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                 Literatura de Cordel

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Zigfeld Nepomuceno

  
(Peço humildemente aos "intelectualóide" de plantão, que não percam tempo em me enviar E-mail’s comentado erros desta obra. Ela não é uma aula de português, nem tem outra pretensão se não a de contar uma historieta de ficção, no mais puro cordel nordestino.)

 

Pequeno livreto onde se conta a história Do atemporal

 

ZIGFELD NEPOMUCENO

Misto de intelectual e jagunço Pernambucano.

 

 

I

Que se cale a musa antiga,

Sobre Gregos e Troianos.

Não cante também Camões

Os feitos dos Lusitanos,

Vergílio não leve a mal

Falarei do Maioral

De todos pernambucanos.

II

Zigfeld Nepomuceno

Foi o nome que lhe deram

E os outros homens do mundo

Entre os grandes que houveram

Nenhum foi igual a ele,

Contarei a vida dele

Do jeito que me disseram.

III

Num dia qualquer do ano,

Não sei bem qual foi ao certo,

Numa certa madrugada,

Estando o céu encoberto,

Quando a alvorada vinha,

Nasceu lá na mustardinha

O seu filho mais esperto.

IV

Na sétima lua cheia,

Depois da maior minguante

Ecoou na madrugada

Longo grito lancinante,

Como a muito não se ouvia,

Era sua mãe que o paria

Naquela hora e instante.

V

O lugar onde habitava

Era uma humilde tapera,

De tabique e enchimento

E o seu telhado era

“Molestamente sinuoso”

Nenhum burro habilidoso

Faria uma igual a aquela.

VI

Chama-se Dagoberta

E jazia sem sentido

Tivera um desmaiamento

Logo após haver parido,

E seu marido Severino,

Por seu desejo ferino

A pouca havia saído.

VII

Ele fora atrás de doce

De jaca dura, e mamão,

Por que ela desejara

Nisto fechando questão,

E que o filho da Dagoberta

Nascesse de boca aberta

Ele não queria não.

VIII

Quando chegou encontrou

Dagoberta já parida,

Na sua rede deitada

Parecendo estar sem vida,

Lá, toda descambichada

Com aquela coisa encarnada

Por entre as pernas, metida.

IX

O menino parecia

Um filhote de gambá,

O levantou pelos pés

E bateu mode chorá

Mais o menino falou,

Severino desmaiou

Largando ele pra lá.

X

O que o menino falou

Foi: pare de me bater!

Não vê que estou respirando?

Pra que tanto me ofender?

Severino apavorado

Despencou de Cu trancado

Fazendo a casa tremer.

XI

Quando ele despertou

Ficou bastante espantado,

Pois o cordão umbilical

Já se achava amarrado,

O próprio menino o fez,

Para um feto de seis "mêiz",

Ele era mesmo avançado.

XII

A Dagoberta passou

Três dias sem acordar,

Do desmaio que tivera,

Quiseram até a enterrar,

Julgando houvesse morrido,

Mas Severino, o marido

Não deixou realizar.

XIII

Porquê apesar de inerte,

Respirava quando em vez,

Que ela se achava viva

Foi dedução que ele fez,

Porém ela melhorou

E seu resguardo guardou,

Como de costume, um mês.

XIV

Sei que estão curiosos

Sobre o nome do rebento,

Muito extranho: “Zigfeld”

Mas direi neste momento

Como o mesmo foi surgido,

E como foi escolhido

Antes do seu nascimento.

XV

Severino era engraxate

Dos melhores e esforçados,

O seu ponto era em frente

A câmara dos deputados,

Onde ouviu uma conversa

Que o interessou a beça

Entre alguns destes letrados.

XVI

Um deputado falava

Que ainda naquele dia

Uma grande bailarina,

Ana das “quantas” iria

No teatro apresentar,

Um balé bom de lascar

Que ele não perderia.

XVII

Falou que a companhia

Era Ruliudiana

Era de um tal “Zigfeld”

E que a bailarina Ana

Era a melhor do planeta,

E o espetáculo porrêta

Ia embora em uma semana.

XVIII

Quando ouviu “Zigfeld”

Severino estremeceu,

Tomando uma decisão

Que se o próximo filho seu

Fosse macho (que alegria)

Este nome lhe daria

E foi o que aconteceu.

XIX

Sua Infância começou

De forma surpreendente,

Em menos de um ano tinha

Um linguajar eloqüente,

Sobre tudo discorria,

E o muito que ele sabia

“abismava” toda gente.

XX

Cedo aprendeu a andar,

E mostrou aptidão

Para entender qualquer livro

Que lhe caísse na mão,

Aprendeu Russo e Francês,

Coreano e Japonês,

Ciríaco e alemão.

XXI

Era um grande autodidata,

Aprendia com presteza,

Qualquer revista ou jornal

Abria em riba da mesa,

E neles ia passeado,

Descia de lá falando

Com dicção e clareza.

XXII

Aos dois anos já sabia

O Inglês claro e fluente,

As línguas neolatinas

E as do velho continente,

As falava, tanto as modernas,

Como as de antigamente.

XXIII

De línguas mortas e vivas

Discorria e discursava,

Do médio ao alto oriente

Em todas elas falava;

O Copta, O Devanagari,

Do Banto do Kalahari

Até escrita inventava.

XXIV

Falava proto-Semítico,

Aramaico e Javanês,

E três mil Kataganás

Do Idioma Chinês,

E as Iraganás criadas

Mas pronúncias figuradas

Do moderno Japonês.

XXV

Falou Tupy-Guarany,

Relendo Zé de Anchieta,

E gramática Aramaica

Lendo a pedra da roseta,

E relendo Gil Vicente

Aprendeu fluentemente

A arcaico Lisboeta.

XXVI

O Português com origens

Do antigo Catalão,

Nas Odes de Dom Diniz,

Aprendeu em um serão,

E o Grego ele aprendeu

Quando no original leu

Toda obra de Platão.

XXVII

Aos vedas, os leu em sânscrito,

Em Iídiche, o Zed Avesta,

O Ramayana em Industani,

Numa edição modesta,

Pois do em Devanagarik

Redigido por Walmik.

Hoje já mais nada resta.

XXVIII

Assim ele foi crescendo

Em grande sabedoria,

Nas artes e profissões

Tudo que via aprendia,

Tentarei enumerar

Mas é difícil lembrar

Tudo quanto ele sabia.

XXIX

Só de olhar aprendeu

Carpina e marcenaria,

Aos oito anos já era

Perito em movelaria,

Ferreiro, ferramenteiro,

Calafate, foqueteiro,

E bom em funilaria.

XXX

Aprendeu lidar com tintas

Em todas as suas misturas,

Fez telas maravilhosas,

E também fez esculturas

De beleza estonteante,

Foi o “Thales” itinerante,

Do sertão, nestas alturas.

XXXI

Tinha habilidade nata

Para mecânica fina,

Aprendeu com João Galindo,

Relojoeiro da esquina,

Mas ao mestre superou

E muita coisa o ensinou

Melhorando sua sina.

XXXII

Estudando nutrição,

Aplicou em seu Proveito,

Mesmo nascido franzino

Transformou-se num sujeito

De compleição grande e forte

E tinha um altivo porte

Apesar de ser malfeito.

XXXIII

Quando ainda era menino

Seus pais mudaram prum morro

Pras bandas de cavaleiro,

Onde apanhou pra cachorro,

Sua aparência enojava,

Por isto o povo olhava

Mas não vinha em seu socorro.

XXXIV

Teve que aprender sozinho

O jogo da capoeira,

O que aprendeu olhando

As rodas no meio da feira,

depois virou a satanás,

E ninguém o viu jamais

Apanhando de bobeira.

XXXV

Quando ele ficou adulto

Tinha tal sabedoria

Como antes ninguém teve,

Nem depois dele teria,

Isto lhe deu poder tal

Que se tornou atemporal

Indo aonde bem queria.

XXXVI

O Conde de Saint-Germain

Perto dele era fichinha,

Mas ele não demostrava

O grande poder que tinha,

Comportava-se normalmente,

E foi morar novamente

No bairro da Mustardinha.

XXXVII

Adotou a indumentária

Que na época se usava,

Terno de brim, suspensórios,

Que como não abotoava

O paletó, todos os viam,

E as roupas pareciam

Que nunca alguém as engomava.

XXXVIII

Uns chapéus de abas largas,

De feltros, muito vistosos,

Os sapatos “schatamacchios”

Sempre bem limpos e lustrosos,

Tinha um lenço na lapela,

E no cinto uma fivela

De relevos primorosos.

XXXIX

Procurou ser apolítico

E não Ter religião.

Pois a todas conhecia

Tal qual a palma da mão,

Mas a ninguém demonstrava,

Por isto ele evitava

Travar qualquer discussão.

XL

Conhecia o Corão,

Até o interpretava,

A cosmogonia Védica,

A mitologia Eslava,

Também a Greco-Romana

E a seita Greco-Tebana

Que Epícuro professava.

XLI

Conhecia Zarastrusta,

Fô-Hi, Shidarta e Moisés,

As leis santas de Hamurabi,

O lendário Gilgamés,