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O GAÚCHO
José de Alencar
Manuel Canho, gaúcho, de 22 anos, é alto e robusto com a face bronzeada; usa
um chapéu desabado que lhe cobre a fronte larga. Vive, em um rancho em
Poncho-Verde, às margens do Ibicuí, com a mãe, Francisca, senhora gorda de
quarenta e cinco anos e uma irmã, Jacintinha, bela moça de quinze anos.
O pai de Manuel, João Canho, amansador famoso na região, além da destreza no
trato com cavalos, ensina ao filho o valor da dedicação e do amor para com
eles. É morto num combate com castelhanos, que estavam à caça do comerciante
Loureiro, a quem João dera abrigo. Manuel, menino ainda, vê o pai ser ferido,
mortalmente, pela lança do castelhano Barreda, e revoltado, jura vingança.
Loureiro, sensível aos encantos da viúva Francisca, sentindo-se responsável
pela morte do marido, oferece-se para substitui-lo. A mãe aceita, desagradando
Manuel que passa a odiar o padrasto. Nessa época, o irmão, Juca, de três
anos, adoece e logo morre. Manuel fica feliz pelo irmão, porque sabe que irá
se juntar ao pai.
Um dia, Loureiro manda arrear Morzelo, o cavalo predileto do finado João,
contrariando o menino. Ao toque das rosetas, Morzelo dispara como uma bala,
derrubando o cavaleiro e esmagando-o no chão duro e pedregoso. O negociante
morre, deixando Francisca, mais uma vez, viúva. Manuel cresce e, como o pai,
torna-se grande conhecedor de cavalos. Um dia, sai de casa em busca do Barreda,
vivendo, nessa trajetória, uma série de aventuras.
Na vila de Jaguarão, conhece Catita, jovem de doze anos, cabelos negros e pele
queimada. Ao aparecer no alpendre, procurando pelo pai, um soldado lhe pergunta
se não gostaria de ser sua noiva. Dirigindo-se até o canto oposto do alpendre,
onde Manuel estava sentado e fumando, aponta-o, dizendo: é "este" que
prefiro para noivo. Ironicamente, o gaúcho responde que só quando Catita for
viúva. Muitos riram, mas ela acha estranha a premonição do rapaz.
O gaúcho encontra-se com o padrinho, Bento Gonçalves, homem muito respeitado
pela franqueza, generosidade e bravura. Conta-lhe que vai em busca de Barreda e
pede sua bênção, partindo para província de Entre-Rios. Ali, Manuel conhece
o chileno D. Romero, um vendedor ambulante, misto de mascate e aventureiro, que
traz consigo uma égua muito bonita e arisca. O dono desafia os presentes,
afirmando que ninguém ali é capaz de montá-la. Convida a todos para ver a
baia, propaga, em voz alta, que o cavaleiro que a montar ficará com ela. O
primeiro peão, que se habilita, cai em um segundo.
Manuel, ouvindo toda a movimentação, oferece dinheiro pela égua, mas o
chileno repete que pode tê-la de graça, desde que a monte. Para surpresa de
todos, o gaúcho não só monta como faz amizade com o animal, tornando-se seu
dono, mas sente profunda antipatia pelo chileno.
Dá à baia o nome de Morena e percebendo que deu cria há pouco tempo,
permite-lhe fazer o caminho de volta para encontrar o potrinho. Encontram pelo
caminho o caçador, Pedro Javardo, que quer tomar Morena, mas não o consegue. O
animal recupera a cria, e após despedidas calorosas, o gaúcho solta-os na
imensidão dos pampas. Apesar de livres, Morena e seu potro retornam aos afagos
do gaúcho. Para ele, homem e cavalo se completam, porque o gaúcho - o centauro
dos pampas, ser híbrido da mitologia, resulta da união de duas naturezas
incompletas: busto e corpo de cavalo.
Finalmente, chegando à casa do assassino do pai, encontra-o à beira da morte,
corroído por uma febre. O gaúcho, que não pode assistir impassível ao
sofrimento de ninguém, adia o intento, decidindo ajudá-lo. Durante vários
dias, vela sobre o doente, como faria a um amigo. Com o enfermo fora de perigo,
deixa a casa, prometendo voltar.
Retorna a Poncho-Verde, revendo mãe e irmã, que ficam entusiasmadas com os
animais, principalmente o potrinho, a quem dera o nome do falecido irmão, Juca.
Após três meses, o gaúcho volta à casa de Barreda. Lá, identificando-se,
diz-lhe a que vem. Lutam e Manuel o fere mortalmente, com a própria lança
usada contra o pai.
Avisa ao padrinho Bento ter cumprido a vingança. Na festa de Nossa Senhora da
Conceição, Manuel revê Catita que docemente lhe pede o potrinho e deparando
com o turbante, que este havia comprado para a irmã, coloca-o na cabeça.
Manuel se retira sem pegá-lo de volta, ofendido com o pedido da moça.
Retorna a casa e se esmera na educação de Juca, que, tendo crescido, tem o
porte elegante da mãe. Um dia, fica sabendo, em uma estância próxima, que o
coronel Bento Gonçalves havia sido demitido do 4º corpo de cavalaria. Achando
que o padrinho precisava dele, parte para Jaguarão e de lá para Camacuã, onde
fica a estância de Bento. Por causa da demissão, este pretende dar início a
manifestações populares em favor de sua causa. Nessas excursões, precisa de
um homem de confiança para escoltá-lo. Ao ver o afilhado, sabe que pode contar
com ele para a tarefa.
Nesse ínterim, um cavaleiro ronda o rancho de D. Francisca, cortejando
Jacintinha. Era o mascate D. Romero. Como precisam de tecido e linha, D
Franscisca autoriza que este venha demonstrar suas mercadorias. Seduzidas pela
lábia do estrangeiro, acabam vendo tudo o que trazia, e , a partir de então,
passa a ser bem-vindo na casa.
Na segunda semana, a serviço do padrinho, enquanto descansa na campanha, Manuel
se depara com Catita sobre uma mula enfurecida. O gaúcho salta no Juca,
tentando alcançar a mula para lhe tomar o freio, quando, repentinamente, sente
que Catita está na sua garupa dando risada.
Com exceção da própria menina, ninguém viu como passou de um animal para
outro, tão rápido foi o movimento. Não querendo ser salva por Manuel, avista
adiante uma árvore, e ao passar sob ela, agarra-se a um de seus galhos, e assim
que o cavaleiro se aproxima, cai sobre sua garupa. Depois de tamanho susto, o
grupo de viajantes pára para descansar. O gaúcho fica sabendo que Lucas
Fernandes, o pai de Catita, conhecera seu pai, e por isso, nessa noite,
conversam bastante, sob os olhares faceiros da moça, agora com quinze anos. Ao
chegarem à vila Piratinim, Lucas vai com o gaúcho a Camacuã.
Após lutarem ao lado de Bento Gonçalves, tomando Porto Alegre de assalto,
retornam à vila de Piratinim. Durante o jantar, o pai de Catita, com entusiasmo
revolucionário, vai contando suas proezas e bravatas para as mulheres. Catita,
sem prestar atenção, dá olhadelas apaixonadas para o gaúcho. Félix,
sobrinho de Lucas, que sob o pretexto da revolução, vem para ver a amada
Catita, fica enciumado com seus olhares para Manuel Canho que, ainda naquela
noite, toma conhecimento de que Félix deseja matá-lo. Este acredita que,
enquanto Manuel viver, Catita não fará caso dele.
No dia seguinte, sabendo que a força de Silva Tavares, o chefe legalista,
estava arranchada em uma estância, na vizinhança de Serrito, Canho, sai em sua
direção. Chegando lá à noite, pede pouso para os peões que o recebem.
Todavia, desconfiam que é homem de Bento e tentam cercá-lo. Na fuga, Morzelo,
membro de sua tropilha, é capturado. Ao dar conta disso, volta e se depara com
o cavalo, morto. Com Morena e Juca, chora a morte do velho alazão do pai;
enterrando-o, o gaúcho jura vingança.
Com sua tropilha, Manuel Canho ataca os peões que voltam à estância, ferindo
uns, derrubando outros. Félix, agora um legalista, num golpe de Manuel, tem o
rosto cortado transversalmente, vazando-lhe o olho. No encalço daquele que
baleara Morzelo, ouvem-se tiros e, como se tivesse asas, Morena devora o
espaço, fugindo dos inimigos; mais tarde, resfolega em uma espécie de
estertor; tinha sido atingida. Deixando-a deitada, agonizando, o dono busca um
objeto para retirar a bala.
Na manhã seguinte, banhando-se num riacho, Catita ouve um tropel. Receando a
aproximação de alguém, sai, trocando-se rapidamente. Vê o cavalo Juca e
seguindo-o, depara-se com Morena, prostrada, sem forças, vertendo sangue. Juca
lambe-lhe o sangue, tentando estancá-lo.
Ao retornar, Manuel encontra Catita ao lado do animal ferido. Tenta extrair a
bala, mas não consegue. Tentando ajudá-lo, a jovem consegue e, logo, o sangue
estanca. Canho parte para outra missão, deixando Morena sob os cuidados da
moça. Ao voltar, as encontra em perfeita comunhão. Emocionados, trocam
abraços e beijos.
D. Romero, o chileno garboso e gentil, está na festa da vila em Piratinim.
Dirige galanteios à Catita, convidando-a para dançar. A moça pensa em Canho,
mas não resistindo à música, aceita. Manuel aparece na hora do desafio,
dançando com graça e improvisando como ninguém. O amor doma o centauro dos
pampas e o atira aos pés de Catita. Parte para Buenos Aires, a serviço do
Coronel, mas antes despede-se da amada, trocando juras de amor. Félix,
desfigurado, espreita com seu único olho os dois enamorados, desejando mutilar
o rosto da moça, também.
Retornando de Buenos Aires, Manuel Canho visita a irmã e a mãe que lhe
comunica sobre o pedido de D. Romero para casar com a filha. Manuel o desaprova,
prometendo voltar em um mês para então decidirem.
Mas o incorrigível D. Romero marca para meia noite um encontro à janela com
Catita, que passa a se interessar por seus galanteios. À hora exata, o chileno
ali está cortejando a moça. Oferece-lhe, astutamente, um confeito de baunilha,
colocando-o na boca da menina. Tudo isso sob o olhar de Félix, que espreitava
com a única pupila esbugalhada e desejos de vingança. Quando dá por si,
percebe que o esperto escorregara para dentro da casa. Sem perda de tempo, corre
para avisar Lucas Fernandes. Arma-se o escândalo. Abatida com o ocorrido,
sente-se desamparada, ficando em dúvida se o confeito não teria algum
narcótico. Nessa hora, o gaúcho chega e, envergonhada, lhe pede perdão,
aconselhando-o a esquecê-la.
Na fuga, o chileno é amparado pelos legalistas e, em Rio Pardo, à noite,
resolve usar seus confeitos com uma antiga namorada. Quando pula o balcão,
Canho, o laça, conduzindo-o à vila de Piratinim, para casar com Catita. Após
a festa de casamento, Canho e D. Romero partem para um duelo, lutando como
animais. Canho o estrangula pressionando a bota no pescoço do rival. Depois
empurra o cadáver com a ponta do pé, fazendo-o rolar despenhadeiro abaixo.
Em prantos, pela primeira vez, o gaúcho chora, abraçando seus fiéis cavalos.
Fala-lhes de sua ingratidão por trocá-los pela infiel e traidora Catita.
Pede-lhes que fujam com ele. De repente, Catita ajoelha-se a seus pés,
pedindo-lhe perdão, suplicando para levá-la consigo.
Arma-se um tremendo temporal, trovões arrebentam, relâmpagos cortam o
firmamento iluminando o céu negro e agitado; um vento forte, o pampeiro, passa
a varrer tudo. Catita luta desesperadamente para que Manuel não vá sem ela.
Ele a repele com violência e parte na Morena. Catita salta, agilmente, à
garupa da égua. Ouve-se um barulho de galhos partidos, e em seguida o baque de
um corpo no fundo do precipício. É Félix que, até então, lutava, à beira
do penhasco, com o tufão. O gaúcho, sem força suficiente para se desprender
do tépido corpo de Catita, cavalga com ela pelo pampa infinito, em meio a um
céu negro, encoberto de nuvens convulsas, relâmpagos, e o zunindo do ciclone.
Fonte: TVE
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