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O Tempo e o Vento
O Continente
A epopéia do Rio Grande do Sul. Com O Tempo e o Vento, Erico Verissimo
reconstitui uma época de importância na cultura brasileira, a partir da formação
do Rio Grande do Sul.
A obra se divide em três partes, abarcando duzentos anos da história
rio-grandense. Na primeira, cuja ação abrange o período entre 1745, a época
das guerras de fronteiras e do estabelecimento das primeiras estâncias, e 1895,
data da reestruturação da República no Rio Grande do Sul.
A primeira parte, denominada O Continente, narra a história das duas famílias,
os Terra e os Cambará, e os acontecimentos que provocaram a formação da
sociedade patriarcal rio-grandense.
Integram a primeira parte, além de outros, os capítulos "O Sobrado",
"Ana Terra" e "Um Certo Capitão Rodrigo", e aparecem inúmeras
personagens, entre as quais: Pedro Missioneiro, Ana Terra, Pedro Terra, Bibiana,
Capitão Rodrigo, Bolívar, Licurgo, vivendo a tragédia da conscientização de
uma terra fixada às próprias raízes.
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Antes de começar o ataque ao casarão, Rodrigo foi à casa do
vigário.
- Padre! - gritou, sem apear. Esperou um instante. Depois:
- Padre! A porta da meiágua abriu-se e o vigário apareceu.
- Capitão! - exclamou ele, aproximando-se do amigo e erguendo a mão, que
Rodrigo apertou com força.
Foi só pra saber se vosmecê estava aqui ou lá dentro do casarão.
Eu não queria lastimar o amigo...
Muito obrigado, Rodrigo, muito obrigado. - O Padre Lara sacudiu
a cabeça, desalentado. - Vosmecê vai perder muita gente, capitão. Os Amarias
são cabeçudos e têm muita munição.
- Eu também sou cabeçudo e tenho muita munição.
Por que não espera o amanhecer?
Rodrigo deu de ombros.
- Pra não deixar a coisa esfriar.
- Olhe aqui. Vou lhe dar uma idéia. Antes de começar o assalto,
porque vosmecê não me deixa ir ao casarão ver se o Cel. Amaral consente em se
render pra evitar uma carnificina?
- Não, padre. Não faças aos outros aquilo que não queres que te façam a ti.
Não é assim que diz nas Escrituras? Se alguém me convidasse pra eu me render
eu ficava ofendido. Um homem não se entrega."
- Mas não há nenhum desdouro. Isto é uma guerra entre irmãos. - São as mais
brabas, padre, são as mias brabas.
De cima do cavalo Rodrigo ouvia a respiração chiante e dificultosa do
sacerdote. Lembrou-se das muitas conversas que tiveram noutros tempos.
- Vosmecê é um homem impossível... - disse o padre, desolado.
- Acho que esta noite vou dormir na cama do velho Ricardo.
- Sorriu. - Mas sem a mulher dele, naturalmente... E amanhã de manhã quero
mandar um próprio levar ao chefe a notícia de que Santa Fé é nossa. A Província
toda está nas nossas mãos. Desta vez os legalistas se borraram! Até logo,
padre.
Apertaram-se as mãos.
- Tome cuidado, capitão. Vosmecê se arrisca demais.
- Ainda não fabricaram a bala que há de me matar! - gritou
Rodrigo, dando de rédea.
- A gente nunca sabe - retrucou o padre.
- E é melhor que não saiba, não é?
- Deus guie vosmecê!
- Amém! - replicou Rodrigo, por puro hábito, pois aprendera a
responder assim desde menino.
O padre viu o capitão dirigir-se para o ponto onde um grupo de
seus soldados o esperava. A noite estava calma. Galos de quando em quando
cantavam nos terreiros. Os galos não sabem de nada - refletiu o padre. Sempre
achara triste e agourento o canto dos galos. Era qualquer coisa que o lembrava
da morte. Voltou para casa, fechou a porta, deitou-se na cama com o breviário
na mão, mas não pôde orar.
Ficou de ouvido atento, tomado duma curiosa espécie de medo. Não era medo de
ser atingido por uma bala perdida. Não era medo de morrer. Não era nem medo de
sofrer na carne algum ferimento. Era medo do que estava para vir, medo de ver os
outros sofrerem. No fim de contas - se esmiuçasse bem - o que ele tinha mesmo
era medo de viver, não de morrer.
O Tempo e o
Vento
O Retrato
Na segunda parte do livro, denominada O Retrato, a duração do tempo é mais
limitada. A história se desenvolve entre 1909 e 1915. No entanto, dentro da técnica
utilizada pelo Autor, o panorama começado dois séculos antes chega, com O
Retrato, à sua culminância no Estado Novo.
Rodrigo Cambará, o homem da era getuliana, é o herói que vive entre Santa Fé
e o Rio de Janeiro. Não tem a dimensão de seu antecedente, o capitão Rodrigo
Cambará. Em O Retrato, Erico Verissimo analisa, através dessa personagem, a
diluição lenta e progressiva dos valores morais que determinaram o passado
rio-grandense, porquanto o segundo Rodrigo Cambará, embora portador de
qualidades herdadas de seu antepassado, nos é apresentado como um homem
conflitado, instável e, socialmente, não é mais do que uma caricatura política
da ditadura getulista.
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Rodrigo aproximou-se da janela e por alguns instantes ficou a
olhar a praça, através dos vidros meio embaciados.
O desaparecimento do Senador dava-lhe uma estranha sensação de orfandade que
ele não procurava explicar em combater. E agora lhe vinha uma súbita e
enternecida saudade do pai, o desejo de vê-lo, ouvi-lo, tê-lo ali no Sobrado
como companheiro naquela hora amarga.
Desenhou-se-lhe na mente, nítida, a imagem de Pinheiro Machado e tal como o
vira no inverno de 1910. O Senador apertava-lhe a mão e dizia: "Há homens
que nasceram talhados para o sacrifício. Mas uma coisa sei te dizer: eu não te
tenho vocação para mártir."
Rodrigo fez uma brusca meia volta:
- Pelas costas, os miseráveis!
Ao saberem da notícia, Flora e Maria Valéria vieram para a sala
e ficaram junto da porta, mudas, num silêncio apreensivo.
Rodrigo leu nos olhos de ambas uma expressão que com freqüência vinha ao
semblante das mulheres do Rio Grande: o medo ancestral da guerra.
- Precisamos fazer alguma coisa! - exclamou, olhando para o
intendente. - Vou redigir um telegrama à nossa bancada no Rio. Algo de vibrante
que leve o nosso protesto, a nossa indignação ante esse crime bárbaro,
esse...
Calou-se, engasgado.
E naquela mesma noite, ao entrar no Comercial, onde esperava
colher assinaturas para o telegrama, ouviu um forasteiro comentar em altos
brados: "Bem-feito! foi uma limpeza! Era um caudilho, um déspota, a asa
negra do Brasil!" Precipitou-se sobre ele, segurou-o pela gola do casaco,
deitou-o sobre um dos bilhares e esbofeteou-lhe repetidamente a cara,
vociferando:
- É para aprenderes a respeitar os homens, canalha!
O Tempo e o
Vento
O Arquipélago
Na terceira parte, O Arquipélago, aparece a história de Santa Fé e da família
Cambará, cuja narrativa se finaliza no momento em que o presente e o tempo da
ficção se encontram. Estamos no ano de 1945. A célula familiar se desagrega,
simbolizada inicialmente pelo "Sobrado", agora transformada no
"arquipélago" da incomunicabilidade.
Nos diversos capítulos, o Autor corta as situações, retrocedendo ou avançando
no tempo, apresentando, como em "Reunião de Família", fragmentos
retrospectivos da família Cambará, que são, a um só tempo, etapas do
desenvolvimento histórico da cidade de Santa Fé, do Rio Grande do Sul e, mais
remotamente, do Brasil.
No capítulo final, "Encruzilhada", Floriano Cambará começa a
escrever o romance que seria O Tempo e o Vento.
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Floriano entrou em casa depois da meia-noite, quando já haviam cessado nas ruas
os ruídos das comemorações, e a noite se preparava para ser madrugada. No silêncio
do casarão só ouviu o tique-taque do relógio de pêndulo e, vindo do andar
superior, o surdo bater da cadeira de balanço de Maria Valéria.
"O Sobrado está vivo" - pensou, sorrindo. Entrou na sala de
visitas, acendeu uma das lâmpadas menores e ficou por algum tempo a olhar
afetuosamente o retrato de corpo inteiro do pai. Depois subiu para a água-furtada.
Acendeu a luz, fechou a porta e olhou em torno, como que já a despedir-se
daquele ambiente. Na véspera havia feito várias tentativas para iniciar o
romance. Para ele o mais difícil fora sempre começar, escrever o primeiro parágrafo.
O papel já estava na máquina, mas ainda completamente em branco.
Tirou o casaco, aproximou-se da janela, sentou-se no peitoril e
ali se deixou ficar, como a pedir o conselho da noite. Viu o cata-vento da torre
da igreja, nitidamente recortado contra o céu, e pensou nas muitas histórias
que ouvira, desde menino, sobre a Revolução de 93. Uma havia segundo a qual,
durante o cerco do Sobrado pelos federalistas, na noite de São João de 1895, o
Liroca tinha ficado atocaiado na torre da igreja, pronto a atirar no primeiro
republicano que saísse do casarão para buscar água ao poço. Por que não
começar o romance com essa cena e nessa noite?
Sentou-se à máquina, ficou por alguns segundos a olhar para o
papel, como que hipnotizado, e depois escreveu dum jato:
Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a
cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério
abandonado.
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