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  Celso Brasil

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Sardade da Solidão
© Celso Brasil - voz do autor

 
Eu num sô de proseá.
Mais é que hoje sonhei um sonho que lembrou de uns momento istranho que eu num queria lembrá.

Faiz uns ano na minha vida, que eu capinava o campo, olhando pr’aquela estrada bendita e vinha vindo uma muié caminhando. Larguei da enxada na hora, porque ela tava ali sozinha e era tão formosa... devia de mim precisá.

Convidei ela pra entrá pra dentro da casinha humirde, dei água pr’ela bebe, perguntei então das coisa e ela começo a contá. 
Tinha sido é largada, por isso tava na estrada sem lugá nem pra ficá.

Num trabaiei mais no dia. Mostrei minha roça verdinha, água boa que minava, o cavalo que eu montava e comida de sobrá.

Ela, então, foi ficando e nem preciso falá... meu coração foi ganhando, meu rancho fui dividindo, minha tristeza espantando, num tava mais um sozinho... sorrindo me pus a sonhá.

Agora vou faze mais roça, vou pra cidade bem prosa e pro meus cumpadi contá o que a vida me deu, pra mode me alegrá.

Uma muié bem formosa... não era daqui dessas banda... de bem longe ela vinha, falava esquisitinha e seu nome era Soledad. 
Era estrangera sim... não importava pra mim donde que ela vinha. 
Só sei que era feliz. Tinha umas coxa grossa, um sorriso parecido com a rosa que pr’ela prantei no jardim.

Contava umas estória istranha que nem criditava direito. 
Falava que amou só uma veiz e qu’isso machucou o seu peito. 
Mas agora era feliz comigo... qu’eu era trabaiadô, não bandido... e muié só qué coisa assim.

Vivi um tempo desse jeito, trabaiei certinho e direito e tudo era pra Soledad. Comia bem e vivia somente em cantoria. 
Num precisava e num tinha motivo pra se preocupá.

Um dia bem chuvoso, sai assim mesmo pra roça, porque a chuva era grossa e podia danificá. No meio daquela tromba, fiz acero a manhã toda até a chuva passá. Fiquei mais um bucadim, olhando cada prantação, me atrazei pro armoço, já tava até bem sequim e corri pra casinha então.

Onde tava minha amada? Cadê minha Soledad? Gritei pros quatro canto, seu nome bem arto e, num entanto, nada de ecoá.

Tomei um banho ligero, nem usei direito o sabão. E vi que nas gaveta num tava suas roupa não.

Todo atrapaiado, oiando pro outro lado, dispois daquela procura, no bule de café bem frio, no bico tinha um paper que me mato de amargura, que o zóio virou um rio.

Cabô cum meu coração.

Dizia era a verdade. Que num me amava desse tanto. Que eu era um bom sujeito. Essas coisa que é ruim,  só de lembrá causa pranto... nem dianta contá. Isso me dexo duente. A vida já num tinha graça. De homem feliz e contente, me entreguei todinho à cachaça. Dispois um dotô da cidade, amigo do cumpadi Tonhão, me disse que nos país estrangero os nome têm tradução.

Hoje, eu nem lembro direito... já faiz tempo essa ida... só sei que Soledad é argo como sardade o coisa paricida. Que dói e o peito arde. Vem e acaba com a vida.

Celso Brasil 
©
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