» Capa » 1ª página

  ABRALI Edições

  Rádio Poesia

  ABRALI HOST

  Revista ABRALI

Formulário fale conosco

Indique esta página

>> Cadastre-se!

Nossa Organização

» Quem somos / Nossa Missão
» Institucional / Parcerias
» Participar deste Projeto
» Editora - ABRALI Edições
» Rádio Poesia
» ABRALI HOST - Hospedagem
» Eventos - EPAC
» Comunidade ABRALI Orkut

Canais de Vídeo & Áudio

» Rádio Poesia Vídeos/Áudios
» Revista ABRALI
» Membros Acadêmicos
» Matéria da Semana

Canais Literários

» Membros Acadêmicos
» Rádio Poesia
» Grandes Escritores
» Contos
» Crônicas
» "Chapéu di Paia"
» Literatura de Cordel
» Coletâneas Abralianas
» Literatura & História

Canais de Arte

» Artes, Artistas & Cia.
» Músicas

Canais de Língua Portuguesa

» Dicas de Português
» Teoria Literária
» Ensaios
» Resenhas
» Grandes Escritores

Canais de Informação

» Revista ABRALI
» Vídeos de Eventos ABRALI
» Notícias em Tempo Real
» Direitos Autorais e Leis
» Fatos e Personagens
» Vídeos Datas Comemorativas
» Galeria de Fotos
» Artigos
» Literatura & História

Canais Especiais

» Espaço Jovem
» ABRACADABRA - Infantil
» Folclore
» Espaço Indígena
» Meio Ambiente
» Filosofia em Fatias
» Coletâneas Abralianas

Canais de Comunicação

» Fale conosco
» Inscrever-se no Projeto
» Mural de Mensagens
» Informar falhas e/ou erros
» Sala de Chat

Google

Web

www.abrali.com

                 Literatura de Cordel

Mais deste Autor Voltar à página índice de Cordel

Minhas Origens

  

Ao sul do Ceará, em fértil vale,

Dos cariris antiga moradia,

Fica a cidade onde nasci um dia

Do mês de março, é essencial que fale

 

Que fui gestado estando o mundo em guerra,

E que nasci no ano do armistício,

Não era ainda equinócio, mas o solstício

Estava no seu fim em nossa Terra.

 

Criei-me livre como os passarinhos,

Vaguei nos montes onde as brisas vagam,

E elas me afagaram, como afagam

As finas plumas que alcatifam os ninhos.

 

Banhe-me nas nascentes e olhos d’água

Que gorgolejavam entre rochas vivas,

Alimentei-me das frutas nativas,

Ignorando da canícula a frágua.

 

Banhei-me no riacho cristalino

Que todos por aí chamavam “rio”

Mas que ante o verão virava um “fio”

Fino filete de água; cristalino

 

Quantos amigos tinham então

...e todos juntos íamos

Caçar, pescar, brincávamos, corríamos,

E na escola fazíamos a lição.

 

Da mesma geração, de ruas circundantes,

Filhos do que amigos de infância,

Cresceram ali, casaram, e com jactância

Contavam antigas loas, a nós, infantes.

 

Éramos quase irmãos de peles diferentes,

...Não eram nossos pais antigos companheiros ?

E nossos bisavós dali os pioneiros ?

E ali nossos avós crianças como a gente ?

 

Não tínhamos igual o amor pela terra ?

Não tinham os folguedos origens iguais ?

E as cantigas de roda não a faziam tais

As moças da cidade, assim como as da serra ?

 

Não sabíamos todos as mesmas orações ?

Não eram os mesmos os hinos que cantávamos ?

E em qualquer escola onde estudávamos

Não eram os mesmos os livros e as lições ?

 

No meu pensar ingênuo assim eu via,

Tanta felicidade imaginária,

Própria da inocente faixa etária,

E do meio infantil onde vivia.

 

Tirou-me do estágio onde estava

Estacionária a alma de criança,

O ler nos rosto a desesperança,

E o cinzento da seca que chegava.

 

O reflexo da mesma se fazia

Presente, e a miséria era ampliada

E mesmo onde jamais faltava nada,

Assustadora, ela cruel batia.

 

Em nossa casa, ela sorrateira

Como quem nada quer, veio chegando,

O pouco que restava dizimando,

E nunca mais pudemos ir a feira.

 

Pelas ruas os bandos de flagelados,

Vagavam tristes, aleatoriamente

Trazendo nos olhares a dor pungente

Daqueles que se sentem condenados.

 

As notícias dos saques perpetrados

Por famintos em vilas e cidades,

De reações e de barbaridades,

E de homens feridos e trucidados

 

Formaram-se então bando de varredores

Limpando ruas a troco de comida

Na ânsia de salvar a própria vida

Se invertiam todos os valores.

 

Eu era jovem, quase uma criança,

A tudo observava, tudo via,

Confesso hoje, que também sentia

Ir-se de mim o resto de esperança

 

Meu pai já não ganhava o sustento

Para a imensa prole que gerara,

Sua esperança ao certo esgotara

E se minguara todo seu alento.

 

Para aumentar a nossa desventura

Nosso poço secou, ficou só lama,

Bem cedo pai foi me tirar da cama

E pôs-me lá a cavar a terra dura.

 

Desceu-me numa corda, e eu raspava

A lama, e na lata atada à corda

De cima ele puxava até a borda

E a pouca distância à despejava.

 

Após limpar a lama, o barro duro

Se expôs, e comecei a cava-lo,

E no terrível afã de aprofunda-lo

Também me revesti de barro puro.

 

Depois de duas horas de labuta

Meu pai tirou-me, pois chegava a hora

De trabalhar, e ele ia embora,

Abrir sua oficina, sua luta.

 

No outro dia mal rompeu a aurora

Pai novamente veio e acordou-me

E novamente a velha corda atou-me

Desceu-me ao poço, escuro aquela hora.

 

Com vários dias de duro trabalho,

O velho poço muito aprofundamos

Grande foi o sucesso que logramos,

Deu água farta e pura como orvalho.

 

Andar nos brejos, observar a vida

Que em milhões de formas fervilhava

E a passarada que ali revoava

A e vegetação tão colorida

 

Era uma coisa que eu adorava,

E conhecia bem a região,

Já vira antes o brejo no verão,

Sabia que a terra ali rachava.

 

Mas juro; jamais antes vira nada

Igual aquilo que agora via

Uma terra crestada e que fedia

De ossos e de carcaças atapetada.

 

De vivo ali já não se via nada,

Pois i próprio vergel era cinzento,

Nada de verde havia, e um jumento

Estertorava à beira da estrada.

 

De verde só alguns mandacarus,

Ou alguma outra árvore resistente

A terra emanava um bafio quente

E no céu só se viam os urubus

 

Perambulei na terra devastada

Cheguei ao rio que agora cortado

Se dividia em poços isolados

Cercados de imensa passarada.

 

Segui pois margeando o leito seco

Daquele rio onde sempre nadava

A indiscritível mágoa me entalava

E eu arfava em busca de ar fresco

 

Num arrozal, na várzea que crestava

Ao sol, um homem num esforço ingente

Bombeava a água ainda existente

De um poço do rio que secava.

 

Ali vi a cena impressionante

Que tocou minha alma de criança

A e gravei de tal forma na lembrança

Que hoje a revejo a cada instante.

 

Pois em toda área humidificada

Pela água que ele bombeava

Uma multidão de aves disputava

Para pousar sobre a terra molhada.

 

Carcarás, gaviões, garças, socós,

Avoantes, rolinhas, bem-te-vis,

Marrecas, abrem-e-fecham, jurutis,

Entre urubus, e vi também mocós.

 

Carcarás eram os que mais haviam,

E uma coisa chamou-me a atenção

Embevecido, com um ramo na mão,

Andei entre eles, que não me temiam.

 

Parecia uma estória de Trancoso,

E que a paz fôra ali decretada,

Pois nem os bichos nem a passarada

Me via como algo perigoso.

 

Voltei ali algum tempo passado,

Do arrozal já nada mais restava

De luz ondulações da terra levantava,

E estava todo o solo esturricado

 

Muitas das aves que ali bebiam

Dali não mais saíram, não voaram

Suas ossadas brancas ali ficaram

E em meio a outras tantas, lá jaziam.

 

Depois da grande seca a decadência

Nos atingiu de modo irreversível

Embora nós fizéssemos o possível,

Nunca mais conhecemos a abundância.

 

Então meu pai talvez esperançoso

Partiu de lá em busca de melhora,

Preparou sua mala e foi embora,

Nosso destino ficou nebuloso.

 

Comecei a trabalhar e o ganhava,

Entregava a mamãe (como era pouco!)

Trabalhei noite e dia, como um louco

Mas meu esforço pouco adiantava

 

Só Juarez e eu ali ficamos,

Além de mãe e mais quatro crianças,

Como eram poucas nossas esperanças,

Como foi dura a luta que enfrentamos.

 

Pai só veio uma vez nos visitar

( com grosso bigode que jamais usara )

atravessando a praça, ao longe o avistara,

achei-o parecido, corri a confirmar.

 

Demorou pouco, viera a buscar-me,

Mamãe não permitiu, voltou sozinho

Atravessei o brejo, e lá no salgadinho

Chorei desesperado por ele deixar-me

 

Decidi-me a segui-lo, iria a Canindé,

Iria lá fugido, já que não deixavam,

Lembrei-me dos antigos, como viajavam

E decidi que iria, ainda que fosse a pé.

 

Olhei nos mapas os riscos das estradas,

O traçado dos rios e riachos

Admirei os antigos “cabras-machos”

Que tangiam as mulas carregadas.

 

Que venciam as léguas empoeiradas

( Isto meu próprio avô muito fizera )

Sem caminhões ou trens, naquela era

Eram as coisas em comboios transportadas.

 

Sonhei noites seguidas, que foragido

Descia para o mar, seguindo o rio,

Quanta aventura, quanto desafio,

Ganhava do “Karl May” que havia lido.

 

Mas foi de trem que acabei partindo

E o destino traçou-me outro caminho,

Não fui a Canindé, pai ficou lá sozinho

E em Fortaleza fiquei residindo.

 

Já mais de quatro décadas se passaram

Mas as vívidas lembranças que me habitam

Na memória e nos sonhos ressuscitam

Os quadros que então meus olhos fitaram



Mestre Egídio

Francisco Egídio Aires Campos
© Todos Direitos Reservados
     

Mais deste Autor Voltar à página índice de Cordel
        
 

 

 

         

   

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

contador, formmail cgi, recursos de e-mail gratis para web site