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Filho da Natureza
©Almir Alves da Silva Filho



Eu sou filho do sertão

Sou a vida na secura

Sou vaqueiro e sou peão

Criado com rapadura

Comendo arroz com feijão

Só falta mesmo a cultura.

 

Sou alegre, sou liberto

Nada tenho a reclamar

Meu chão é quase deserto

O sol quente a me queimar

Mas meu coração aberto

Diz que aqui é o meu lugar.

 

Na seca, vejo o arroio

Sem ter água pra levar

No campo falta o aboio

Não há gado pra tocar

Mas depois vem o apoio

Que o céu não deixa faltar.

 

Já vi morrer meu roçado

Já vi mato cor de chão

Um curió desgarrado

Que perdeu sua direção

E um jacaré amuado

Por falta de habitação.

 

Sou Filho da Natureza

Sou mais forte que a dor

Deus me deu a fortaleza

Juntamente com o amor

Quando falta a correnteza

Tem por trás algum fator.

Eu sou filho do orvalho

Sou a água na ribeira

Um solitário canário

No alto da ribanceira

Eu sou o próprio fadário

De quem nasceu na poeira.

 

Sobre um chão esturricado

Meu labor é mato afora

Depois do café coado

Vou saindo, vou-me embora

Só tem gado, se tem prado

Mas quem sabe, faz a hora.



Eu sou filho da nascente

Que secou com o calor

Eu sou o som do Repente

Que fascina o Cantador

Eu sou do verso a semente

Que traz no estro o fulgor.

 

Eu sou a própria aridez

Onde a vida se entranhou

Resistente é minha tez

Que o sol já calejou

Se chover no outro mês

Valeu pra quem esperou.

 

Meu sertão, é minha sina

Eu sou parte do agreste

Aqui mi’a verve atina

Olhando de leste a oeste

Aqui o meu verso opina

Falou um Cabra da Peste.
   

  
Almir Alves da Silva Filho

© Todos Direitos Reservados
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