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Saga
Deixando o espaço urbano, Erico Verissimo escreve, em 1940, o romance Saga. O
livro é uma reflexão sobre a guerra. Vasco Bruno, brasileiro, alista-se na
Brigada Internacional, e conta, na primeira pessoa, suas experiências como
combatente na Guerra Civil Espanhola.
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Alvoroço nas nossas posições. Um batalhão de internacionais volta da linha
de frente. Queremos saber como é a vida nas trincheiras e eles nos assustam com
histórias tenebrosas. Estão magros, cansados, barbudos e sujos. Olham com
certo desprezo para o nosso relativo aspecto de frescura e sorriem como quem
diz: Vocês vão ver o que é bom...
Recebemos ordens de marcha. Ao anoitecer chegamos às margens do Ebro e nos
instalamos nas trincheiras. Reina uma calma absoluta. É esquisita esta sensação
de saber que a mais ou menos duzentos metros à nossa frente o inimigo está à
espreita...
Os combatentes nos deixaram uma herança inesquecível: as
muquiranas. São repugnantes, cor de marmelada branca (a definição é do
sargento De Nicola) e andam-nos por todo o corpo como por uma terra-de-ninguém.
Os internacionais lhes chamam "os trimotores". São motivo de riso,
assunto para anedotas. Cá estou eu deitado dentro de uma casamata, agarrado ao
fuzil, tonto de sono mas sem conseguir dormir por causa destes parasitas
infernais.
O dia seguinte raia calmo. Fazemos a primeira refeição junto do
parapeito da trincheira. Como com repugnância. Estou sujo e mal-humorado. Através
das seteiras olho as águas do Ebro que o sol doura, e fico a desejar
alucinadamente um banho. Chego à conclusão de que este estado de espírito que
gera a guerra em última análise é sórdido e que portanto determina uma
sujeira física correspondente.
Mas a conclusão não me traz nenhum consolo nem alívio.
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