Grandes Escritores



Àngulo 
© Mário de Sá Carneiro

 Aonde irei neste sem-fim perdido, 
Neste mar oco de certezas mortas? — 
Fingidas, afinal, todas as portas 
Que no dique julguei ter construído... 

— Barcaças dos meus ímpetos tigrados, 
Que oceano vos dormiram de Segredo? 
Partiste-vos, transportes encantados, 
De embate, em alma ao roxo, a que rochedo?... 

Ó nau de festa, ó ruiva de aventura 
Onde, em Champanhe, a minha ânsia ia, 
Quebraste-vos também, ou porventura, 
Fundeaste a Oiro em portos de alquimia?... 

Chegaram à baia os galeões 
Com as sete Princesas que morreram. 
Regatas de luar não se correram... 
As bandeiras velaram-se, orações... 

Detive-me na ponte, debruçado. 
Mas a ponte era falsa — e derradeira. 
Segui no cais. O cais era abaulado, 
Cais fingido sem mar à sua beira... 

— Por sobre o que Eu não sou há grandes pontes 
Que um outro, só metade, quer passar 
Em miragens de falsos horizontes — 
Um outro que eu não posso acorrentar... 



 

 

 

         

   

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