Grandes Escritores



O Resto é Silêncio - Resumo
© Érico Veríssimo

 
O Resto é Silêncio

Numa sexta-feira santa, uma moça cai do décimo andar de um edifício em Porto Alegre. Sete pessoas a vêem cair: um desembargador aposentado (Dr. Lustosa), um homem de negócios à beira da falência (Norival), um romancista (Tônio Santiago), um ex-deputado e próspero advogado (Aristides Barreiro), um vendedor de jornais ('o' "Sete"), um boêmio (o "Chicharro") e uma mulher angustiada (Marina).
Descrevendo as reações dessas pessoas antes e após o suicídio, Erico Verissimo analisa o comportamento humano e, ao mesmo tempo, traça o perfil de uma época.

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No teatro a sinfonia aproximava-se do final. O movimento era um presto vibrante e cheio de decisão. A música parecia dizer que não havia mais lugar para os tímidos e os indecisos. O destino tentava erguer a voz ameaçadora, mas o Homem aceitava corajosamente o desafio.
Sim - concluía Tônio. Ali estava a solução. Aceitar o desafio da Fatalidade e entrar na luta. Era preciso vencer a idéia da morte e da derrota, acreditar na possibilidade da construção dum mundo de beleza e de bondade, apesar de toda a lama, de toda a miséria, de toda a dor.
Para Aristides, a vitória era o corpo de Moema. O penteado de Aurora erguia-se como uma negra culminância na paisagem do teatro: era mais importante que o Destino, que as exclamações de triunfo de Beethoven, que tudo...
Um copo de leite gelado com pão-de-ló... - sonhava o desembargador, sonolentamente. Um cocktail no intervalo - desejava Norival, olhando mais uma vez o relógio, ansioso por ver finalizado o concerto.
Lívia imaginava-se na torre, no meio da madrugada, a arranjar secretamente os ninhos para os ovos da Páscoa: um na porta do quarto de cada filho; e não deixava de ser um menino. Todos eram menino diante de Deus.
Longe dali, a mãe de Sete caminhava à beira do banhado com um toco de vela aceso na mão, procurando...
Na praça, o Chicharro chegava ao fim de suas reflexões e murmurava a velha conclusão: Não tem importância. Não tem nenhuma importância.
Bernardo Rezende, empapado de suor magnífico, agitava os braços com frenética energia. O Destino fazia ainda ouvir as suas pancadas pressagas. Mas o Homem prosseguia no seu canto de vitória.
Lutar... - repetia Tônio para si mesmo. Aceitar o desafio da Fatalidade. E ante suas batidas à nossa porta, erguer a cabeça, cerrar os punhos e dizer: "Pode entrar. Estamos prontos!"
Os acordes finais da sinfonia encheram o teatro, fustigando o ar como chicotadas. Brutais, tremendos, impiedosos, inapeláveis.
     



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