Grandes Escritores



Quarenta Anos
© Mário de Andrade

 
A vida é pra mim, está se vendo, 
Uma felicidade sem repouso; 
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo 
Só pode ser medido em se sofrendo. 
Bem sei que tudo é engano, mas sabendo 
Disso, persisto em me enganar... Eu ouso 
Dizer que a vida foi o bem precioso 
Que eu adorei. Foi meu pecado... Horrendo 
Seria, agora que a velhice avança, 
Que me sinto completo e além da sorte, 
Me agarrar a esta vida fementida. 
Vou fazer do meu fim minha esperança, 
Oh sono, vem!... Que eu quero amar a morte 
Com o mesmo engano com que amei a vida. 

A Costela do Grão Cão, 1933 
  



 

 

 

         

   

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