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O Pai é um ex patrão



Eu já fui patrão um dia

E hoje sou empregado,

Vivo sem ter regalia,

Pelo dever sou forçado

A realizar o trabalho

Para o qual fui contratado.

 

Eu pego firme no malho

E bem cedo no batente,

Nem um só dia eu falho,

Labuto diariamente

Pra sustentar o patrão

Que é muito exigente.

 

Assim ganho o meu pão

Com o suor de meu rosto

E devo satisfação

A quem me deu este posto,

Para servi-lo, portanto,

Trabalho com muito gosto.

 

Embora eu não seja santo,

Cultivo um grande amor

Pelo dever sacrossanto

De ser um batalhador;

Pela causa do patrão

Morro se preciso for.

 

Se isso é uma paixão,

Não me considero fraco,

Pois sei que não luto em vão,

Tampouco sou puxa-saco,

Nesta causa me empenhei

E confio no meu taco.

 

Estou cumprindo uma lei

Chamada retribuição,

Jamais eu esquecerei

Que um dia fui patrão,

Isso não é privilégio

E sim um dever cristão.

 

Quem não aprende em colégio

Pelo mundo é instruído

A saber que é sacrilégio

Ser um mal agradecido,

Assim devo gratidão

Para meu patrão querido.

 

De meu pai eu fui patrão

Durante o tempo que estive

Sob a sua proteção,

Desse modo me mantive

Até a maioridade,

Quando deixei de ser livre.

 

Hoje lembro com saudade

Do tempo que atrás deixei,

Perdi minha liberdade

Logo assim que me casei

Para tornar-me empregado

Do filho que eu gerei.

 

Este é um dever sagrado,

Por isso não me apavora,

Eu trabalho de bom grado

Pra meu filho toda hora,

Dele eu sou simplesmente

Um empregado agora.

 

Um dia foi diferente,

Hoje minha sorte é esta,

Enquanto estou no batente,

O meu patrão só faz festa,

Vive só na mordomia,

Trabalhar é o que me resta.

 

Na lambança eu vivia

No tempo que fui patrão,

Hoje no meu dia-a-dia

O trabalho é solução,

Repete-se o estribilho,

Surge outra vez o refrão.

 

Eu era apenas um filho,

Agora também sou pai,

Avante sigo no trilho

Pelo qual longe se vai,

Um gemido ao caminhar

Do meu peito às vezes sai.

 

Sou o chefe de meu lar,

Por ele dou minha vida,

Não deixo nunca faltar

Para meu filho a comida,

Também lhe dou meu carinho

Com a alma agradecida.

 

Muitas vezes um espinho

Fere-me como um cravo,

Lembro então de meu paizinho,

Que lutou tal como um bravo;

Sei que um dia terá fim

Esta luta que ora travo.

 

A vida é mesmo assim,

Deixo claro a vocês,

Meu pai fez tudo por mim,

Agora é minha vez,

Pois o amor é um laço,

Ao meu filho hoje eu faço

O que ontem meu pai me fez.


Benedito Generoso da Costa

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