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Música ao Longe
Continuação do romance Clarissa. A vida que passa e o mistério da vida. As
pessoas vão morrendo e Clarissa teme a velhice. O casarão passa de mãos em mãos.
Clarissa quer segurar a sua juventude.
E pensa também em seus alunos, que amanhã serão homens acabados. Nada é
definitivo.
Os Albuquerques, outrora senhores de Jacarecanga, são substituídos, política
e socialmente, por um grupo de imigrantes sem passado e sem tradição. O
romance narra a decadência lenta e definitiva do antigo patriarcado social
rio-grandense.
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O relógio da varanda bate dez horas.
João de Deus abafa um bocejo. Tia Zezé cochila a um canto. Dona Clemência
tricoteia. Cleonice e "seu" Pio conversam e chupam caramelos na outra
sala.
A noite vai ficando velha e nada aconteceu. Sem que Clarissa saiba exatamente
por que, seus olhos ao menor ruído se erguem de repente e se fixam na porta,
como se estivessem esperando a entrada de alguém.
O serão se prolonga. Papai fala no irmão que se suicidou. Por um instante a
alma do afogado está presente. Depois falam da mãe de Vasco.
Depois, em "seu" Leocádio. E todos os mortos vão chegando de
mansinho e sentam-se nas cadeiras vazias, tomando parte também no serão.
E o relógio tique-taqueia. E quando se faz silêncio entre os vivos, são os
mortos que estão falando. Até o tio Amâncio comparece em espírito, tossindo
e acariciando o bigode ralo.
Clarissa olha para as páginas da revista que tem nas mãos, olha, mas sem ver.
E vai folheando à toa. Um ruído... E seus olhos se erguem para a porta.
"Na próxima vez não olho, podem até bater. Que bobagem!" Mas
estrala uma viga e de novo os olhos de Clarissa se alçam.
Fecha a revista, levanta-se, pede bênção aos pais, dá boa-noite aos outros e
sobe para o quarto.
Agora ela vai subindo, calada, com medo até de pensar.
Dentro do quarto encontra um doce intruso. O luar fresco de setembro, com
perfume de madressilva e de junquilhos.
Clarissa fecha a porta.
Melhor não acender a luz, para não quebrar o encantamento. Vai até a janela.
A lua-cheia sobre Jacarecanga. A rua quieta. Uma corneta tocando longe, num
quartel. A presença silenciosa das estrelas. Cachorros uivando.
Galos cantando.
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