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A triste História de Rex


Esta é uma história verídica, e faz parte de minha memória. Hoje ao preparar estes versos simples para publicação, olhei a cicatriz que carrego no antebraço, e que o tempo deslocou alguns centímetros, (mais de cinqüenta anos) confesso que neste momento, ao ver a marca da presa do meu amigo, injustiçado por minha covardia infantil, chorei copiosamente minha amargura.

O CRIME DE UM SONHADOR.


Nosso cão era o REX, e o amávamos 
Solto em nosso quintal fora criado, 
Sempre tão dócil e tão bem humorado, 
Diariamente com ele nós brincávamos. 
2
 Era peludo e de negros costados, 
Mestiço de alsaciano e vira latas, 
Cauda peluda e largas omoplatas 
Enormes dentes brancos e afiados 

Tinha o pescoço forte, e bem folgado 
Era o couro do mesmo, e muito grosso, 
Fortes mandíbulas que partiam um osso 
Como se fosse um palito queimado 

Cabeça enorme, orelhas caídas 
Boca bem preta e o olhar brilhante 
Patas enormes e o andar elegante 
Fora o melhor presente em nossas vidas. 

Nas suas pernas traseiras existiam 
Unhas vestigiais que ali ficavam , 
Pouco acima das patas, e balançavam 
Quando ele andava, e de nada serviam. 

Ele era um poço de docilidade, 
Mas só conosco;.. a noite o transformava 
No guardião terrível que zelava 
Seu território com ferocidade. 

Lembro-me bem da manhã, que acordado, 
Fui por uma tremenda agitação, 
Ouvi todos falando que um ladrão 
Havia a noite no quintal penetrado. 

Levantei-me ainda atordoado 
É corri para o quintal em um segundo, 
Lá fora se encontrava todo mundo, 
Ao redor do meu pai, e este agitado. 

O REX corria para todo lado, 
Alegre, me parecendo sorridente, 
Saltava e se contorcia de contente 
Parecendo saber-se elogiado. 
10 
Nosso quintal era todo cercado 
Por alto muro, e o pulara o ladrão, 
Sem saber que existia ali um cão, 
Grande e feroz e viu-se encalacrado. 
11 
Havia sangue ali por todo lado, 
Haviam manchas no muro e no chão. 
E pedaços da roupa do ladrão 
Que o bravo REX havia espedaçado. 
12 
No alto, o muro mostrava-se arranhado 
Pelas unhas do REX , que saltara 
Tentando segurar ainda o cara 
Que escapava muito machucado. 
13 
No juazeiro do Norte, onde morávamos 
Todo Domingo, ao cinema nós íamos, 
Na matinê a um filme assistíamos, 
E a um seriado também acompanhávamos. 
14 
Acompanhamos muitos seriados, 
Nyoka, Flash Gordom, supermam, 
Hopalong Kassidy e Batmam, 

Durango Kid e Zorro, mascarados. 
15 
Acompanhamos “A mulher Aranha" 
Capitão Marvel, e o falcão do deserto 
Vimos Buck, o cão de “Mala”, muito esperto, 
E “marte invade a terra”, (coisa estranha.) 
16 
Eu tinha então uns sete ou oito anos, 
Quando findou-se a série do Supermam, 
E em seguida foi a vez do Tarzam, 
E fui acompanha-la com meus manos. 
17 
Assim como sonhara que voava 
Ao assistir capitão Marvel e Supermam, 
Agora com a série de Tarzam, 
Era sendo Tarzam que eu sonhava. 
18 
E era de Tarzam que nós brincávamos, 
Tangas de estopa e facas imaginárias, 
Envolvidos em lutas sanguinárias 
Com feras que na mente nós criávamos. 
19 
Certa manhã, no quintal eu brincava, 
De Tarzam, e comigo estava o cão, 
De repente pensei que um bom leão, 
Grande e peludo, o meu cachorro dava. 
20 
Aí no seu pescoço eu me atracava, 
E tentava jogar ele no chão, 
Mas era grande a força do meu cão, 
E joga-lo por terra, eu não lograva. 
21 
Ele não aceitava a brincadeira, 
Sempre tentando escapulir de mim , 
Mas eu o perseguia mesmo assim, 
E o trazia puxando na coleira. 
22
Arranjei um pedaço de madeira, 
Fingindo então que era meu punhal, 
Para cutucar o meu pobre animal 
Que era o meu leão de brincadeira. 
23 
Na amurada do alpendre então subindo 
Joguei-me sobre o ele, que passava, 
E com o peso que meu corpo deslocava, 
Meu pobre animal findou caindo. 
24 
Abarcando fortemente o seu pescoço. 
Com meu braço direito eu desferia 
Golpes como qualquer Tarzan faria, 
Nele montado, completando o esforço. 
25 
Acho que então, sentindo o embaraço, 
Estrangulado e rolando no chão, 
Reagindo por instinto, o pobre cão 
Abocanhou com força no meu braço. 
26 
Foi justamente no braço criminoso, 
Que tão covardemente o atacara, 
Que seu grande canino ele cravara, 
E poderia ser bem mais danoso. 
27 
Após isto com um simples movimento 
Jogou-me a uma distancia respeitável, 
E depois disto o pobre miserável 
Ficou chorando de arrependimento. 
28 
No antebraço, do profundo ferimento, 
O sangue em quantidade me saía, 
Eu chorava de dor, e o cão gania, 
Demonstrando seu grande sofrimento. 
29 
Minha Mãe veio louca lá de dentro, 
E vendo meu estado, apavorada, 
E mesmo sem daquilo saber nada 
Fez sobre o pobre cão mau julgamento. 
30 
Foi então a partir deste momento, 
Que o coitado tornou-se um condenado, 
Vivendo dia e noite acorrentado, 
E eu sofrendo com seu sofrimento. 
31 
O seu olhar tristonho ia profundo, 
Na minha alma, e isto magoava, 
Meu pobre cão parece que chorava, 
Por me ver triste e tão meditabundo. 
32 
Por não saberem o que eu havia feito.
 Julgavam que o cão, louco se achava, 
Eu entendia tudo, e até chorava 
Mas como concertar o meu malfeito? 
33 
Ninguém chegava mais nem perto dele, 
Comida, só com vara lhe empurravam, 
E lentamente os dias se passavam, 
E só em sonhos eu ia junto a ele. 
34 
Eu não sei quanto tempo transcorreu, 
Porém foi muito, muito para mim 
Até chegar o triste dia em fim 
Que o pior de tudo aconteceu. 
35 
naquele dia meu pai apareceu 
Acompanhado de um desconhecido, 
Este trazia um pau grosso e comprido, 
Com um buraco onde uma corda meteu, 
36 
Na corda vi um laço, então me deu, 
Um gelo no fundo do coração, 
Pensei que viera enforcar meu cão, 
Sendo que o crime era todo meu. 
37 
Não foi porém o que aconteceu, 
Meu pai me disse que ele ia leva-lo 
Para o seu sitio aonde ia cria-lo, 
Talvez mentisse, mas me convenceu. 
38 
O pobre cão reagiu violentamente 
No momento de ser dali levado, 
Mas pelo laço foi subjugado, 
Até que o arrastaram finalmente. 
39 
Mas Rex era um cão inteligente, 
E ao chegar a rua entendeu, 
Que o laço do homem que o prendeu, 
Não seria desfeito facilmente. 
40 
Olhou-me nos meus olhos docemente, 
Como a dizer que ali me perdoava, 
Ele sabia o quanto eu o amava, 
E se foi puxando o homem, a sua frente. 
41 
Quase que meio século é passado, 
Daquele triste dia que o levaram, 
E as tristes mágoas que ali ficaram, 
São para mim um fardo bem pesado, 
43 
Não sei se o mataram, é provável, 
Se aconteceu, fui eu quem o matou, 
Foi meu silêncio que o condenou, 

E isto me faz sentir um miserável.


Mestre Egídio
Francisco Egídio Aires Campos
© Todos Direitos Reservados
     

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