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Isso
foi há tantos anos,
Sendo
eu criança pequena,
Só
que não em Barbacena,
Mas
no interior paulista,
Onde
um cabra especialista,
No
manejo da dois canos,
Era
bom sem fazer cena.
Hoje
penso que foi pena
Ele
ter nascido pobre,
Já
que por falta de cobre
Nunca
ficou conhecido
Como
um Kid temido,
Ou
um Hércule na arena,
Mas
era honrado e nobre.
Por
mais que eu me desdobre,
Jamais
dele eu direi tudo,
Porquanto
ele era mudo
E
não podia escutar
Nem
um trovão ribombar,
Estourando
como um odre,
Naquele
som mais agudo.
Não
estou sendo papudo,
Nem
inventando lorota;
Isso
não é anedota
E
seu mal não tinha cura,
Só
que é verdade pura:
Mesmo
sendo um surdo-mudo,
Ele
era um poliglota.
Se
ninguém fé nisso bota,
Não
pode a culpa ser minha,
Porque
sei que ele tinha
A
pontaria certeira
E,
caçando na capoeira,
Atirando
de canhota,
Não
perdia uma rolinha.
Para
dizer a que vinha,
Um
caso aqui eu narro:
A
fêmea do João de Barro
Amava
o gavião traiçoeiro,
Ele
deu um tiro certeiro
E
ela caiu mortinha,
Sem
dar nem mesmo um pigarro.
Entre
um e outro cigarro,
Seu
trabuco estava armado,
Cotia,
onça ou veado
Se
debruçavam no chão,
Ante
o tiro de canhão,
E
ninguém tirava sarro
Do
caçador afamado.
Eu
ficava deslumbrado,
Porém
cheio de confiança
Que
um dia minha lança
Faria
igual proeza,
E
hoje tenho a destreza
Daquele
cabra calado,
Que
me deixou a herança.
Ele
era adulto, eu criança,
Mas
com interesse eu via
A
infalível pontaria
Desse
atirador de elite,
E
mesmo sem um convite,
Não
foi em vão a esperança
De
ser como ele um dia.
Mas
a minha alegria,
Nesse
tempo começando,
Consistia
em trepando
Nas
pitangueiras do prado,
Ou
então nadando pelado
Num
lago que lá havia,
Com
meu coração arfando.
Só
que o tempo foi passando,
Correndo
igual potro chucro,
E
aquele forte trabuco
Aos
poucos perdeu seu dom
E,
cada vez menos bom,
De
vez em quando falhando,
Deixou
seu dono maluco.
Na
verdade está caduco,
Lembrando
só do passado
Com
o pau de fogo apagado,
Mas
das façanhas que eu vi,
De
minha parte aprendi
Caçar
pomba e macuco
E
outros bichos no cerrado.
O
gatilho emperrado
Não
mais estoura uma bomba
E,
quem foi caçador de pomba,
Trazendo
cheio o bornal,
Já
não assusta pardal,
No
prego está pendurado,
Se
levanta, logo tomba.
No
entanto, aquele que zomba
Terá
um igual destino,
Pois
quem hoje é menino
Será
ancião amanhã
E,
ao perder o afã,
Não
vai mais erguer a tromba,
Nem
que lhe badale o sino.
Por
isso eu falo e opino
Que
a culpa não é dele,
Nós
seremos como ele,
Que
agora não dá mais tiro,
E
enquanto isso eu prefiro
Cuidar
do meu paladino,
Dando
um melhor trato nele.
Quando
conheci aquele
Que
só colheu a vitória,
Sem
dar mão à palmatória
E,
de cabeça erguida,
Nunca
teve em sua vida
O
mal de varicocele,
Só
achei que a vida era glória.
Vejo
agora que a história
Sequer
perdoou a Cervantes;
Pra
mim e meus semelhantes
Não
adianta chá de alho,
Se
o gatilho ficar falho,
Saberemos
de memória:
Jamais
será como antes.
Gabam-se
os ignorantes,
Achando
que o tempo espera,
Todavia,
a primavera
Inverno
se torna um dia,
Lavando
em água fria
Homens
de armas abrasantes...
O
gatilho, então, já era.
Benedito Generoso da Costa
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