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Fernando Pessoa é o poeta dos heterónimos; o poeta que se desmultiplica ou
despersonaliza na figura de inúmeros heterónimos e semi-heterónimos, dando
forma por esta via à amplitude e à complexidade dos seus pensamentos,
conhecimentos e percepções da vida e do mundo; ao dar vida às múltiplas
vozes que comporta dentro de si, o poeta pode percepcionar e expressar as
diferentes formas do universo, das coisas e do homem. Será curioso lembrar que
a palavra pessoa comporta em si este simbolismo do desdoramento fictício, do
assumir em pleno uma personagem, se recordarmos que é as das máscaras de
teatro dos actores clássicos, representantivas de uma personagem, que surge a
palavra persona, origem etimológica de pessoa. Os heterónimos podem ser vistos
como a expressão de diferentes facetas da personalidade de Fernando Pessoa e
como a manifestação de uma profunda imaginação, criatividade e ficção que
desde cedo se revela no poeta - recorde-se que o primeiro heterónimo, o
Chevalier de Pas, foi inventado quando o poeta tinha seis anos. Os mais
conhecidos e com produção literária mais consistente e constante são, no
entanto, outros: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Mas para
além destes heterónimos Fernando Pessoa, desdobrou-se em inúmeros
semi-heterónimos e pseudónimos, personalidades com uma biografia traçada com
maior ou menor detalhe, personalidades com vidas literárias mais ou menos
intensas, personalidades que acompanharam o poeta durante um tempo muito ou
pouco significativo e que, quantas vezes, se desbobram elas mesmas em outras.
Teresa Rita Lopes, na sua obra Pessoa por Conhecer (Lisboa,Editoral Estampa,
1990, 2vol.), dá-nos a conhecer uma diversidade muito significativa destas
facetas de Fernando Pessoa, algumas muito pouco estudadas e outras inéditas ou
praticamente inéditas. Do período da sua visita a Portugal com a família
(entre Agosto de 1901 e Setembro de 1902) conhecem-se algumas personalidades que
com ele colaboram nos seus primeiros percursos jornalísticos- nos seus jornais
manuscritos A Palavra e O Palrador, de difusão reservada ao próprio e ao seu
meio familiar, e onde escreve, em língua potuguesa, apesar da educação em
língua inglesa que vinha recebendo, textos de índole diversa. Uma dessas
personalidades é o Dr. Pancrácio que colabora em ambos os jornais e que irá
acompanhar o poeta quer no seu regresso a Durban, onde se manifestará através
de um ensaio humorístico, escrito em inglês, quer no regresso definitivo de
Fernando Pessoa a Portugal, em 1905, continuando a sua colaboração no projecto
do O Palrador. No jornal O Palrador, do período de 1902, colaboram também,
para além do Dr. Pancrácio, Pedro da Silva Salles, como redactor, Luiz
António Congo, como secretário de redacção, José Rodrigues do Valle, na
direcção literária e, como administrador, António Augusto Rey da Silva.
Fernando Pessoa cria, pois, não só um jornal mas também toda a equipa
necessária para dar vida ao projecto.
Nesse jornal viria a colaborar, também nesse período, Eduardo Lança, um
brasileiro que fixa residência em Lisboa e aí se dedica à sua publicação
literária e que acompanha também Fernando Pessoa no regresso, em 1903, a
Durban. Em Durban, novas personalidades vão sendo criadas: Alexander Search e o
irmão Charles James Search, Robert Annon e David Merrick. De regresso
definitivo a Portugal, no ano de 1905, Fernando Pessoa faz-se acompanhar destes
companheiros de actividade literária. Para além dos irmãos Search, viaja
ainda com ele um françês: Jean Seul de Méluret. A cada uma destas
personalidades, Fernando Pessoa atribui projectos literários, distribuindo,
deste modo, a sua vontade de intervir na vida cultural daquela que sempre foi a
sua pátria, a sua nação. Regressado a Portugal, Fernando Pessoa retoma os
seus jornais manuscritos. Ao O Palrador, dirigido, nesta nova série por
Gaudêncio Nabos, acrescentam-se mais dois jornais: O Phosphoro e O
Iconoclasta.Respondendo aos seus planos de intervir sobre a sociedade
portuguesa, que considera empobrecida e viciada, vai ensaiando textos críticos
e humorísticos que visam, por exemplo, a política e a religião. Outra das
muitas personalidades criadas por Fernando Pessoa foi Joaquim Moura Costa o qual
colabora nestes dois periódicos, através de textos que manifestam bem o seu
espírito satírico e revolucionário.
Pantaleão foi outro dos colaboradores de O Phosphoro. Personagem multifacetada,
volta-se para o jornalismo, para a poesia, para os textos humorísticos; é
militante republicano e tece críticas veementes à igreja católica e à
monarquia. Por esta altura aparece também, como que num desdobramento daquele,
o Torquato Mendes Fonseca da Cunha Rey que, antes de morrer, encarrega
Pantaleão de publicar um texto seu.
No projecto de Fernando Pessoa para a Empresa Íbis, em 1907, projecto inserido
no seu espírito patriótico que se manifesta, nomeadamente, pela vontade de
contribuir para a divulgação da cultura portuguesa, colaboram Vicente Guedes
(personagem muito associada a Bernardo Soares, este último assumido por Pessoa
como semi-heterónimo), Carlos Otto e os já conhecidos Joaquim Moura Costa e
Charles James Search. Carlos Otto, além de colaborar no projecto da Empresa
Íbis, surge também, com Pantaleão, Joaquim Moura Costa e Fernando Pessoa
ligado ao jornal O Phosphoro.
Do período do sensacionismo e do interseccionismo, Teresa Rita Lopes, na obra
já mencionada, dá-nos conta de personalidades como António Seabra, Frederico
Reis (provavelmente um irmão do heterónimo Ricardo Reis), Diniz da Silva,
Thomas Crosse e I.I. Crosse, sendo estes últimos os divulgadores, em língua
inglesa, do sensacionismo. Parece ter existido um outro irmão Crosse, A.A.
Crosse, aquele que respondia, em jornais ingleses, a concursos de charadas e do
qual Fernando Pessoa fala a Ophélia (a resposta a concurso de charadas não é
novidade no Fernando Pessoa de 1919, já que, em Durban também disputava destes
concursos através do nome de Tagus).
A esta lista devem ainda acrescentar-se o psicólogo F. Antunes, que surge por
volta de 1907, Frederick Wyatt e os seus irmãos Walter e Alfred (este último
com residência em Paris onde convive com Mário de Sá-Carneiro), o Barão de
Teive, personalidade literária cuja obra continua por conhecer e que expressa a
faceta de inadaptação e o sentimento de exclusão do seu demiurgo, Bernardo
Soares (a quem acabou por ser atribuído o Livro do Desassossego, pensado tanto
para Vicente Guedes como para o próprio Fernando Pessoa) e Maria José que,
segundo Teresa Rita Lopes, terá sido a voz feminina que mais se destacou no
universo das criações pessoanas.
Além dos nomes de Botelho e de Quaresma (e de tantos outros!) destaca-se ainda
o de António Mora, personalidade associada ao paganismo, o que assume o
"papel" de louco (dando expressão a um tema que Fernando Pessoa vive
com profunda intensidade) de uma Casa de Saúde de Cascais e que, exprimindo-se
como médico, vem diagnosticar o homem moderno, nele detectando o louco-doente.
Colabora com Pessoa em projectos para algumas revistas.
As personalidades mais conhecidas são, como mencionámos, os heterónimos
Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Para cada um destes homens,
Fernando Pessoa desenhou uma cuidada biografia, um horóscopo, um retrato
fisíco completo, traçou as suas características morais, intelectuais,
ideológicas. Três personagens diferentes, cada qual com uma actividade
literária distinta, personagens que se conhecem e entram em polémica uns com
os outros, bem como com o demiurgo, três facetas de um mesmo homem que da
dispersão parece ter feito condição de encontro consigo próprio.
Para o nascimento de Ricardo Reis, quer na mente do poeta, quer na sua
"vida real", Fernando Pessoa estabele datas distintas. Primeiro
afirma, de acordo com o texto de Páginas Íntimas e de Auto- Interpretação
(p.385) que este nasce no seu espírito no dia 29 de Janeiro de 1914: O Dr.
Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma no dia 29 de Janeiro de 1914, pelas 11
horas da noite. Eu estivera ouvindo no dia anterior uma discussão extensa sobre
os excessos, especialmente de realização, da arte moderna. Segundo o meu
processo de sentir as cousas sem as sentir, fui-me deixando ir na onda dessa
reacção momentânea. Quando reparei em que estava pensando, vi que tinha
erguido uma teoria neoclássica, que se ia desenvolvendo.. Mais tarde, numa
carta a Adolfo Casais Monteiro datada de 13 de janeiro de 1935, altera a data
deste nascimento afirmando que Ricardo Reis nascera no seu espírito em 1912.
Fernando Pessoa considera que este heterónimo foi o primeiro a revelar-se-lhe,
ainda que não tenha sido o primeiro a iniciar a sua actividade literária. Se
Ricardo Reis está latente desde o ano de 1912, a julgar pela carta mencionada,
é só em Março de 1914 que o autor das Odes inicia a sua produção, desde
então continuada e intensa, e sempre coerente e inalterável, até 13 de
Dezembro de 1933. Também no que respeita à biografia de Ricardo Reis Fernando
Pessoa apresenta dados distintos. No horóscopo que dele fez, situa o seu
nascimento em 19 de Setembro de 1887 em Lisboa às 4.05 da tarde. Na referida
carta a Adolfo Casais Monteiro altera a cidade natal de Ricardo Reis de Lisboa
para o Porto.
Médico de profissão, monárquico, facto que o levou a viver emigrado alguns
anos no Brasil, educado num colégio de jesuítas, recebeu, pois, uma formação
clássica e latinista e foi imbuído de princípios conservadores, elementos que
são transportados para a sua concepção poética. Domina a forma dos poetas
latinos e proclama a disciplina na construção poética. Ricardo Reis é
marcado por uma profunda simplicidade da concepção da vida, por uma intensa
serenidade na aceitação da relatividade de todas as coisas. É o heterónimo
que mais se aproxima do criador, quer no aspecto físico - é moreno, de
estatura média, anda meio curvado, é magro e tem aparência de judeu
português (Fernando Pessoa tinha ascendência israelita)- quer na maneira de
ser e no pensamento. É adepto do sensacionalismo, que herda do mestre Caeiro,
mas ao aproximá-lo do neoclassicismo manifesta-o, pois, num plano distinto como
refere Fernando Pessoa em Páginas Íntimas e Auto Interpretação, (p.350):
Caeiro tem uma disciplina: as coisas devem ser sentidas tais como são. Ricardo
Reis tem outra disciplina diferente: as coisas devem ser sentidas, não só como
são,mas também de modo a integrarem-se num certo ideal de medida e regras
clássicas.
Associa-se ainda ao paganismo de Caeiro e suas concepções do mundo vai
procurá-las ao estoicismo e ao epicurismo (segundo Frederico Reis a filosofia
da obra de Ricardo Reis resume-se num epicurismo triste - in Páginas Íntimas e
Auto Interpretação, p.386). A sua forma de expressão vai buscá-la aos poetas
latinos, de acordo com a sua formação, e afirma, por exemplo, que Deve haver,
no mais pequeno poema de um poeta, qualquer coisa por onde se note que existiu
Homero (Páginas Íntimas e Auto Interpretação, p.393).
Alberto Caeiro, o «mestre», em torno do qual se determinam os outros
heterónimos, nasceu em Abril de 1889 em Lisboa, mas viveu grande parte da sua
vida numa quinta no Ribatejo onde viria a conhecer Álvaro de Campos. A sua
educação cingiu-se à instrução primária, o que combina com a simplicidade
e naturalidade de que ele próprio se reclama. Louro, de olhos azuis, estatura
média, um pouco mais baixo que Ricardo Reis, é dotado de uma aparência muito
diferente dos outros dois heterónimos. É também frágil, embora não o
aparente muito, e morreu, precocemente (tuberculoso), em 1915. O mestre é
aquele de cuja biografia menos se ocupou Fernando Pessoa. A sua vida foram os
seus poemas, como disse Ricardo Reis: A vida de Caeiro não pode narrar-se pois
que não há nela mais de que narrar. Seus poemas são o que houve nele de vida.
Em tudo o mais não houve incidentes, nem há história.(in Páginas Íntimas e
Auto Interpretação, p. 330)
Aparece a Fernando Pessoa no dia 8 de Março de 1914, de forma aparentemente
não planeada, numa altura em que o poeta se debatia com a necessidade de
ultrapassar o paúlismo, o subjectivismo e o misticismo. É nesse momento
conflituoso que aparece, de rompante, uma voz que se ri desses misticismos, que
reage contra o ocultismo, nega o transcendental, defendendo a sinceridade da
produção poética, um ser manifestamente apologista da simplicidade, da
serenidade e nitidez das coisas, um ser dotado de uma natureza
positivo-materialista e que rejeita doutrinas e filosofias. É este ser que no
dia 8 de Março escreve de rajada 30 e tal poemas de O Guardador de Rebanhos.
Grande parte da produção poética de Ricardo Reis parece ter sido sempre
escrita deste jeito impetuoso em momentos de súbita inspiração.A essa voz,
Fernando Pessoa dá o nome de Alberto Caeiro.
Alberto Caeiro dá também voz ao paganismo. Segundo Fernando Pessoa, A obra de
Caeiro representa uma reconstrução integral do paganismo, na sua essência
absoluta, tal como nem os gregos nem os romanos que viveram nele e por isso o
não pensaram, o puderam fazer.(Páginas Íntimas e Auto Interpretação, p.330)
Apresenta-se como o poeta das sensações; a sua poesia sensacionista assenta na
substituição do pensamento pela sensação (Sou um guardador de rebanhos./ O
rebanho é os meus pensamentos / E os meus pensamentos são todos sensações.).
Alberto Caeiro é o poeta da natureza, o poeta de atitude antimística (Se
quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o./ Sou místico, mas só
com o corpo./ A minha alma é simples e não pensa./ O meu misticismo é não
querer saber. / É viver e não pensar nisso).
É o poeta do objectivismo absoluto. Ricardo Reis afirma que Caeiro, no seu
objectivismo total, ou, antes, na sua tendência constante para um objectivismo
total, é frequentemente mais grego que os próprios gregos. (Páginas Íntimas
e Auto Interpretação, p. 365). É também o poeta que repudia as filosofias
quando escreve, por exemplo, que Os poetas místicos são filósofos doentes / E
os filósofos são homens doidos e que nega o mistério e o a busca do sentido
íntimo das coisas:O único sentido íntimo das coisas / É elas não terem
sentido íntimo nenhum..
Fernando Pessoa deixou um texto em que explicita o valor de Caeiro e a mensagem
que este poeta nos deixou e pode servir de base para a comprrensão da sua obra:
A um mundo mergulhado em diversos géneros de subjectivismo vem trazer o
Objectivismo Absoluto, mais absoluto do que os objectivistas pagãos jamais
tiveram. A um mundo ultracivilizado vem restituir a Natureza Absoluta. A um
mundo afundado em humanitarismos, em problemas de operários, em sociedades
éticas, em movimentos sociais, traz um desprezo absoluto pelo destino e pela
vida do homem, o que, se pode considerar-se excessivo, é afinal natural para
ele e um correctivo magnífico. (Páginas Íntimas e Auto Interpretação, p.
375)
Álvaro de Campos nasceu em 1890 em Tavira e é engenheiro de profissão.
Estudou engenharia na Escócia, formou-se em Glasgow, em engenharia naval.
Visitou o Oriente e durante essa visita, a bordo, no Canal do Suez, escreve o
poema Opiário, dedicado a Mário de Sá-Carneiro. Desiludido dessa visita,
regressa a Portugal onde o espera o encontro com o mestre Caeiro, e o início de
um intenso percurso pelos trilhos do sensacionismo e do futurismo ou do
interseccionismo. Espera-o ainda um cansaço e um sonambulismo poético como ele
prevê no poema Opiário: Volto à Europa descontente, e em sortes / De vir a
ser um poeta sonambólico.
Conheceu Alberto Caeiro, numa visita ao Ribatejo e tornou-se seu discípulo: O
que o mestre Caeiro me ensinou foi a ter clareza; equilíbrio, organismo no
delírio e no desvairamento, e também me ensinou a não procurar ter filosofia
nenhuma, mas com alma .(Páginas Íntimas e Auto Interpretacão, p. 405)
Distancia-se, no entanto, muito do mestre ao aproximar-se de movimentos
modernistas como o futurismo e o sensacionismo. Distancia-se do objectivismo do
mestre e percepciona as sensações distanciando-se do objecto e centrando-se no
sujeito, caindo, pois, no subjectivismo que acabará por enveredar pela
consciência do absurdo, pela experiência do tédio, da desilusão (Grandes
são os desertos, e tudo é deserto / Grande é a vida, e não vale a pena haver
vida.) e da fadiga ( O que há em mim é sobretudo cansaço - / Não disto nem
daquilo, / Nem sequer de tudo ou de nada: /Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
/Cansaço).
Álvaro de Campos experimentara a civilização e admira a energia e a força,
transportando-as para o domínio da sua criação poética, nomeadamente nos
textos Ultimatum e Ode Triunfal. Álvaro de Campos é o poeta modernista, que
escreve as sensações da energia e do movimento bem como, as sensações de
sentir tudo de todas as maneiras. É o poeta que mais expressa os postulados do
Sensacionismo, elevando ao excesso aquela ânsia de sentir, de percepcionar toda
a complexidade das sensações.
A sua primeira composição data de 1914 e ainda em 12 de outubro de 1935
assinava poesias, ou seja, pouco antes da morte de Fernando Pessoa o qual
cessara de assinar textos antes de Álvaro de Campos.
Fonte: Universidade Fernando Pessoa - Portugal
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