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Cruz e Sousa
Nasceu em 21 de novembro de 1861  

Morreu em 19 de março de 1898

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Biografia & Bibliografia


BIOGRAFIA

Cruz e Sousa (1862 - 1898) 

João da Cruz e Souza nasceu em 21 de novembro de 1861 em Desterro, 
hoje Florinaopolis, Santa Catarina. Seu pai e sua mãe, negros puros, 
eram escravos alforriados pelo marechal Guilherme Xavier de Sousa. Ao 
que tudo indica o marechal gostava muito dessa família pois o menino 
João da Cruz recebeu, além de educação refinada, adquirida no Liceu 
Provincial de Santa Catarina, o sobrenome Sousa. 

Apesar de toda essa proteção, Cruz e Souza sofreu muito com o 
preconceito racial. Depois de dirigir um jornal abolicionista, foi impedido 
de deixar sua terra natal por motivos de preconceito racial. 

Algum tempo depois é nomeado promotor público, porém, é impedido de 
assumir o cargo, novamente por causa do preconceito. Ao transferir-se 
para o Rio, sobreviveu trabalhando em pequenos empregos e continuou 
sendo vítima do preconceito. 

Em 1893 casa-se com Gravita Rosa Gonçalves, que também era negra e 
que mais tarde enlouqueceu. O casal teve quatro filhos e todos 
faleceram prematuramente, o que teve vida mais longa morreu quando 
tinha apenas 17 anos. 

Cruz e Souza morreu em 19 de março de 1898 na cidade mineira de 
Sítio, vítima de tuberculose. Suas únicas obras publicadas em vida 
foram Missal e Broquéis. 


Cruz e Souza é, sem sombra de dúvidas, o mais importante poeta 
Simbolista brasileiro, chegando a ser considerado também um dos 
maiores representantes dessa escola no mundo. Muitos críticos chegam 
a afirmar que se não fosse a sua presença, a estética Simbolista não 
teria existido no Brasil. Sua obra apresenta diversidade e riqueza. 

De um lado, encontram-se aspectos noturnos, herdados do Romantismo 
como por exemplo o culto da noite, certo satanismo, pessimismo, 
angústia morte etc. Já de outro, percebe-se uma certa preocupação 
formal, como o gosto pelo soneto, o uso de vocábulos refinados, a 
força das imagens etc. Em relação a sua obra, pode-se dizer ainda que 
ela tem um caráter evolutivo, pois trata de temas até certo ponto 
pessoais como por exemplo o sofrimento do negro e evolui para a 
angústia do ser humano.

 Bibliografia:

3. Foi João da Cruz e Sousa poeta de temática universal. 
Teve dores pessoais; sobre estas não chorou, como faz uma notável 
quantidade de poetas. 

Tratou da dor como situação universal, que atinge a todos os 
seres, emparedando-os inexoravelmente. 

É notável que Cruz e Sousa aspirasse também o universal na 
cultura. Primeiramente a humanidade. Depois a nacionalidade. Sempre 
depois da globalidade, e somente depois importava a ele a etnia, ou o 
que quer que fosse. Neste sentido, Cruz e Sousa será o poeta do 
terceiro milênio, cujo universalismo já se encontra em andamento. 

Foi Cruz e Sousa um perfeccionista da forma, e por isso não 
poderia deixar de tomar aos parnasianos, o que tinham de melhor. 

Ultrapassando aos parnasianos, foi Cruz e Sousa ainda ser um 
simbolista, explorando portanto também o poder dos símbolos, a força 
das analogias, as sugestões poderosas, que pudessem conduzir mais 
além, como queria também a filosofia de muitos dos luminares de seu 
tempo. 

Apesar de nascido em berço de ouro, sob a proteção de um nobre 
Marechal, na encantadora Ilha de Santa Catarina, foi lhe a vida curta e 
finalmente atribulada. Ainda que morresse na metade do curso de sua 
vida, foi, mesmo assim, nosso Cruz e Souza capaz de criar obra poética 
suficientemente grande, que surgiu como montanha entre as outras 
grandes obras do seu tempo. Imagine-se, quanto seria gigantesco, se 
houvesse vivido uma vida inteira! 


4. - Que é poesia? Dizer a palavra "violão", de tal maneira que ela 
faça pensar objetivamente só no objeto, ainda não é criar poesia. 
Está-se ainda no âmbito da prosa. 

Quando a palavra é pronunciada em circunstâncias, as quais são 
capazes de excitar imagens, cintilando evocações, associando estados 
de alma, ela ultrapassa a objetividade da expressão em prosa e alcança 
o clima poético. 

Eis a transfiguração que a linguagem assume no poeta simbolista 
João da Cruz e Sousa, no poema Violões que choram... 


Ah! Plangentes violões dormentes, mornos, 
soluços ao luar, choros ao vento... 
Tristes perfis, os mais vagos contornos, 
bocas murmurejantes de lamento, 
Noites de além, remotas, que eu recordo. 
Noites de solidão, noites remotas 
que nos azuis da Fantasia bordo, 
vou constelando de visões ignotas. 

Sutis palpitações à luz da lua, 
anseio dos momentos mais saudosos, 
quando lá choram na deserta rua 
as cordas dos violões chorosos.


Para a poesia as palavras têm conotações associativas. Estas 
conotações ocorrem sobretudo quando se indicam objetos coma Flor, 
Mulher, Coração, Amor, Pátria, Vitória, Sofrimento, Dor, Angústia, 
Violões. 

Também formam clima evocador a cadência, a rima, a aliteração, 
a emotividade dos símbolos, Até mesmo isto ocorre com o aspecto 
visual do texto, inclusive das letras maiúsculas, A poesia concretista 
aproveita a montagem exterior, combinando elementos especificamente 
literários, com outros capazes de co-participar e criar associatividade, 
suscitando poesia par todas as maneiras. 
A grande poesia, como a de João da Cruz e Sousa, é a que sabe 
estabelecer as evocações mais intensas e institui os recursos 
surpreendentes de inspiração. 

O que acontece com os instrumentos mais ricos de evocação, 
também sucede com os temas. Na grande poesia, os temas superam o 
cotidiano. Os decadentes franceses, depois conhecidos por simbolistas, 
experimentaram esta saída para novas objetos, com recursos 
extraordinários, conflitando, com o naturalismo parnasiano das formas 
perfeitas da realidade positiva. 

Já antes que o simbolismo se instalasse no Brasil em 1887, a 
versificação de Cruz e Sousa apresentava uma tendência para a 
temática ultra-significativa, com recursos que transcendiam ao 
extraordinário. Com a publicação de Missal (em prosa) e Broquéis (em 
poesia), ambos no decorrer de 1893, já era apontado como uma das 
principais expressões desta maneira de ver e exercer a arte. 

Depois, já próximo do final do século, ao compor seus versos de 
Violões que choram..., publicados em 1897, o simbolismo brasileiro 
alcançava um dos seus instantes mais convincentes. 


"Que esses violões nevoentos e tristonhos 
são ilhas de degredo atroz, funéreo, 
para onde vão, fatigadas do sonho, 
almas que se abismaram no mistério".

Demoram e são longas as chorosas evocações dos Violões 
abismados no mistério das horas, das noites compridas de meditação, 
inesgotáveis são, como as distâncias, as profundezas e as alturas da 
metafísica interminável. Porque os temas indefinidos não se esgotam, 
os Vio1ões do poeta continuam plangendo, sem poder terminar, em 
versos inúmeros. 


5.- Esta história. O apelo à expressão poética tem história, da 
qual recortamos um pedaço, aquele que diz respeito a João da Cruz e 
Souza e ao movimento simbolista ao qual pertenceu sobretudo nos seus 
últimos anos. 

No decurso milenar de suas manifestações, vários foram os estilos 
de manifestação poética, oscilando em geral entre o equilíbrio clássico 
e a tensão das formas intensivas, como do romantismo, simbolismo, 
modernismo. 

Com vistas ao simbolismo brasileiro (1897-1917), seguido do 
modernismo de que é um dos precursores, os estudiosos concentram 
suas atenções em Cruz e Sousa. 

Não obstante figurar como uma fase cronológica, Cruz e Sousa é 
um personagem com validade absoluta, o mesmo se podendo dizer de 
sua obra. 

Divisão. No primeiro capítulo destacaremos o lado episódico do 
poeta, que sempre é importante para apreensão da expressão 
evocativa. 

No segundo abordaremos em abstrato a forma artística de sua 
obra, o conteúdo ideológico e filosófico, em especial suas teorias 
estéticas. 

Fontes de informação. A documentação e bibliografia é 
relativamente abundante sobre a obra de Cruz e Sousa. 

Obtém-se em parte nos jornais e revistas daquela época. Embora 
em números raros, os órgãos de imprensa do final da Província ou do 
Império, bem como do início da República, quase todos subsistem. 

Os jornais e revistas em que Cruz e Sousa escreveu se 
encontram nas coleções da Biblioteca Pública do Estado de Santa 
Catarina. Também se encontram na Biblioteca Central da Universidade 
Federal de Santa Catarina em Florianópolis, em parte provenientes do 
espólio de Lucas Boiteux). Finalmente se encontram também na 
Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, onde também se acham volumes das 
primeiras edições dos livros do poeta. 

Destacam-se os seguintes jornais: 

de Florianópolis, - A Regeneração; Despertador; jornal do 
Comércio; Poliantea; Colombo; Moleque; O Artista; 

do Rio de Janeiro, - Debate; Novidades; Ilustração Brasileira; 
República; o Pais; O Tempo; Cidade do Rio, sendo este o jornal em que 
inicialmente trabalhou Cruz e Sousa ao se transpor, definitivamente, 
para a Capital da República em fins de 1890. 

A bibliografia, ou escritos sobre Cruz e Sousa, é abundante. A 
edição do centenário, 1961, arrolou 81 títulos, que até então haviam 
tratado do poeta. Depois surgiram outros de excelente qualidade. 

São importantes os relatos contemporâneos de Cruz como os de 
Virgílio Várzea (Impressões da Província, em Correio da Manhã, RJ, 
1907) ; de Araújo de Figueiredo (No caminho do destino, memórias 
deixadas inéditas, com versão A e versão B, que chegaram às mãos de 
R. Magalhães Júnior, o qual as estudou em Poesia e Vida de Cruz e 
Sousa, 3. ed., 1971); de Nestor Vitor (Introdução, de quase 60 
páginas, que abre a 1? edição de Obras Completas de Cruz e Sousa, em 
1923). Similar é o trabalho de Andrade Muricy, editor da edição do 
centenário, com respectiva Introdução(1961). 

Ainda representam informação direta sobre Cruz e Sousa os seus 
mesmos textos. Como a Platão, que melhor se conhece pelos escritos 
do que pelos comentadores, a Cruz e Sousa mais se descobre pela 
inteligente leitura dos seus versos e de sua prosa, do que pelas 
informações externas. 

Havendo assinado seu nome com data e lugar em muitas de suas 
poesias, este fato permite acompanhar o roteiro do poeta, que 
percorreu o país do Sul ao Amazonas, e determinar detalhes sobre os 
elementos que o inspiraram. 

Combinando as informações com os textos, chegamos a este 
ensaio, sem outra pretensão que a de ter tido o prazer de haver 
meditado sobre um poeta, que muito tem de afim com a ocupação dos 
filósofos. 

CRONOLOGIA:


1861
Nascimento do poeta em 24 de novembro, Nossa Senhora do Desterro, 
atual Florianópolis. Filho do escravo mestre-pedreiro Guilherme e da 
escrava liberta, Carolina Eva da Conceição, negros puros.
1869
Ingresso na escola pública, depois de receber as primeiras letras de 
dona Clarinda Fagundes de Souza, mulher do marechal Ghilherme Xavier 
de Sousa, em cuja casa o poeta foi criado.
1871
Matrícula no Ateneu Providencial Catarinense, onde lecionava o alemão 
Fritz Müller. Cruz e Sousa estudou com distinção grego, latim, inglês, 
francês, português, matemática e ciências naturais.
1881
Fundação, com Virgílio Várzea e Santos Lostada, do jornal literário 
"Colombo". Viagem ao Rio Grande do Sul, de navio, acompanhado a 
Companhia Dramática Julieta dos Santos, como ponto teatral.
1884
Nova viagem ao Norte do país. Aclamações abolicionista ao poeta na 
Bahia. Em 1885 publica o livro de poemas em prosa "Tropos e Fantasias" 
em parceria com Virgílio Várzea. Dirige o jornal "O Moleque".
1888
No Rio, entra em contato com Luís Delfino, B. Lopes e Nestor Vítor. 
Este tornar-se mais tarde grande amigo, admirador e editor do poeta. 
Leituras de Edgar Allan Poe e de alguns simbolistas europeus.
1888
Abolição da escravatura. Durante estada no Rio, apresenta a José do 
Patrocínio um livro de versos chamado "Cambiantes", que não chegou a 
ser publicado. O livro continha poemas abolicionistas.
1890
Muda-se definitivamente para a capital federal, onde trabalha como 
noticiarista da revista "A Cidade do Rio de Janeiro". Leitura de Mallarmé. 
Colabora na "Revista Ilustrada" e no jornal "Novidades".
1891
No dia 18 de setembro, à porta de um cemitério de subúrbio, Cruz e 
Sousa conhece Gavita Rosa Gonçalves, seu grande amor. Gavita é uma 
costureira negra que se criara em casa de um médico de posses.
1893
Publicação de "Missal", prosa, em fevereiro, e "Broquéis", poemas, 
agosto, pela Magalhães e Companhia. Em dezembro casa-se com Gavita 
e é nomeado praticante de arquivista na Central do Brasil.
1891
O nascimento do primeiro filho marca o começo das grandes 
dificuldades financeiras. Finda o mandado de Floriano Peixoto. Em 
novembro toma posse o primeiro presidente civil, Prudente de Moraes.
1896
Morte do pai em Santa Catarina, com cerca de 90 anos. Loucura da 
mulher, no Rio. Em meio a extremas dificuldades, compõe os poemas de 
"Faróis" e a prosa poética de Evocações.
1896
"Evocações" só é publicado após sua morte. Fundação da Academia 
Brasileira de Letras, da qual Machado de Assis seria o primeiro 
presidente e para a qual o nome de Cruz nem seria cogitado.
1897
A tuberculose ataca Cruz e Sousa no final do ano. Em meio à doença, à 
pobreza e ao desamparo social, o poeta compõe "Últimos Sonetos", 
publicados em 1905, em Paris, pelo amigo Nestor Vítor.
1898
A idéia da morte assombra o poeta, contaminando os seus últimos 
poemas. Em 15 de março, em busca de saúde, parte com Gavita 
grávida para Sítio, em Minas. Os três filhos ficam no Rio.
1898
Três dias após a chegada, o poeta morre, em 19 de março. Antes de 
partir para Sítio, o poeta entrega a Nestor Vítor os originais de três 
livros: "Evocações", "Faróis" e "Últimos Sonetos".


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