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Solo de Clarineta
Livro de memórias.
O meu amigo mais íntimo é o sujeito que vejo todas as manhãs no espelho o
quarto de banho, à hora onírica em que passo pelo rosto o aparelho de barbear.
Estabelecemos diálogos mudos, numa linguagem misteriosa feita de imagens, ecos
de vozes, alheias ou nossas, antigas ou recentes, relâmpagos súbitos que
iluminam faces e fatos remotos ou próximos, nos corredores do passado - e às
vezes, inexplicavelmente, do futuro - enfim, uma conversa que, quando analisamos
os sonhos da noite, parece processar-se fora do tempo e do espaço.
Surpreendo-me quase sempre em perfeito acordo com o que o Outro diz ou pensa.
Sinto, no entanto, um pálido e acanhado desconforto por saber que existe no
mundo alguém que conhece tão bem os meus segredos e fraquezas, uns olhos assim
tão familiarizados com a minha nudez de corpo e espírito.
Talvez seja por isso que com certa freqüência entramos em conflito. Mas a ridícula
e bela verdade é que no fundo, bem feitas as contas, nós nos queremos um
grande bem. Estamos habituados um ao outro. Envelhecemos juntos. A face do Outro
é o meu calendário implacável. "Os cabelos te fogem, homem" -
murmuro-lhe às vezes - "Tuas carnes se tornas flácidas.
Vejo a escrita do tempo no pergaminho do teu rosto". - "E como
imaginas que estás?" - replica o meu reflexo. Acabamos consolando-nos
mutuamente com a idéia de que conservamos a mocidade de espírito. Mas até
onde isso é verdade? Encolhemos os ombros e passamos a outras considerações e
devaneios, enquanto o barbeador elétrico zumbe, e o incansável calígrafo
invisível continua no seu sutil trabalho de amanuense da Morte.
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