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COMO E PORQUE SOU ROMANCISTA
[...]
Foi essa leitura contínua e repetida de novelas e romances que primeiro
imprimiu em meu espírito a tendência para essa forma literária que é entre
todas a de minha predileção? Não me animo a resolver esta questão
psicológica, mas creio que ninguém contestará a influência das primeiras
impressões. Já vi atribuir o gênio de Mozart e sua precoce revelação à
circunstância de ter ele sido acalentado no berço e criado com música. Nosso
repertório romântico era pequeno; compunha-se de uma dúzia de obras, entre as
quais primavam a Armanda e Oscar, Saint-Clair das Ilhas, Celestina e outros de
que já não me recordo.
Esta mesma escassez, e a necessidade de reler uma e muitas vezes o mesmo
romance, quiçá contribuiu para mais gravar em meu espírito os moldes dessa
estrutura literária, que mais tarde deviam servir aos informes esboços no
novel escritor.
Mas não tivesse eu herdado de minha santa mãe a imaginação de que o mundo
apenas vê as flores, desbotadas embora, e de que eu somente sinto a chama
incessante, que essa leitura de novelas mal teria feito de mim um mecânico
literário, desses que escrevem presepes em vez de romances.
IV. O primeiro broto da semente que minha boa mãe lançara em meu espírito
infantil, ignara dos desgostos que preparava a seu filho querido, veio dois anos
depois.
Entretanto é preciso que lhe diga. Se a novela foi a minha primeira lição de
literatura, não foi ela que me estreou na carreira de escritor. Esse título
cabe a outra composição, modesta e ligeira, e por isso mesmo mais própria
para exercitar um espírito infantil.
O dom de produzir, a faculdade criadora, se a tenho, foi a charada que a
desenvolveu em mim, e eu teria prazer em referir-lhe esse episódio
psicológico, se não fosse o receio de alongar-me demasiado, fazendo novas
excursões fora do assunto que me propus.
[...]
Um ano depois parti para São Paulo, onde ia estudar os preparatórios que me
faltavam para a matrícula no curso jurídico.
V. Com a minha bagagem, lá no fundo da canastra, iam uns cadernos escritos em
letra miúda e conchegada. Era o meu tesouro literário.
Ali estavam fragmentos de romances, alguns apenas começados, outros já no
desfecho, mas ainda sem princípio.
De charadas e versos, nem lembranças. Estas flores efêmeras das primeiras
águas tinham passado com elas. Rasgara as páginas dos meus canhenhos e atirara
os fragmentos no turbilhão das folhas secas das mangueiras, a cuja sombra
folgara aquele ano feliz de minha infância.
Nessa época tinha eu dois moldes para o romance.
Um merencório, cheio de mistérios e pavores; esse, o recebera das novelas que
tinha lido. Nele a cena começava nas ruínas de um castelo, amortalhadas pelo
baço clarão da lua; ou nalguma capela gótica frouxamente esclarecida pela
lâmpada, cuja luz esbatia-se na lousa de uma campa.
O outro molde, que me fora inspirado pela narrativa pitoresca de meu amigo
Sombra, era risonho, loução, brincado, recendendo graças e perfumes agrestes.
Aí a cena abria-se em uma campina, marchetada de flores, e regada pelo
sussurrante arroio que a bordava de recamos cristalinos.
Tudo isto, porém, era esfumilho que mais tarde devia apagar-se.
A página acadêmica é para mim, como para os que a viveram, riquíssima de
reminiscências, e nem podia ser de outra forma, pois abrange a melhor monção
da existência. Não tomarei dela, porém, senão o que tem relação com esta
carta.
Ao chegar a S. Paulo era eu uma criança de treze anos, cometida aos cuidados de
um parente, então estudante do terceiro ano, e que atualmente figura com lustre
na política e na magistratura.
Algum tempo depois de chegado, instalou-se a nossa república ou comunhão
acadêmica à rua de São Bento, esquina da rua da Quitanda, em um sobradinho
acachapado, cujas lojas do fundo eram ocupadas por quitandeiras.
Nossos companheiros foram dois estudantes do quinto ano; um deles já não é
deste mundo; o outro pertence à alta magistratura, de que é ornamento.
Naqueles bons tempos da mocidade, deleitava-o a literatura, e era entusiasta do
Dr. Joaquim Manuel de Macedo, que pouco havia publicara o seu primeiro e gentil
romance - A Moreninha.
Ainda me recordo das palestras em que o meu companheiro de casa falava com
abundância de coração em seu amigo e nas festas campestres do romântico
Itaboraí, das quais o jovem escritor era o ídolo querido.
Nenhum dos ouvintes bebia esses pormenores com tamanha avidez como eu, para quem
eram eles completamente novos. Com a timidez e o acanhamento de meus treze anos,
não me animava a intervir na palestra; escutava à parte; e por isso ainda hoje
tenho-as gravadas em minhas reminiscências, a estas cenas do viver
escolástico.
Que estranho sentir não despertava em meu coração adolescente a notícia
dessas homenagens de admiração e respeito tributadas ao jovem autor da
Moreninha! Qual régio diadema valia essa auréola de entusiasmo a cingir o nome
de um escritor?
Não sabia eu então que em meu país essa luz que dizem glória, e de longe se
nos afigura radiante e esplêndida, não é senão o baço lampejo de um fogo de
palha.
[...]
Naquele tempo o comércio dos livros era como ainda hoje artigo de luxo;
todavia, apesar de mais baratas, as obras literárias tinham menor circulação.
Provinha isso da escassez das comunicações com a Europa, e da maior raridade
de livrarias e gabinetes de leitura.
Cada estudante, porém, levava consigo a modesta previsão que juntara durante
as férias, e cujo uso entrava logo para a comunhão escolástica. Assim
correspondia S. Paulo às honras de sede de uma academia, tornando-se o centro
do movimento literário.
Uma das livrarias, a que maior cabedal trazia à nossa comum biblioteca, era a
de Francisco Otaviano, que herdou do pai uma escolhida coleção das obras dos
melhores escritores da literatura moderna, a qual o jovem poeta não se
descuidava de enriquecer com as últimas publicações.
Meu companheiro de casa era dos amigos de Otaviano, e estava no direito de
usufruir sua opulência literária. Foi assim que um dia vi pela primeira vez o
volume das obras completas de Balzac, nessa edição em folha que os tipógrafos
da Bélgica vulgarizam por preço módico.
[...]
Tendo meu companheiro concluído a leitura de Balzac, a instâncias minhas,
passou-me o volume, mas constrangido pela oposição de meu parente, que receava
essa diversão.
Encerrei-me com o livro, e preparei-me para a luta. Escolhido o mais breve dos
romances, armei-me do dicionário, e tropeçando a cada instante, buscando
significados de palavra em palavra, tornando atrás para reatar o fio da
oração, arquei sem esmorecer com a ímproba tarefa. Gastei oito dias com a
Grenadière, porém um mês depois acabei com o volume de Balzac; e no resto do
ano li o que então havia de Alexandre Dumas e Alfredo de Vigny, além de muito
de Chateaubriand e Victor Hugo.
[...]
VI. Foi somente em 1848 que ressurgiu em mim a veia do romance. Acabava de
passar dois meses em minha terra natal. Tinha-me repassado das primeiras e tão
fagueiras recordações da infância, ali nos mesmos sítios queridos onde
nascera.
Em Olinda, onde estudava o meu terceiro ano, e na velha biblioteca do Convento
de S. Bento a ler os cronistas da era colonial, desenhavam-se a cada instante,
na tela das reminiscências, as paisagens do meu pátrio Ceará.
Eram agora os seus tabuleiros gentis; logo após as várzeas amenas e graciosas;
e por fim as matas seculares que vestiam as serras como a ararróia verde do
guerreiro tabajara.
E através destas também esfumavam-se outros painéis, que me representavam o
sertão em todas as suas galas de inverno, as selvas gigantes que se prolongam
até os Andes, os rios caudalosos que avassalam o deserto, e o majestoso S.
Francisco transformado em um oceano, sobre o qual eu navegara um dia.
Cenas estas que eu havia contemplado com olhos de menino de dez anos antes, ao
atravessar essas regiões em jornada do Ceará à Bahia; e que agora se
debuxavam na memória do adolescente, e coloriam-se ao vivo com as tintas
frescas da palheta cearense.
Uma coisa vaga e indecisa, que devia parecer-se com o primeiro broto do Guarani
ou de Iracema, flutuava-me na fantasia. Devorando as páginas dos alfarrábios
de notícias coloniais, buscava com sofreguidão um tema para o meu romance; ou
pelo menos um protagonista, uma cena e uma época.
[...]
(Como e porque sou romancista, 1893.)
Pesquisa: Celso Brasil
ABRALI - Associação Brasileira de Literatura
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