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Há
alguns dias, meu amigo Domingos publicou um poema sobre seu Pai já falecido.
Emocionei-me ao lê-lo.
enviei
ao Domingos um Longo E-mail falando sobre meu próprio Pai, a quem eu muito
amava e morreu entre meus braços.
Hoje,
republico aqui este poema que escrevi há muito tempo, para que os novos amigos
o conheçam. alguns veteranos já o leram. (espero que releiam)
CONVERSA
COM MEU PAI.
Lembras-te
pai, do tempo das caçadas ?
Sei
que tu lembras, quem esqueceria ?
Ansiosos
dias antecediam o dia,
E
a madrugada, longas madrugadas.
Nós
as crianças, cordas desfiávamos,
Fazíamos
do sisal as buchas de espingardas,
Bolinhas
todas iguais, nas palmas enroladas,
E
após tê-las bastantes, nos bornais guardávamos.
Na
noite, a véspera, lembras pai ? ainda...
Mãe
ficava até tarde na cozinha
Preparando
a farofa de galinha,
Que
era o farnel...ei pai, tu lembras ainda ?
A
noite ainda escura, e a azafama,
Mãe
sempre nestes dias, cedo estava em pé,
Fazia
tapiocas, e o cheiro do café,
Era
uma força extra a nos tirar da cama.
Quando
além, no horizonte a barra mal surgia,
Espalhavam-se
no ar os acordes plangentes,
De
maviosa valsa em tons crescentes,
Como
uma saudação ao novo dia.
Vinha
lá da matriz, da torre encima,
Reverberar
na urbe, o som possante
Da
boca poderosa do alto-falante
Ao
toque magistral do José Lima,
Ao
matinal crepúsculo saíamos,
Eu
era ao teu lado, pai, a pura euforia,
Que
lindo para mim era o raiar do dia,
As
cercas de aveloz ladeando o caminho,
Depois
o vadear do rio salgadinho,
De
mansa correnteza, e água tão gelada,
Que
eu achava lindo, assim, de madrugada,
Gritando
de alegria ao ver algum peixinho.
Chegando
a algum lugar tranqüilo e aprazível,
Sentavas-te
à sombra, e armados de espingardas,
Seguiam
os manos em suas caçadas,
E
eu por ser criança ficava contigo,
Gozando
tua presença, a salvo do perigo,
Com
a minha baladeira atirava pedrinhas,
Comia
quando em vez, pedaços de galinhas,
Que
tu me davas, pai, (como eras bom comigo)
Mas
mesmo ali, tranqüilo e acomodado,
À
tua moda tu também caçavas,
Com
tiros infalíveis, fulminantes,
Fossem
socós, rolinhas ou avoantes,
Que
buscassem abrigo na ramada
Dentro
do alcance de tua espingarda,
E
eu iria buscá-las em instantes.
Hoje
não há mais nada pai,
Hoje
mais nada existe,
Se
andasses por lá irias ficar triste,
A
visão que se tem, olhando lá do horto,
E
que na região tá tudo morto,
Como
um lugar ermo e desolado,
Um
campo de batalha arrasado,
Tá
tudo morto! Pai; morto! morto!
E
a tua garrucha, pai ?
Como
eu a achava bela...
Alimentava
o sonho de atirar com ela
...
um dia numa caçada, talvez adivinhando
Aquele
sonho meu, qu’eu vinha alimentando
Puseste-a
em minhas mãos, eu tremi ansioso,
Tu
me recomendaste: “seja cuidadoso!”
Nunca
aponte a ninguém, ainda que desarmada,
Deve
sempre supor que esteja carregada,
Lembra
pai ? lembra ? lembra ?
Foi
lá nos “carás”, nas grandes pedras pretas,
Tua
bela garrucha, como as escopetas,
Tinha
o cano curto e reforçado,
Do
lado da culatra ele era sextavado,
O
guarda mato e o cão eram de bronze fundido,
Toda
a coronha era jatobá polido.
Deitei
na rocha negra e lisa, emborcado,
Ambas
as mãos seguras firmemente
Na
coronha da arma, e esta a frente
Apontava,
certas concavidades que haviam,
Na
rocha, cheias d’água, onde bebiam
Matando
suas sedes, as vítimas inocentes
Matávamos
sem dó nem piedade,
Sentíamos
prazer nesta perversidade.
(Hoje
não o faríamos, pai, estamos diferentes!)
Acossada
pela sede uma avoante,
Sentou
a beira d’água e num instante,
Detonei
a garrucha... que estampido!
Pelo
recuo violento fui impelido
Para
trás, no declive escorregando
Fui
entre duas rochas projetado,
Por
ti e Mané Vicente fui tirado...
Lembras
pai ?? podia Ter morrido!
E
dos serões pai, lembra ?
Eu
lembro todo dia...
Se
pudesse voltar eu voltaria,
Tinha
prazer de trabalhar contigo
Tu
eras realmente meu amigo,
Tu
nunca me ofendeste ou maltratastes,
Exerço
a profissão que me ensinaste
E
os meus filhos a aprenderam comigo.
Comigo
estás pai, embora não te veja,
Sinto
tua presença benfazeja,
E
por ti tenho um amor sem medida,
A
minha vida pai, com tua vida,
É
uma vida só entrelaçada
Em
cada obra que eu faço é projetada
A
tua arte, o âmago da minha arte,
Pois
na íntegra de ti foi aprendida.
Ao
fim da vida caso haja outra vida,
Espero
encontrar-te a esperar-me,
Assim
continuarás a ensinar-me
A
tua experiência adquirida,
Te
contarei as minhas aventuras,
Os
risos, as alegrias e as agruras
Da
minha própria vida bem vivida.
.................Benção,
pai!
........Também
Deus te abençoe...
Se
ti fiz algum mal, te peço, me perdoe,
.........................Até
lá!
Teu
filho, Egídio.
Mestre Egídio
Francisco Egídio Aires Campos
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