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Para se orientar na sua passagem momentânea pela imensidade dos tempos, balizou
o homem essas vastas divisões da história, à extrema das quais se debruça de
uma para outra com as impressões de um mundo que acaba e outro que principia,
como se as nossas demarcações coincidissem com os momentos da Providência, e
as fases da nossa evolução respeitassem a uniformidade geométrica da nossa
cronologia. A luz e as trevas ensinaram-nos o dia e a noite, o nictêmero
invariável, cujas vinte e quatro horas distribuem de meridiano em meridiano a
claridade e as trevas. As fases da lua indicaram-nos, talvez, as semanas.
Sugeriu-nos os meses a revolução sinódica do satélite da Terra. Nos
movimentos celestes fomos buscar a medida dos anos. Mas com os séculos começa
o domínio das convenções humanas, arbitrárias na sua relatividade e
indiferentes à marcha dos sucessos.
Quando nós traçamos os nossos círculos na esfera infinita, temos os astros,
imutáveis e inconfundíveis, para os pontearem de focos rutilantes. Quando
baixamos com o compasso das amplidões siderais à superfície do globo, as
nossas curvas imaginárias assinalam zonas, climas, hemisférios, diversidades
naturais e situações perpetuamente distintas, do Levante ao Ocidente, do
Equador aos Pólos. Mas, quando lançamos ao passado e ao futuro as nossas
linhas seculares, tentamos no futuro o desconhecido, infringimos, no passado, a
verdade.
Aqui a simetria constante dessas divisórias intercepta cegamente a continuidade
a uma cadeia indivisível de fatos. Ali agrupa, mistura e amalgama entre as
mesmas fronteiras cronológicas acontecimentos antagônicos e inconciliáveis,
que a harmonia das causas e efeitos obrigaria a classificação a inscrever no
pretérito, ou no porvir. Não há, pois, de que nos comovermos tão
profundamente, ao transpor essas barreiras, como se penetrássemos numa região
nova de maravilhas e imprevistos. O curso dos nossos destinos tem alhures, nos
segredos indevassáveis do tempo, os seus marcos reais, aqueles por onde
efetivamente se discriminam os estádios sucessivos do progresso. Essas
delimitações fictícias assinam datas: nada mais. O desenvolvimento humano,
nas suas tendências sucessivas, procede por durações irregulares, vagas,
indefinidas, que não cabem nos quadros prefixos da nossa mnemotecnia.
Se houvéssemos de extremar as idades segundo as grandes mutações morais do
nosso planeta, o século dezenove se abriria em 1776, com a independência
americana, ou em 1789, com a Revolução Francesa. Desses dois grandes termos
nasce o problema contemporâneo da emancipação exterior e interior das
nações, que agitou, numa série de revoluções nacionais e internacionais,
até 1870, os dois continentes.
Mas, assim como a era das reivindicações separatistas e da liberdade política
verdadeiramente se instaura no antepenúltimo lustro da centúria passada, o
século vinte, se os séculos se discernissem pela irradiação de novos signos
na órbita do mundo, dataria do antepenúltimo decênio do atual. É de então,
após as vitórias alemãs, que assomaram claramente no horizonte as duas
questões, os dois perigos e os dois enigmas, em cujo circulo de tormentas vai
entrar o gênero humano: o socialismo e o imperialismo. São as duas idéias
fixas da civilização moderna: a primeira sob a forma de um pesadelo cruciante;
a segunda com as seduções de uma atração irresistível.
Tirante a Áustria, encerrada nos Balcãs, todas as demais potências, na Europa
e na América, se abrasam na aspiração expansionista. A Itália não renunciou
com o desastre de Adua e o malogro do seu império no Mar Vermelho, o espírito
da sucessão de Roma, Gênova e Veneza, os seus direitos adquiridos à sucessão
dos imperadores e dos doges. Massuah e Ópia não a consolam da usurpação
francesa, que lhe roubou o Mediterrâneo. A Alemanha estende-se pela África
Oriental; pelo Tratado de Berlim em 1878, pela aliança com Abdul-Hamid, pela
viagem de Guilherme II ao Oriente em 1898, pelas homenagens da romaria imperial
ao Santo Sepulcro e ao túmulo de Saladino, firma uma importante posição
econômica no Levante; no Extremo Oriente põe a mão sobre o Celeste Império,
ocupa Kiaotcheo, enceta a exploração das riquezas de Shantung; adquire as
Carolinas, as Marianas, Palaos, Samoa. A França, mutilada na Alsácia,
reconstitui um império francês maior que o império alemão; conquista a
Tunísia e a Indochina; por ai penetra nalgumas das mais ricas províncias
chinesas; possui Madagascar; absorve o Noroeste africano; envolve, pelo deserto,
Marrocos; exerce sobre o mundo árabe uma espécie de suserania política e
moral. A Rússia, depois de aniquilar as liberdades polacas, aniquila as
liberdades finlandesas; depois de esmagar os elementos alemães nas províncias
bálticas, favorece a exterminação da autonomia armênia pela Turquia; estende
em todas as direções estratégicas as suas imensas ferrovias: a Transiberiana
para Pequim, a Transcaucásia para o Golfo da Pérsia, a Transcaspiana para a
Índia; cresce, num impulso contínuo, por um movimento análogo ao dos
glaciares, com a massa incomparável dos seus cento e vinte milhões de almas,
para o Mar Negro, para Constantinopla, para o Eufrates, para o Golfo de Oman,
para a Manchúria, a Coréia, abrangendo no traçado assombroso do pan-eslavismo
a Europa e a Ásia, dos Dardanelos ao Oceano Índico e ao Oceano Pacífico.
Mas nada se compara à dilatação da Inglaterra. Seu imperialismo liberal
abarca os continentes. Todas as suas rivais uma a uma involuntariamente a vão
servindo: a França, em 1840, quando impele Mehemet Ali à conquista da Síria e
da Ásia Menor; em 1869, quando inaugura o Canal de Suez; a Rússia, em 1853,
quando ameaça Istambul e os Estreitos, assim como depois quando transmonta o
Ararat, e arremessa os seus exércitos até o Mar de Mármara, em San Stefano; a
Alemanha, afinal, em 1899, quando, abrindo mão das suas afinidades holandesas e
das suas simpatias pelos vencedores de Jameson, entrega os bôeres à
desgraçada fortuna das resistências suicidas. Na América abraça o Canadá, a
Terra Nova, a Guiana, a Jamaica e as mais ricas das pequenas Antilhas. Ocupa a
foz do Níger e do Hinterland até ao Lago Tchad. Ninguém se lhe atravessa no
seu caminho da Índia. Imensos tentáculos do seu domínio universal, as suas
forças navais enlaçam os oceanos; as suas vias férreas alongam os sulcos pelo
Afeganistão e a Pérsia Meridional, pelo Tibete, pela Birmânia e a China,
através dos desfiladeiros do Lan-Tan, para o Yunnan e o Yangtze Kiang; as suas
linhas de navegação estendem-lhe o comércio, a influência e o poder até aos
mares chineses, de Hong Kong a Weihaiwei, até Melbourne e Sydney, na
Austrália, e do Cairo ao Cabo, das fontes do Nilo à Zambézia, à Rodésia,
pelas costas africanas. De Natal a Calcutá, de Calcutá a Pequim, de Pequim a
Auckland, de Auckland a Quebec, de Quebec ao estuário do Tâmisa, das margens
do Tâmisa ao vértice do Himalaia, esse colosso, em cujo seio se abriga uma
civilização inteira, derrama a universalidade da sua raça, do seu idioma, das
suas instituições e das suas armas.
Mas, como se a arena já não transbordasse, um gigante de proporções
incalculáveis invade inopinadamente a cena. Em cinqüenta anos se improvisou a
Austrália. Em trinta, o Japão. O advento da soberba potência norte-americana
conta menos de um lustro. Há dois anos a Espanha lhe deixava nas mãos as
últimas jóias do seu império colonial, os derradeiros retalhos da sua antiga
majestade: Cuba, Porto Rico, as Filipinas. Em fevereiro de 1898 desembarcam nas
Ilhas de Hawaii as primeiras tropas yankees. Em março Dewey incendeia a
esquadra de Montojo no porto de Cavite. Em julho se destrói a de Cervera, ao
sair de Santiago. A Alemanha sente para logo, em Manila, o orgulho da
embriaguez, em que a loucura das conquistas estonteia a nova potestade militar.
Se uma esquadra americana imediatamente se não mostra em pleno Mediterrâneo
aos europeus, bombardeando o litoral ibérico, é que a vencida capitula, e se
apressa em tratar. Mas logo depois os seus soldados se encontram com os da
Europa no Império do Meio, e a espada, que Washington embainhara, para não
sair à luta senão em defesa da liberdade, vai disputar à avidez ocidental,
nas costas chinesas, o seu quinhão régio nos despojos do Oriente.
Eis como madruga para nós o século vinte. A guerra sino-japonesa, a guerra
hispano-americana, a guerra anglo-bôer, três guerras de ambição, três
guerras de conquista, três guerras de aniquilamento, esboçam os pródromos do
mais desmarcado conflito, a que nunca assistiu a espécie humana. As grandes
nações aprestam recursos inauditos, para concorrer à divisão dos países
semicivilizados, e ocupar os últimos lugares vagos na área terrestre. A teoria
da absorção dos fracos pelos fortes legitima de antemão a hipótese iminente.
Não resta às nacionalidades ameaçadas senão apelarem para a sua própria
energia, a rápida educação dos seus elementos humanos na escola da guerra. E,
enquanto esta liquidar até nas profundezas submarinas, a vindoira carta
política do globo, o espectro social lhe terá semeado à retaguarda procelas e
revoluções, de cujo embate não se sabe como sairá esse progresso cristão,
que dezenove séculos de lavragem tormentosa tem custado ao Evangelho.
Para nós os desta parte do orbe terrestre não é também desnublado o
crepúsculo desta manhã. Ao raiar do século, que ontem expirou, sentíamos o
presságio da redenção. Começamos o século dezenove as nações das duas
Américas, sacudindo o cativeiro colonial. Agora que a reação colonial torna a
soprar sobre o mundo, não desses estreitos recantos de Portugal e Castela, mas
por assim dizer de todos os pontos do firmamento, não podemos estar seguros de
que no primeiro ou segundo quartel do século entrante não tenhamos de volver
à defesa destas paragens contra a cobiça estrangeira. Desabou o frágil
refúgio da doutrina de Monroe, e a sorte dos povos americanos, como a dos
africanos e asiáticos, há de liquidar-se, sem barreiras continentais, no
teatro do mundo, ao arbítrio dos interesses e das forças, que se medirem na
campanha mais cedo ou mais tarde ferida entre os poderosos.
Debalde os votos dos filantropos, os sonhos dos idealistas e as esperanças dos
cristãos, evocam, no limiar desta idade, a imagem benfazeja da paz. A realidade
ilacrimável há de respondar-lhe como Frederico o Grande, no século dezoito,
às desequilibradas impaciências de Rousseau: "Quer ele que eu celebre a
paz: não lhe conhece o bom do homem a dificuldade." Nunca esse desideratum
esteve mais longe de nós que após o congresso de Haia. Verdade é que dele
saiu preconizado o princípio da justiça internacional pelo arbitramento. Mas
esta instituição divina terá de passar por muitas repulsas, e sofrer, como as
mais belas divindades antigas, muitas feridas, quando o delírio das batalhas
arremessar umas contra as outras essas medonhas moles armadas.
Apressemo-nos, entretanto, em atalhar equívocos, que a nossa opinião não
subscreve. Se propendemos para Maquiavel em desconfiar da nossa mácula
primitiva, em acreditar que a humanidade está sempre vizinha da corrupção
natural, em recear nos homens, por mais longas aparências de sublimidade que
apresentem, o reproduzir-se da mesma natureza, reproduzidas as mesmas ocasiões,
longe estamos de contestar, duvidar ou amesquinhar a obra progressiva das
idéias e dos costumes. Ainda no terreno do mal se destacam os progressos
inegáveis do bem. Ao alvorar do século dezenove, Napoleão transpunha como o
raio o Grande S. Bernardo, dava a Batalha de Marengo, e, subjugando a Itália,
de um golpe, anunciava o eclipse do mundo no disco de um gênio. Durante quinze
anos a estrela de um homem foi a estrela da civilização européia. Hoje as
figuras, que se desenham no campo visual do nosso destino, são as nações e as
raças. Aquelas grandes ditaduras acabaram. Os povos obedecem às suas vontades.
Tudo está em saber que leis, ou que arcanos supremos animarão essas correntes
vivas, e preservarão de terminar em catástrofes os seus encontros
formidáveis.
Como quer que for, porém, não regateemos a esse magnífico período secular o
seu rnerecimento. Seu caráter foi, em geral, magnânimo e radioso. Aboliu a
escravidão. Resgatou, na família européia, quase todas as nacionalidades
opressas. Generalizou o governo do povo pelo povo. Elevou os direitos da
consciência a uma altura sagrada. Depurou a liberdade, a justiça e a
democracia. Criou a opinião pública, e deu-lhe a soberania dos Estados.
Entronizou a igualdade legal. Fundou a educação popular. Extraiu da ciência
benefícios e portentos, que deslumbram a fantasia. Mudou a paz e a guerra.
Transfigurou a face dos continentes e dos mares.
Mas até onde tocou o coração do homem, só Deus o sabe, e o saberemos nós,
quando a centelha atmosférica inflamar os combustíveis, cuja aglomeração
silenciosa inquieta os grandes e apavora os pequenos. Então os que assistirem
ao espetáculo, poderão dizer se a um século, em que a ciência serviu
principalmente à força, terá sucedido um século, em que a força se incline,
afinal, ao direito.
Entrementes vamo-nos dando ao ingênuo prazer, ou à vaidade inofensiva de
sentirmo-nos entre os mortais, a quem tocou o privilégio de assistir a um dos
centenários da humanidade. Os marinheiros de primeira viagem recebem
alegremente o batismo náutico, ao cruzarem a vez primeira o círculo
equinocial. Este círculo do tempo não se transpõe duas vezes. Digamos, pois,
adeus a esta baliza da eternidade, com o sentimento de um encontro que se não
repete.
Terça-feira, 1 de janeiro de 1901.
* Obras Completas de Rui Barbosa, "A Imprensa", vol. XXVIII, tomo III,
1901, p. 3-8.
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