
Fechemos sobre nós estas cortinas...
São as asas dos arcanjos dos amores.
A frouxa luz da alabastrina* lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doido afago de meus lábios mornos.
Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo atento!
Ai! Canta a cavatina* do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora...
Marion! Marion!...É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!...
Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando:
- Boa-noite! - formosa Consuelo!...
* Arminhos: peles.
* Trescalar: exalar.
* Alabastrina: clara, alva.
* Cavatina: pequena ária, cantiga.
O POETA E A MORTE

Programa da peça Gonzaga, montada por Eugênia Câmara, a amante preferida de
Castro Alves
Antes de sua doença, Castro Alves já experimentara o velho tema romântico da
morte na juventude e o triste lamento que esta intuição do fim nele
despertava.
O abismo entre os seus sonhos e a sombria realidade que impede a realização
dos mesmos aparece em Mocidade e Morte, um de seus poemas fundamentais e, além
de tudo, profético, conforme se pode ver nas primeiras estrofes:
Oh! Eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minha alma adejar* pelo infinito,
Qual branca vela n'amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
- Árabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida.
Mas uma voz responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea* fria.
Adejar: esvoaçar
Lájea: pedra do túmulo
Fonte: www.terra.com.br/literatura/romantismo
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