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                 Literatura de Cordel

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Um verdadeiro Romance de Cordel  (pág. 01)
A HISTÓRIA DE MANOEL VICENTE
PAI DE MARIA APARECIDA. 1998 

 
(vale a pena ler)

  

1

No interior do Nordeste

vivia um homem decente,

honesto e trabalhador,

sempre disposto e valente,

era filho de um doutor

que em uma escrava o gerou,

seu nome: ManoelVicente.

2

Seu pai era um homem bom,

por isto o reconheceu,

sua mãe alforriou

no dia que ele nasceu,

deu-lhe nome e o batizou

e herança lhe deixou

legada quando morreu.

3

Cresceu ao lado do pai

a quem por prazer servia,

pois este nunca o deixara

padecer na enxovia,

sua mãe também livrara

e isto era coisa rara

que quase nunca se via.

4

Sua mãe alforriada,

trabalhava por prazer,

não morava na senzala,

seu pai mandara fazer

uma casinha para ela

e eles moravam nela

sem ninguém os aborrecer.

5

A senhora da fazenda,

a esposa do doutor,

embora não reclamasse

prá não perder seu amor,

vivia em grande desgosto

trazendo sempre no rosto

a marca da sua dor.

 

6

Ela lhe dera dois filhos,

Leonora e Deodato,

que eram p’rás leis de então

únicos filhos de fato,

Manoel Vicente, O bastardo,

pesava-lhes como um fardo

e era dos três odiado.

7

Muito embora o doutor fosse

querido na região,

um desafeto político

que perdera uma eleição,

mandara alguém o emboscar

e friamente o matar

a tiros de mosquetão.

8

Quando chegou a notícia

deste vil assassinato,

a viúva do doutor

chamou o filho Deodato

porque achou mais urgente

livrar-se de Manoel Vicente

do que apurar o fato.

9

Manoel Vicente ao saber,

do que ao pai acontecera,

e que também já tramavam

toda a sua desgraceira

de caçarem-lhes o naminão

devolvendo-os a escravidão,

ele e a mãe, esta primeira.

10

A escravidão grassava

por este brasil afora,

e ele embora mulato

desta dor vivia fora,

pois era livre de fato

e por seu desiderato

resolveu-se ir-se embora.

 

11

Juntou as coisas que tinha,

duas mulas carregou,

arriou a égua mansa

nela sua mãe montou,

juntou armas e munição

e encheu o matulão

com a prata que amealhou.

12

Cavalgaram toda a noite

e ao romper a madrugada

conseguiram alcançar

o começo da chapada

e duas horas depois

estavam chegando os dois

a cabana abandonada.

13

Instalou lá sua mãe

e falou que ia voltar,

e descobrir quem mandara

ao amado pai matar,

pois fora um homem decente

morto tão covardemente,

o haveria de vingar.

14

Voltou por outro caminho

temendo uma emboscada,

sabia que a madrasta

já estava preparada

com instinto de animal

a fazer-lhes qualquer mal

pelos filhos ajudada.

15

E ele tinha razão,

pois mal o dia raiara,

três sujeitos a mando dela,

fazendo o que ordenara,

foram a casa da rival

dispostos a qualquer mal,

da casa nada sobrara.

 

 

16

pelo o plano da megera,

eles deveriam achar

a preta e seu bastardo

e aos dois, executar

e a casa com os corpos dentro

sem hesitar um momento

meter fogo e os queimar.

17

Como não os encontraram

queimaram a casa assim mesmo,

tudo transformou-se em cinzas,

mas deram a viajem a esmo,

pois a ordem era encontrar

mãe e filho e os matar

e transforma-los em torresmo.

18

Manoel Vicente passou

direto para a cidade,

foi procurar o juiz

que tinha grande amizade

pelo pai assassinado;

por te grande probidade.

19

em lá chegando, o juiz,

o recebeu muito bem,

falou que estava pensando

em vingar seu pai também,

disse que o ajudaria,

toda informação daria

e ainda iria além.

20

pois a ele entregaria

o que o pai lhe legara,

duas mil libras esterlinas

que em suas mãos confiara,

prá que se acaso morresse

Manoel as recebesse

como herança que deixara.

 

 

21

o juiz lhe explicou

que aquela situação

se gerara na fazenda

do coronel Militão,

político mal sucedido

que acoitava bandido

e apadrinhava ladrão.

22

Manoel Vicente teria

que pegar e espremer,

um jagunço da fazenda

e fazer ele dizer

quem seria o “pau mandado”

que ao pai tinha emboscado,

ir atrás e o prender.

23

depois dele confessar

a culpa do Militão,

que jamais seria preso

que fosse culpado ou não,

Manoel Vicente agiria,

e o coronel pagaria

sua grande traição.

24

o juiz mandou um homem,

bem armado prá chapada,

proteger a sua mãe

na cabana abandonada,

com ordem para matar

quem quer que chegasse lá

procurando a indigitada.

25

Manoel Vicente ficou

tres dias com o juiz,

no quarto dia partiu

em busca do infeliz

que iria capturar

prá depois interrogar,

foi a noite porquê quis.

26

se criara por ali,

conhecia a região,

antes que o dia raiasse

pôs-se em uma elevação,

embaixo de um umbuzeiro

dominando sobranceiro

a fazenda Militão.

27

passou a manhã ali

vendo todo movimento

viu quem entrou e saiu

reparou no armamento

que a jagunçada usava,

viu como ela se portava,

e aguardou o momento.

28

às duas horas da tarde

viu chegar pela estrada

tocada por seis vaqueiros

uma pequena boiada

quando um garrote espirrou,

e em seu encalço galopou

um vaqueiro em disparada.

29

o garrote disparou

no rumo do umbuzeiro

sob o qual Manoel Vicente

esperava o tempo inteiro

e resolveu de repente

usar de unhas e dentes

para agarrar o vaqueiro.

30

o garrote disparado

passou bem à sua frente,

desceu no mesmo galope

na trazeira da vertente

com o vaqueiro colado

certo de o Ter apanhado

pois nisto era competente.

 

31

mal ele havia passado

Manoel Vicente montou,

Pegou seu laço de couro

E a galope o acompanhou

Na bargada de um serrote

Sem que pegasse o garrote

Manoel Vicente o laçou.

32

o cavalo foi em frente

ele caiu na poeira

Manoel Vicente saltou

Já sacando a lambedeira

E no garguelo encostando

Foi para o cabra falando:

_”Não tente fazer besteira.

33

depois de o Ter amarrado

foi apanhar os cavalos.

Que pararam mais à frente

Pois já eram acostumados

A esperar seus vaqueiros

Nos trabalhos rotineiros

De ferra e pega de gado

34

mandou o cabra montar

e andaram uma légua e meia,

chegou a um morro de pedras

em meio a catinga feia,

e disse-o que se não falasse

na hora que o interrogasse

ia quebrá-lo na peia.

35

o vaqueiro apavorou-se

com sua situação

no meio daquele ermo,

amarrado e sem ação

nas mãos do desconhecido

já se sentia perdido,

não teria salvação.

 

36

Manoel Vicente falou:

_Me escute bem ó sujeito

pra sair daqui com vida

pra você só tem um jeito;

dizer o que quero ouvir

depois eu o deixo ir

bom de saúde e perfeito.

37

meu nome é Manoel Vicente

filho do Doutor Clemente

homem bom, justo e honesto,

mas morto covardemente

durante uma emboscada

sem chance de fazer nada;

embora fosse inocente.

38

Quem mandou a gente sabe,

Foi teu dono, o Militão,

Mas o que quero saber

É o autor da ação,

O cabra que o emboscou

E por dinheiro o matou

A tiros de mosquetão.

39

o vaqueiro então falou:

_Não me faça nenhum mal,

digo tudo p’ro senhor,

foi o preto Abdoral

escravo de confiança

e bem afeito a matança

ele é como um animal.

40

sua força é descomunal

dizem que alui um cavalo,

derruba touro a mãos nuas,

vai ser difícil enfrentá-lo

pois luta e atira bem

o mais difícil porém

é alguém captura-lo.

 

41

Manoel Vicente falou:

_Este aí ei já conheço

já vi as suas façanhas

e vou provar que mereço

de ser filho de quem sou,

do meu pai que ele matou

a mim vai pagar o preço.

42

Depois falou p’ro vaqueiro:

_Eu não posso te soltar,

tu vais pra casa correndo

mode me denunciar,

e atrapalha minha jogada,

não vou poder fazer nada

e nem meu pai vou vingar.

43

Mas não quero te matar,

Nunca me fizeste mal,

Quero sim o Militão

E o preto Abdoral,

Mas isso até Deus consente,

Mataram pai inocente,

Isto é vingança carnal.

44

Escute com atenção

O que vou fazer porém,

Vou atar tua vida à minha,

Pois não te quero mal nem bem,

Vou te deixar amarrado

E vou atrás do safado;

Se eu morrer, morres também.

45

Mas caso eu mate os dois

Eu volto pra te soltar,

Deixo a cabaça d’água,

Também vou te alimentar

Deixo comida demais

Se pego os dois animais

Eu volto prá te soltar.

 

46

Sob um pé de cajarana

Que crescera isolado,

Manoel deitou o vaqueiro

Junto do tronco, emborcado,

Com as pernas o abarcando

Qual se tivesse montando

E atou os pés do outro lado.

47

Tendo-o no pau escanchado

Com a barriga no chão,

Molhou o couro do laço

E fez uma amarração

No pescoço e esticou

Do outro lado amarrou

Depois soltou-lhe uma mão

48

Um nó em laço de couro

Ninguém pode desatar

Os pés atados um no outro

Não tinha como alcançar

Ficou lá o desgraçado

Na cajarana amarrado

E começou a chorar.

49

Manoel Vicente sabia,

Que Abdoral costumava

Ir sempre à cidade às sextas,

E que lá se embriagava,

Brigava nos lupanares,

Quebrava coisas nos bares

Mas ninguém o molestava.

50

A fazenda Militão

Da cidade era distante

Légua e meia bem medida,

E a estrada serpenteante,

Varava grotas e serras,

Manoel foi naquelas terras

Tocaiar o meliante.

 

51

Na Sexta pela manhã,

Andou por lá e estudou