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Raul Pompéia foi um revoltado e isso lhe ditou a vida penosa e a obra irregular. Mas no meio desta eleva-se um marco do romance brasileiro e legítima obra-prima, O Ateneu.
Não é possível negar, as provas são fortes, que neste livro de ficcão o escritor vazou a sua vingança contra o seu internamento no colégio Abílio. O Ateneu é uma caricatura sarcástica e, relativamente a Raul Pompéia, dolorosíssima, da vida psicológica dos internatos. Digo "caricatura" no sentido de se tratar de uma obra em que os traços estão voluntàriamerte exagerados numa intenção punitiva. Nem sequer se trata dessa denunciação castigadora de causas e realidades, em que se manifesta geralmente o romance de intenção social. provável que Raul Pompéia tivesse esta intenção no espírito, mas quem quer leia com maior intimidade O Ateneu, percebe logo que o romancista se vinga. Atira-se com um verdadeiro feroz destrutivo contra tudo e todos do colégio, numa incompreensão, numa insensibilidade às vêzes absurda e mesmo odiosa dos elementos que formam a difícil máquina da vida. Raul Pompéia se vinga. Se vinga do colégio com uma generalização tão abusiva e sentimental que chega à ingenuidade. Realmente era preciso que o grande artista tivesse excessiva consciên-cia da sua constituição de tímido e irrealizado, enorme falso respeito dos princípios morais da família, pra botar tôda a culpa de sua tragédia pessoal no processo educativo do internato (do seu internato) e, mais que odiá-lo, se vingar dêle com tamanha e tão fogosa exasperação. Há trechos no romance em que esta exasperação chega a desesperada. É procurar ao acaso e se topa a cada passo brilhações furiosas como esta: "Nos grandes armários havia melhor: peças anatômicas de massa, sangrando verniz vermelho, legítima hemorragia; corações enormes, latejantes, úmidos à vista, mas que se destampavam como terrinas; olhos de ciclope, arrancados, que pareciam viver ainda estranhadamente a vida solitária e inútil da visão; mas olhos que se abriam como formas de projetis de entrudo. Mas eu queria a realidade, a morte ao vivo". Ou esta sôbre o Bento Alves, talvez a única figura masculina que o escritor buscou tratar mais carinhosamente: "As simpatias do excelente companheiro não tinham diminuído. Durante as férias, fôra ver-me em casa, travando relações com a minha família. Fui recomendado insistidamente ao amigo, que me valesse nas dificuldades da vida colegial, contra o constante perigo da camaradagem perniciosa. Durante o mês de janeiro não nos vimos. Por ocasião da abertura das aulas, notei-lhe um calor novo de amizade, sem efusões como dantes, mas evidentemente testemunhado por tremores da mão ao apertar a minha, embaraços na voz de amoroso errado, bisonho desviar dos olhos, denunciando a relutância de movimentos secretos e impetuosos. Às vêzes mesmo, um reflexo assustador de loucura acentuava-se-lhe nos traços.
Interessava-me aquela agonia comprimida. Estranha coisa, a amizade que, em vez de aproximação franca dos amigos, podia assim produzir a incerteza do mal estar, uma situação prolongada de vexame, como se a convivência fôsse um sacrifício e o sacrifício uma necessidade".
E aqui entramos num dos traços conceptivos mais absurdos e mais trágicos dêste livro: a insensibilidade de Raul Pompéia ante a idade da adolescência e o sentimento da amizade. É curioso observar que fazendo da vida colegial do protagonista Sérgio uma tragédia sem remanso, Raul Pompéia não tenha sequer um momento de revolta contra o pai que o encafuou lá. "Doidinho" no colégio de Itabaiana saberá mais humanamente se revoltar por momentos contra o velho Zé Paulino, que era, no entanto, a sua adoração mítica de rapaz. Raul Pompéia respeita preconceituosamente o pai e não terá contra êle a menor palavra de amargura. Mas êsse era realmente o único personagem masculino que o livro poupa.
Os outros, desde a caricatura imortal do Aristarco, professôres e colegas e criados, Raul Pompéia os desenha com malvadez, grotescos, invejosos, insensíveis, perversos ou brutais. Em sua timidez e fraqueza física, o contacto com os machos, a ausência natural de ternura acariciante nèles, lhe deve ter causado uma imagem rupestre, animalmente lutadeira, sôcos e patadas, da existência. O homem o horroriza em sua brutalidade de macho. São todos uns monstros papões. E sôbre êles Raul Pompéia descarrega a audácia desesperada da sua vingança, sem nenhuma coragem legítima, nos mesmos gestos temerários da sua literatura jornalística de combate. Nem o próprio Sérgio se poupa, fazendo de si mesmo um animalzinho ruim, despeitado, perverso, gato de unhas inalteràvelmente prontas para arranhar a vida e os veludos do sentimento. Só que, o livro nos ensina, Sérgio ficou assim principalmente por causa do internato, por causa de Aristarco, dos professôres e dos adolescentes seus colegas.
Essa fúria contra os personagens masculinos se manifesta comprobatòriamente na maneira com que Raul Pompéia compreende e trata a adolescência. A exasperacão é tamanha que nem a menina do colégio, a filha de Aristarco, se livra dos maus-tratos do escritor. Pode ser bonita em seus largos olhos, mas é uma emproada, uma bobinha reles que vive num falso mundo de orgulho e de adoração de si mesma. Também a moçoila canarina que é criada de casa de Avistarco, se viva e sensualmente descrita (numa sensualidade talvez um bocado preocupada de mais em se manifestar sensual) Ângela não passa de uma verdadeira prostituta, uma cármen de cavallerias rusticanas, que Raul Pompéia nem se esquece de reduzir a portadora de assassínios, em pleno Verismo. "Os olhos riam, destilando uma lágrima de desejo; as narinas ofegavam, adejavam trêmulas por intervalos, com a vivacidade espasmódica do amor das aves (pobres aves!); os lábios, animados de convulsões tetânicas, balbuciavam desafios, prometendo submissão de cadela e a doçura dos sonhos orientais. Dominava então pela oferta abusiva, de repente; abatia-se à derradeira humilhação, para atrair de baixo, como as vertigens. Ali estava, por terra, a prostituição da vestal, o himeneu da donzela, a deturpação da inocente, três servilismos reclamando um dono; apetite, apetite para esta orgia rara sem convivas!"
Só há, sem rebuços, uma figura carinhosamente tratada no romance, Ema, já em pleno esplendor da mulher e que terá com Sérgio enfêrmo um idílio bastante dííbio de carícias. E Raul Pompéia a fará fugir de casa, no final apoteótico, insensível ao incêndio que acabrunhar Aristarco. E essa é a figura bem tratada, em que o desejo de acarinhar é manifesto!...
Há outra aliás, a priminha invisível, doadora de imagens de Santa Rosália, que por um delicado jôgo de transferência Sérgio adorará algum tempo e esquecerá com estranha facilidade. Mas essa priminha, embora adolescente na idade, era já uma espécie de Ema bem madura, na recordação de Sérgio. Eis como Raul Pompéia a descreve, eu grifando os elementos caracterizadores da imagem. "Era boa a priminha. Mais velha do que eu três anos, carinhosa, maternal comigo. Brincava pouco, velava pelos irmãos, pela ordem da casa, como uma senhora". E essa morre, predestinada a morrer, "sentia-se, com apêrto de coração, que não pertencia ao mundo aquela criança: buscava, errante na vida, buscava apenas o repouso da forma, sob a campa, em sítio calmo, de muito sol, onde chorassem as rosas pela manhã – e a liberdade etérea do sentimento".
Raul Pompéia chama-lhe "criança", apesar de mais velha que Sérgio, trocando a sua terminologia realista por um velho lugar-comum romântico... As crianças, os meninos ainda manchados de infância, êle procura tratar bem e às vêzes consegue. Eis um trecho admirável, em que se percebe o estilete do naturalismo de então esfolar os adolescentes, mas poupar as crianças. Também aqui surge mais uma vez a imagem materna, como com Ema e com a priminha: "Os colegas, tranqüilos, na linha dos leitos, afundavam a face nas almofadas, palelejante da anemia de um repouso sem sonhos. Alguns afetavam um esbôço comovedor de sorriso ao lábio; alguns, a expressão desanimada dos falecidos, bôca entreaberta, pálpebras entrecerradas, mostrando dentro a ternura embaciada da morte. De espaço a espaço, os lençóis alvos ondeavam do hausto mais forte do peito, aliviando-se depois por um dêsses longos suspiros da adolescência, gerados, no dormir, da vigília inconsciente do coração. Os menores, mais crianças, conservavam uma das mãos ao peito, outra a pender da cama, guardando no abandono do descansa uma atitude ideal de vôo. Os mais velhos, contorcidos no espasmo de aspirações precoces, vergavam a cabeça e envolviam o travesseiro num enlace de carícias. O ar de fora chegava pelas janelas abertas, fresco, temperado da exalação noturna das árvores; ouvia-se o grito compassado de um sapo, martelando os segundos, as horas, a pancadas de tanoeiro; outros e outros, mais longe. O gás, frouxamente, nas arandelas de vidro fôsco, bracejando dos balões de asa de môsca, dispersava-se igual sôbre as camas, doçura dispersa de um olhar de mãe".
Os adolescentes, os colegas... "contorcidos no espasmo de aspirações precoces", nenhum dêles é inteiramente compreendido com afeição e sensibilidade. Às vêzes apenas escapa um traço de carinho, outras vêzes, de piedade, logo apagado por outras formas ásperas, grosseiras, grotescas. A descrição de Franco, um infeliz, o bode expiatório do colégio, chega a ser magistralmente angustiosa, na sua mistura de piedade e impiedade. Nas duas e mais páginas da doença e morte do infeliz há notas assim: "lembrava-se (... ) da timidez baixa das maneiras, da concentração muda de ódios, dos movimentos incompletos de revolta, da submissão final de escorraçado que se resigna. Tive pena". (É possível imaginar que Raul Pompéia às vêzes pensasse isso mesmo ao seu respeito...) "Vinham-lhe náuseas, êle corria à janela. Em baixo havia um pé de magnólias, copado como um bosque; êle no intervalo dos arrancos entretinha-se em aprumar o fio visguento do vômito contra as amplas flôres alvas". "Perguntei ao Franco como passava. Êle agitou devagar as pálpebras e sorriu-se. Nunca lhe conheci tão belo sorriso, sorriso de criança à morte".
Essa insensibilidade ante a adolescência provinha aliás, no escritor, de uma infelicidade maior: a inexistência do sentimento da amizade. Parece hoje verdade assentada que Raul Pompéia não teve nenhum amigo íntimo, que lhe freqüentasse a casa e a alma nua. Só teve "amigos de rua", diz Elói Pontes. Rodrigo Otávio que morou paredes meias com êle, conta que tinham ambos, de sacada a sacada, conversas longas, que iam noite adiante até muito tarde. As vêzes, quando Pompéia, por alguma ocupação noturna, se via obrigado a faltar a êsses encontros, deixava um bilhetinho de aviso ao amigo de conversa fiada. E viveram tempos nesse lero-lero sem que jamais Pompéia abrisse ao companheiro as portas de casa. E muito menos de seu coração.
Assim guardado, assim escondido em si mesmo, é possível que êle arrastasse consigo algum segrêdo mau, uma tara, uma desgraça íntima que jamais teve fôrças para aceitar lealmente e converter a elemento de luta e de realização pessoal. E por isso jamais pôde conquistar, para seu completamento e aperfeiçoamento, a sublime graça de um amigo íntimo. E o reflexo dessa falha está no Ateneu, na maneira insensível com que êle trata as relações entre adolescentes. Não há dois que se entreguem a um sentimento puro de amizade. As próprias camaradagens, sempre rápidas, sempre efêmeras no livro, são determinadas por ambições quase sempre aviltantes. E se acaso surgem as formas da amizade, Pompéia não tem fôrça para descrevê-las com perfeição, reforça-as de carinhos dúbios e análises comprometedoras, como no caso do Bento Alves e especialmente do Egbert. A descrição da amizade entre êste e Sérgio, literàriamente muito bela, chega a ser espantosa de fraqueza moral e incompreensão. É incontestável que Raul Pompéia quis aí descrever um sentimento puro de amizade. O livro já ia pelas três-quartas partes e talvez preocupado realistamente com só ter descrito até então relações imperfeitas, o artista quisesse cantar, se esforçasse por cantar o sentimento verdadeiro da amizade. A maneira por que o faz é talvez o momento psicológico mais curioso de observar no escritor. Ressumbra a confusão dos sentimentos êsse capítulo. Sérgio atira-se a uma verdadeira exaltação, cheia de sentimentos, de idéias, de carícias refinadas, em que as transferências sentimentais são sensíveis, desde os sonhos, os desejos de sacrifício, os objetos em comum, os passeios solitários, até os grandes silêncios cismarentos, um com a cabeça nos joelhos do outro, até o romance preferido para a leitura em comum, Paulo e Virgínia, até a dialogação dos trágicos franceses em que, se um dos parceiros era Chimène, Elmira ou Ester, os dois amigos precisavam tirar a sorte, ambos desejando "a parte mais enérgica do recitativo". Tirada a sorte, porém, o sorteado se acomodar fácil, "enfiava sem cerimônias a saia ele qualquer dama e ia perfeita a toilette do sentimento". E essa amizade que Raul Pompéia se esforçou por fazer nobre e sem segundas intenções, se acaba em pouco tempo e por uma causa muito concludente. Sérgio, estimulado pelo amigo, consegue com êste o maior prêmio do Ateneu, o convite para jantar na casa do diretor. Surge Ema e... "não sei mais nada do que se passou na tarde". De volta ao colégio "olhava agora para Egbert como para uma recordação e para o dia de ontem. Daí começou a esfriar o entusiasmo da nossa fraternidade".
Era assim Raul Pompéia e o livro é todo assim. O caso de Bento Alves, essa espécie ele Grand Mcaulnes frustrado, por certo bem mais belo e interessante de estudar que o Egbert, a gente percebe que Pompéia se entusiasma pela beleza moral e a nobre fôrças física do rapaz. Êle confessa mesmo ser a recordação mais bela de adolescente que Sérgio conservará do colégio. Mas tudo se reduz a pó de traque. A atitude de Sérgio é a dum hábil pervertido, coisa que êle não é, e o nítido e forte Bento Alves se transforma em cinza mole, cruelmente desajeito por temores e ardores sem franqueza. Pompéia terá pretendido mostrar um caso de domínio do fraco sôbre o forte. Não o consegue, e as relações entre os dois rapazes, sem calor dramático, parecem se reduzir a mais um exemplo comum e corriqueiro de homossexualismo. E no mais tôdas as relações íntimas, tôdas as "amizades" entre adolescentes do Ateneu, se reduzem a casos grosseiros de homossexualidade. Estamos a mil léguas daquela poderosa compreensão humana da adolescência que teríamos contemporâneamente com o romance de Otávio de Faria. Também êste estudará no seu livro um caso de homossexualismo. O feri, porém, com uma intensidade, uma fôrça do trágico bem rara na literatura nacional. E. que Otávio de Faria trata com aproximação, simpàticamente, os colegas, até os predominantemente ruins, buscando-lhes descobrir as tendências tôdas, a luta do bem e do mal inatos, e a profunda seriedade humana com que são adolescentes. Época da vida em que todos reformamos o mundo para melhor... Raul Pornpéia, ao contrário, maltrata com impiedade os colegas, distante, sem a menor simpatia, sem a menor compreensão esclarecida da juventude. O Ateneu é um livro de vingança pessoal. Contra a vida?... Contra o internato que lhe desorientou o desejado destino?... Contra si mesmo?...
E é na descrição do mal que Raul Pompéia se torna absolutamente um mestre. Temperamento de auditivo, consegue no entanto descrições físicas e psicológicas que são de uma visibilidade contundente. É admirável, neste sentido, a página em que Sérgio retrata os colegas de aula, no segundo capítulo, com a mesma energia e mais naturalidade que a descrição da canarina citada atrás. Sempre que se trata da descrição do mal e do mau, do ser moralmente defeituoso, de um caso ruim, a idéia acorda, a imagem se avigora, o toque é nítido, o traço atinge o centro do alvo.
Então quando é momento de estudar o Aristarco, não raro Raul Pompéia atinge as raias da genialidade. Não há talvez nenhuma página sôbre Aristarco que não seja magistral. A violência é prodigiosa, as imagens saltam inesperadas, de um vigor de realismo e de uma beleza de imaginação absolutamente excepcionais. Já foi observado que a ficção brasileira não cria tipos sociais e Aristarco é um dos únicos que possuímos com a consubstanciação psicológica de um ser de classe. Este será sempre um dos maiores méritos de Raul Pompéia e a sua invenção genial. Aristarco ficará como o tipo heróico e sarcástico do diretor de colégio, de uma unidade e um poder de convicção como não conheço outro congênere na literatura universal. E no entanto não são raros os livros que descrevem a vida dos colégios.
O tempo da adolescência colegial é por certo um dos grandes dramas da formação do indivíduo e isso atrai os romancistas. A crermos êstes, o internato é mais um mal que um bem. E assim Raul Pompéia. Que êle toma atitude crítica não me parece possível contestar. O Ateneu castiga o regime dos internatos. Dos internatos exatamente? Não. Um internato errado que se individualiza logo, é o Ateneu – em grande parte o colégio Abílio que é a base de inspiração do livro. Além dos desenhos de Raul Pompéia que parecem dar ao Ateneu O fisionomia arquitetônica do colégio Abílio, outras provas ajuntaram os críticos, especialmente Elói Pontes. Este fornece ainda uma, curiosa, que não quis salientar: n.º 4 de O Archote, jornalzinho manuscrito que Raul Pompéia redigiu no quinto ano do Abílio, "critica-se a conduta dum aluno que se bateu com o vice-reitor, sendo expulso debaixo de pancadas. O Archote reprova a atitude do vice-reitor, lançando a criadagem contra o adversário, e censura êste por se ter batido com um velho", nos conta Elói Pontes. Êste caso dará uma das páginas mais emocionantes do Ateneu, a briga de Sérgio com Aristarco, onde as mesmas censuras aparecem. Por onde se vê, de resto, que Sérgio é quando muito uma autobiografia psicológica, na qual podemos viver e incorporar ao nosso drama os dramas alheios.
Raul Pompéia, com rara habilidade, consegue fazer do Ateneu o personagem principal do seu romance. Mas talvez tenha individualizado por demais o colégio, em sua sêde porventura inconsciente de vingança. A horas tantas, no capítulo XI, faz o professor Cláudio, um dos raríssimos que elogia pelo valor intelectual, defender o princípio do internato. A defesa é cálida, muito embora bem fraca em seus argumentos conhecidos. Essa parece ser a opinião crítica de Raul Pompéia redigiu no quinto ano do Abílio, "critica-se a conduta dum aluno que se bateu com o vice-reitor, sendo expulso debaixo de pancadas. O Archote reprova a atitude do vice-reitor, lançando a criadagem contra o adversário, e censura êste por se ter batido com um velho", nos conta Elói Pontes. Êste caso dará uma das páginas mais emocionantes do Ateneu, a briga de Sérgio com Aristarco, onde as mesmas censuras aparecem. Por onde se vê, de resto, que Sérgio é quando muito uma autobiografia psicológica, na qual podemos viver e incorporar ao nosso drama os dramas alheios.
Raul Pompéia, com rara habilidade, consegue fazer do Ateneu o personagem principal do seu romance. Mas talvez tenha individualizado por demais o colégio, em sua sêde porventura inconsciente de vingança. A horas tantas, no capítulo XI, faz o professor Cláudio, um dos raríssimos que elogia pelo valor intelectual, defender o princípio do internato. A defesa é cálida, muito embora bem fraca em seus argumentos conhecidos. Essa parece ser a opinião crítica de Raul Pompéia sôbre os internatos, pois, da mesma forma, noutro capítulo, êle se permite, pela bôca do mesmo Dr. Cláudio, uma digressão estética visìvelmente pessoal, esposando as idéias evolucionistas do tempo. Essa discordância entre a opinião do inteligente e estudioso Dr. Cláudio sôbre os internatos e a pintura que Raul Pompéia nos faz do Ateneu, prova ainda o sentimento vingativo que inventou o assunto e ditou o livro. Se é possível generalizar por vêzes e se os casos e dramas psicológicos vividos no Ateneu são eternamente os mesmos tratados por um Jules Vallès, um Gabriel Chevalier, um Otávio de Faria e quantos descrevem colégios de rapazes, o Ateneu se restringe às proporções menos sociais e mais individualistas de um "caso". O Raul Pompéia fechado não conseguiu abrir o seu "caso" para o campo mais fecundo das generalizações: há uma desumanidade vasta no Ateneu. O grande artista não realizou essa forma de naturalismo crítico que pouco tempo antes Aluísio de Azevedo alcançara na Casa de Pensão e no Cortiço.
O grande artista... Quem quer leia os veementes artigos de jornal de Raul Pompéia e mesmo as suas mais discretas Canções sem Metro, se surpreenderá com a distância inexplicável que medeia entre êstes e a escritura do Ateneu. As Canções sem Metro foram trabalhadíssimas no estilo e refundidas várias vêzes. Mas sempre no sentido da nitidez da idéia, e conseguem alguma naturalidade de expressão. Quanto aos artigos de jornal, mesmo os que mais satirizam qualquer tema, são em geral diretos, simples no dizer, vivos mas despidos de galas de retórica. Nêles é a clareza, a incisividade da idéia que torna a frase causticante, e jamais a riqueza e o imprevisto. O Ateneu é outro mundo expressivo, outro estilo. Agora não se desdenha a pompa, a eloqüência do dizer é largamente usada, e o brilho das imagens, a raridade vibrante das comparações, o ritmo opulento atingem o abuso e algumas vêzes o mau gôsto. Observe-se a mistura estranha do vivaz e do mau gôsto neste passo: "Entrei pela geografia como em casa minha. As anfractuosidades marginais dos continentes desfaziam-se nas cartas, por maior brevidade do meu trabalho; os rios dispensavam detalhes complicados dos meandros e afluíam-se para a memória, abandonando o pendor natural das vertentes; as cordilheiras, imensa tropa de amestrados elefantes, arranjavam-se em sistemas de orografia facílima; reduzia-se o número das cidades principais do mundo, sumindo-se no chão, para que eu não tivesse de decorar tanto nome; arredondava-se a quota das populações, perdendo as frações importunas, com prejuízo dos recenseamentos e maior gravame dos úteros nacionais; uma mnemônica feliz ensinava-me a enumeração dos Estados e das províncias. Graças à destreza do Sanches, não havia incidente estudado da superfície terrestre que se me não colasse ao cérebro como se fôsse minha cabeça, por dentro, o que é por fora a esfera do mundo".
Estamos em pleno domínio do "como" comparativo que, a gente percebe muito bem, menos que processo legítimo de pensamento e aproximação esclarecedora, é um mero cacoete de retórica, a volúpia da brilhação. Mas é incontestável que raramente O espírito metafórico alcançou tais lucidações, que chegam a convencer muitas vêzes pelo apropositado e o raro da invenção. "As condecorações gritavam-lhe no peito como uma couraça de grilos"... "O anúncio confundia-se com êle, suprimia-o, substituía-o, e êle gozava como um cartaz que experimentasse o entusiasmo de ser vermelho..."
E é nesse brilho, discutível em tese, que Raul Pompéia consegue as suas páginas mais vibrantes, principalmente se se entrega ao sarcasmo, à caricatura exasperada, ao vigor mais resplandecente do mal. Dente já não obtivera muito maior vigor no Inferno que no Paraíso?... Agradava-lhe no tratamento que deu ao seu estilo romanesco a frase berrante de ritmo e número, empregada discricionàriamente na descrição simples, na análise psicológica, no caricatural ou no dramático. Só o raro o atrai. Elói Pontes transcreve de um caderno de notas de Raul Pompéia a observação: "Encontro de idéias, vá lá – encontro de imagens, salvo coincidência excepcional, é plágio". E conta mais que o burilador rasgara irritado um seu escrito só porque um companheiro encontrara nêle vaga analogia com outro escritor. Agrada-se das palavras bombásticas, do inútil substantivo latino e não desdenha mesmo o brasileirismo, se utilizando dêle com mestria em páginas de ridículo, estourando no vernáculo com o berro do têrmo chulo ou familiar. Como no passo delicioso em que relata a prova de ginás-tica do Nearco.
José de Alencar inaugurara no romance a linguagens poética. Raul Pompéia, conhecedor dos Goncouzt, inaugura entre nós a "écriture curtiste". Chegou a escrever que só no didático é admissível o estilo simples; e ao verificar que as qualidades estilísticas de Mérimée são clareza, precisão e sobriedade, comenta depreciativamente: "outro não seria o elogio de um tratado de química". Por onde se vê que êle confundia o simples com o simplório. Para êle a prosa de ficção é ainda um aspecto do verso. "A prosa tem de ser eloqüente, para ser artística, tal qual os versos. E não se vá crer que eloqüência é só ardor turbulento dos meridionais, a expressão abundante e violenta, é também e mais difìcilmente o que se denomina particularmente poesia". Mas sempre é certo que há no livro menos poesia, menos a eloqüência que êle concebe como poesia e será porventura o direito às confissões íntimas ("a franqueza, o impudor da alma, só na estroíe pode fazer-se ouvir"...) que a eloqüêacia ardorosa do verbalismo sonoro, das imagens e das raridades fulgurantes. Desta eloqüência Raul Pompéia usou à larga e abusou muitas vêzes no Ateneu. Mas conseguiu o que pretendia, a escritura artista, artificial, original, pessoal, tão sincera e legítima como qualquer simplicidade. Não é apenas uma questão de gôsto, é uma questão de beleza. Raul Pompéia inconscientemente foi a última e derradeiramente legítima expressão do barroco entre nós; e por muitas vêzes, no seu grande livro, atingiu com a palavra a beleza estridente dos ouros da Santo Antônio carioca ou da São Francisco baiana.
E o princípio em que se baseou me parece incontestável estèticamente. A arte, por mais sincera e confessional, por mais virilmente combativa que seja, não deverá jamais esquecer a existência do seu coturno. Ou deixará de ser arte para se conspurcar na preguica do artesão e na inconsistência do ignorante. Pura mistificação pessoal, quando a arte terá sempre que ser uma mistificação social. E isso Raul Pompéia soube compreender e realizar. Deu-lhe a idéia do seu romance a incompetência de viver adquirida ou pelo menos arraigada nê1e pelo drama do internato; vazou no livro o seu ódio por um passado que culpou, por uns professôres e colegas que o supliciaram, vingando-se de tudo com furor; fêz do Ateneu uma tese contr um dos possíveis erros da dieta educacional: mas de tanta miséria, de tão trágicos suplícios, saiu-se com uma obra-de-arte esplêndida, filigranada, trabalhada, magnìficamente, de graças e belezas. Não será sempre perfeito. Mas alcançou a obra-prima. A obra essencial em que a beleza imortaliza as deficiências dos atos humanos e das formas sociais. Abílio César Borges pode ter sido um homem de valor. Mas Aristarco transcende a quaisquer contingências e permanecerá presente, figura das mais vivas do romance, símbolo de uma das nossas imperfeições.
Já se disse que o Ateneu é o menos naturalista dos nossos romances do Naturalismo. Não penso assim. Êle representa exatamente os princípios estético-sociológicos, os elementos e processos técnicos do naturalismo. É sempre aquela concepção pessimista do homem-bêsta, dominado pelo mal, incapaz de vencer os seus instintos baixos – reflexo dentro da arte das doutrinas evolucionistas. É sempre aquêle exagerar inconsciente e ao sério das manifestações destrutivas do ser, baseado numa psicologia do terror, que concebe os homens como bêstas e ignora a "parte do anjo". É sempre aquela crítica ardorosa e deformadora das formas sociais mal ajustadas e infamantes que, contrastando românticamente com o pessimismo evolucionista, acredita na melhoria do ser e num futuro mundo ideal – novo altar do romantismo que apenas substitui a imagem lírica e sentimental pelas imagens igualmente sentimentais do abjeto. Se ainda existem visões de delicadeza no livro, elas derivam muito mais do próprio assunto que de uma fuga anti ou extranaturalista do autor. E êste transvazou o seu temperamento na obra, e de maneira dolorosíssima, se demonstrando incapaz do exercício da amizade e, conseqüentemente, de uma cruel incompreensão ante a adolescência. E quanto à expressão, ecoa no Brasil, e de maneira singularmente brilhante e eficaz, a "écriture artiste" aparecida no naturalismo francês. E português também, pois carece não esquecer que Eça já aparecera, e nos tempos da publicação do Ateneu, dava nos folhetins cariocas da Gazeta de Notícias A Relíquia. O Ateneu não é menos naturalista que os seus êmuìos brasileiros. E admiràvelmente, com hábil consciência técnica, Raul Pompéia soube ajustar a brutalidade de escola ao seu assunto, que era, por natureza, menos brutal. Porém, mesmo assim, não deixou de botar inutilmente no livro um assassínio e um incêndio. O Ateneu representa um dos aspectos particulares mais altos no Naturalismo brasileiro.
Mario de Andrade: "O Ateneu". In Aspectos da literatura brasileira. 6. ed., Livraria Martins Fontes S.A., São Paulo, 1978, pp. 173-184.
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