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(vale a pena ler)
1
No
interior do Nordeste
vivia
um homem decente,
honesto
e trabalhador,
sempre
disposto e valente,
era
filho de um doutor
que
em uma escrava o gerou,
seu
nome: ManoelVicente.
2
Seu
pai era um homem bom,
por
isto o reconheceu,
sua
mãe alforriou
no
dia que ele nasceu,
deu-lhe
nome e o batizou
e
herança lhe deixou
legada
quando morreu.
3
Cresceu
ao lado do pai
a
quem por prazer servia,
pois
este nunca o deixara
padecer
na enxovia,
sua
mãe também livrara
e
isto era coisa rara
que
quase nunca se via.
4
Sua
mãe alforriada,
trabalhava
por prazer,
não
morava na senzala,
seu
pai mandara fazer
uma
casinha para ela
e
eles moravam nela
sem
ninguém os aborrecer.
5
A
senhora da fazenda,
a
esposa do doutor,
embora
não reclamasse
prá
não perder seu amor,
vivia
em grande desgosto
trazendo
sempre no rosto
a
marca da sua dor.
6
Ela
lhe dera dois filhos,
Leonora
e Deodato,
que
eram p’rás leis de então
únicos
filhos de fato,
Manoel
Vicente, O bastardo,
pesava-lhes
como um fardo
e
era dos três odiado.
7
Muito
embora o doutor fosse
querido
na região,
um
desafeto político
que
perdera uma eleição,
mandara
alguém o emboscar
e
friamente o matar
a
tiros de mosquetão.
8
Quando
chegou a notícia
deste
vil assassinato,
a
viúva do doutor
chamou
o filho Deodato
porque
achou mais urgente
livrar-se
de Manoel Vicente
do
que apurar o fato.
9
Manoel
Vicente ao saber,
do
que ao pai acontecera,
e
que também já tramavam
toda
a sua desgraceira
de
caçarem-lhes o naminão
devolvendo-os
a escravidão,
ele
e a mãe, esta primeira.
10
A
escravidão grassava
por
este brasil afora,
e
ele embora mulato
desta
dor vivia fora,
pois
era livre de fato
e
por seu desiderato
resolveu-se
ir-se embora.
11
Juntou
as coisas que tinha,
duas
mulas carregou,
arriou
a égua mansa
nela
sua mãe montou,
juntou
armas e munição
e
encheu o matulão
com
a prata que amealhou.
12
Cavalgaram
toda a noite
e
ao romper a madrugada
conseguiram
alcançar
o
começo da chapada
e
duas horas depois
estavam
chegando os dois
a
cabana abandonada.
13
Instalou
lá sua mãe
e
falou que ia voltar,
e
descobrir quem mandara
ao
amado pai matar,
pois
fora um homem decente
morto
tão covardemente,
o
haveria de vingar.
14
Voltou
por outro caminho
temendo
uma emboscada,
sabia
que a madrasta
já
estava preparada
com
instinto de animal
a
fazer-lhes qualquer mal
pelos
filhos ajudada.
15
E
ele tinha razão,
pois
mal o dia raiara,
três
sujeitos a mando dela,
fazendo
o que ordenara,
foram
a casa da rival
dispostos
a qualquer mal,
da
casa nada sobrara.
16
pelo
o plano da megera,
eles
deveriam achar
a
preta e seu bastardo
e
aos dois, executar
e
a casa com os corpos dentro
sem
hesitar um momento
meter
fogo e os queimar.
17
Como
não os encontraram
queimaram
a casa assim mesmo,
tudo
transformou-se em cinzas,
mas
deram a viajem a esmo,
pois
a ordem era encontrar
mãe
e filho e os matar
e
transforma-los em torresmo.
18
Manoel
Vicente passou
direto
para a cidade,
foi
procurar o juiz
que
tinha grande amizade
pelo
pai assassinado;
por
te grande probidade.
19
em
lá chegando, o juiz,
o
recebeu muito bem,
falou
que estava pensando
em
vingar seu pai também,
disse
que o ajudaria,
toda
informação daria
e
ainda iria além.
20
pois
a ele entregaria
o
que o pai lhe legara,
duas
mil libras esterlinas
que
em suas mãos confiara,
prá
que se acaso morresse
Manoel
as recebesse
como
herança que deixara.
21
o
juiz lhe explicou
que
aquela situação
se
gerara na fazenda
do
coronel Militão,
político
mal sucedido
que
acoitava bandido
e
apadrinhava ladrão.
22
Manoel
Vicente teria
que
pegar e espremer,
um
jagunço da fazenda
e
fazer ele dizer
quem
seria o “pau mandado”
que
ao pai tinha emboscado,
ir
atrás e o prender.
23
depois
dele confessar
a
culpa do Militão,
que
jamais seria preso
que
fosse culpado ou não,
Manoel
Vicente agiria,
e
o coronel pagaria
sua
grande traição.
24
o
juiz mandou um homem,
bem
armado prá chapada,
proteger
a sua mãe
na
cabana abandonada,
com
ordem para matar
quem
quer que chegasse lá
procurando
a indigitada.
25
Manoel
Vicente ficou
tres
dias com o juiz,
no
quarto dia partiu
em
busca do infeliz
que
iria capturar
prá
depois interrogar,
foi
a noite porquê quis.
26
se
criara por ali,
conhecia
a região,
antes
que o dia raiasse
pôs-se
em uma elevação,
embaixo
de um umbuzeiro
dominando
sobranceiro
a
fazenda Militão.
27
passou
a manhã ali
vendo
todo movimento
viu
quem entrou e saiu
reparou
no armamento
que
a jagunçada usava,
viu
como ela se portava,
e
aguardou o momento.
28
às
duas horas da tarde
viu
chegar pela estrada
tocada
por seis vaqueiros
uma
pequena boiada
quando
um garrote espirrou,
e
em seu encalço galopou
um
vaqueiro em disparada.
29
o
garrote disparou
no
rumo do umbuzeiro
sob
o qual Manoel Vicente
esperava
o tempo inteiro
e
resolveu de repente
usar
de unhas e dentes
para
agarrar o vaqueiro.
30
o
garrote disparado
passou
bem à sua frente,
desceu
no mesmo galope
na
trazeira da vertente
com
o vaqueiro colado
certo
de o Ter apanhado
pois
nisto era competente.
31
mal
ele havia passado
Manoel
Vicente montou,
Pegou
seu laço de couro
E
a galope o acompanhou
Na
bargada de um serrote
Sem
que pegasse o garrote
Manoel
Vicente o laçou.
32
o
cavalo foi em frente
ele
caiu na poeira
Manoel
Vicente saltou
Já
sacando a lambedeira
E
no garguelo encostando
Foi
para o cabra falando:
_”Não
tente fazer besteira.
33
depois
de o Ter amarrado
foi
apanhar os cavalos.
Que
pararam mais à frente
Pois
já eram acostumados
A
esperar seus vaqueiros
Nos
trabalhos rotineiros
De
ferra e pega de gado
34
mandou
o cabra montar
e
andaram uma légua e meia,
chegou
a um morro de pedras
em
meio a catinga feia,
e
disse-o que se não falasse
na
hora que o interrogasse
ia
quebrá-lo na peia.
35
o
vaqueiro apavorou-se
com
sua situação
no
meio daquele ermo,
amarrado
e sem ação
nas
mãos do desconhecido
já
se sentia perdido,
não
teria salvação.
36
Manoel
Vicente falou:
_Me
escute bem ó sujeito
pra
sair daqui com vida
pra
você só tem um jeito;
dizer
o que quero ouvir
depois
eu o deixo ir
bom
de saúde e perfeito.
37
meu
nome é Manoel Vicente
filho
do Doutor Clemente
homem
bom, justo e honesto,
mas
morto covardemente
durante
uma emboscada
sem
chance de fazer nada;
embora
fosse inocente.
38
Quem
mandou a gente sabe,
Foi
teu dono, o Militão,
Mas
o que quero saber
É
o autor da ação,
O
cabra que o emboscou
E
por dinheiro o matou
A
tiros de mosquetão.
39
o
vaqueiro então falou:
_Não
me faça nenhum mal,
digo
tudo p’ro senhor,
foi
o preto Abdoral
escravo
de confiança
e
bem afeito a matança
ele
é como um animal.
40
sua
força é descomunal
dizem
que alui um cavalo,
derruba
touro a mãos nuas,
vai
ser difícil enfrentá-lo
pois
luta e atira bem
o
mais difícil porém
é
alguém captura-lo.
41
Manoel
Vicente falou:
_Este
aí ei já conheço
já
vi as suas façanhas
e
vou provar que mereço
de
ser filho de quem sou,
do
meu pai que ele matou
a
mim vai pagar o preço.
42
Depois
falou p’ro vaqueiro:
_Eu
não posso te soltar,
tu
vais pra casa correndo
mode
me denunciar,
e
atrapalha minha jogada,
não
vou poder fazer nada
e
nem meu pai vou vingar.
43
Mas
não quero te matar,
Nunca
me fizeste mal,
Quero
sim o Militão
E
o preto Abdoral,
Mas
isso até Deus consente,
Mataram
pai inocente,
Isto
é vingança carnal.
44
Escute
com atenção
O
que vou fazer porém,
Vou
atar tua vida à minha,
Pois
não te quero mal nem bem,
Vou
te deixar amarrado
E
vou atrás do safado;
Se
eu morrer, morres também.
45
Mas
caso eu mate os dois
Eu
volto pra te soltar,
Deixo
a cabaça d’água,
Também
vou te alimentar
Deixo
comida demais
Se
pego os dois animais
Eu
volto prá te soltar.
46
Sob
um pé de cajarana
Que
crescera isolado,
Manoel
deitou o vaqueiro
Junto
do tronco, emborcado,
Com
as pernas o abarcando
Qual
se tivesse montando
E
atou os pés do outro lado.
47
Tendo-o
no pau escanchado
Com
a barriga no chão,
Molhou
o couro do laço
E
fez uma amarração
No
pescoço e esticou
Do
outro lado amarrou
Depois
soltou-lhe uma mão
48
Um
nó em laço de couro
Ninguém
pode desatar
Os
pés atados um no outro
Não
tinha como alcançar
Ficou
lá o desgraçado
Na
cajarana amarrado
E
começou a chorar.
49
Manoel
Vicente sabia,
Que
Abdoral costumava
Ir
sempre à cidade às sextas,
E
que lá se embriagava,
Brigava
nos lupanares,
Quebrava
coisas nos bares
Mas
ninguém o molestava.
50
A
fazenda Militão
Da
cidade era distante
Légua
e meia bem medida,
E
a estrada serpenteante,
Varava
grotas e serras,
Manoel
foi naquelas terras
Tocaiar
o meliante.
51
Na
Sexta pela manhã,
Andou
por lá e estudou
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