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Caminhos Cruzados
História que chocou os leitores conservadores e a crítica que viu, em Caminhos
Cruzados, imoralidade
e subversão. O livro é uma análise realista da época e mostra o enorme
contraste entre a riqueza e a
pobreza, expondo com fidelidade os problemas de certas camadas sociais. Escrito
em 1935.
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Chinita abre os olhos e a primeira imagem que lhe vem à memória se relaciona
com aquela tarde inesquecível. Debaixo das cobertas quentes como que tornou a
sentir de novo as carícias reveladoras de Salu. Já não há mais lugar para
remorsos, para escrúpulos, para cuidados. Porque ela conhece o gozo misterioso
de cuja existência sabia por intuição. Agora Chinita só pode desejar a
repetição daquele instante agitado e bom.
A tira de sol que entra pela fresta da janela se estende até a cama.
A manhã deve estar linda. Chinita toca a campainha. A criada aparece. Ela pede:
- Chocolate.
A criada torna a sair. Chinita se espreguiça. Um bocejo cantado. Outra vez é
Joan Crawford. O seu mundo do cinema renasce. O resto, que importa?
Salu já lhe fez a grande revelação. E ela tem a impressão de ouvir as suas
palavras: A vida é curta, a gente morre mesmo. Por que não aproveitar?
Deixa de bobagem!
E a vida acaba mesmo.
Chinita fica pensando em Salu. Quando será que vai vê-lo de novo? Se fossem
casados...
Mas não. Casamento é tolice. Primeiros meses, aquela fúria - como ele
explicou. Depois - aborrecimento, frieza. Tudo fica visto, igual, repetido.
Ao passo que dois amantes (apesar da palavra feia - amante) podem continuar a
achar sempre no amor uma coisa gostosa, proibida, esquisita.
Os minutos passam. A criada entra com o chocolate.
- Que tal está o dia?
- Lindo.
Quando a mulata torna a sair Chinita fica pensando: Será que ela já
experimentou também aquele gozo proibido?
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