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Eu num sô de proseá.
Mais é que hoje sonhei um sonho que lembrou de uns momento istranho que eu num
queria lembrá.
Faiz
uns ano na minha vida, que eu capinava o campo, olhando pr’aquela estrada
bendita e vinha vindo uma muié caminhando. Larguei da enxada na hora, porque
ela tava ali sozinha e era tão formosa... devia de mim precisá.
Convidei
ela pra entrá pra dentro da casinha humirde, dei água pr’ela bebe, perguntei
então das coisa e ela começo a contá.
Tinha sido é largada, por isso tava na estrada sem lugá nem pra ficá.
Num
trabaiei mais no dia. Mostrei minha roça verdinha, água boa que minava, o
cavalo que eu montava e comida de sobrá.
Ela,
então, foi ficando e nem preciso falá... meu coração foi ganhando, meu
rancho fui dividindo, minha tristeza espantando, num tava mais um sozinho...
sorrindo me pus a sonhá.
Agora
vou faze mais roça, vou pra cidade bem prosa e pro meus cumpadi contá o que a
vida me deu, pra mode me alegrá.
Uma
muié bem formosa... não era daqui dessas banda... de bem longe ela vinha,
falava esquisitinha e seu nome era Soledad.
Era estrangera sim... não importava pra mim donde que ela vinha.
Só sei que era feliz. Tinha umas coxa grossa, um sorriso parecido com a rosa
que pr’ela prantei no jardim.
Contava
umas estória istranha que nem criditava direito.
Falava que amou só uma veiz e qu’isso machucou o seu peito.
Mas agora era feliz comigo... qu’eu era trabaiadô, não bandido... e muié
só qué coisa assim.
Vivi
um tempo desse jeito, trabaiei certinho e direito e tudo era pra Soledad. Comia
bem e vivia somente em cantoria.
Num precisava e num tinha motivo pra se preocupá.
Um
dia bem chuvoso, sai assim mesmo pra roça, porque a chuva era grossa e podia
danificá. No meio daquela tromba, fiz acero a manhã toda até a chuva passá.
Fiquei mais um bucadim, olhando cada prantação, me atrazei pro armoço, já
tava até bem sequim e corri pra casinha então.
Onde
tava minha amada? Cadê minha Soledad? Gritei pros quatro canto, seu nome bem
arto e, num entanto, nada de ecoá.
Tomei
um banho ligero, nem usei direito o sabão. E vi que nas gaveta num tava suas
roupa não.
Todo
atrapaiado, oiando pro outro lado, dispois daquela procura, no bule de café bem
frio, no bico tinha um paper que me mato de amargura, que o zóio virou um rio.
Cabô
cum meu coração.
Dizia
era a verdade. Que num me amava desse tanto. Que eu era um bom sujeito. Essas
coisa que é ruim, só de lembrá
causa pranto... nem dianta contá. Isso me dexo duente. A vida já num tinha
graça. De homem feliz e contente, me entreguei todinho à cachaça. Dispois um
dotô da cidade, amigo do cumpadi Tonhão, me disse que nos país estrangero os
nome têm tradução.
Hoje,
eu nem lembro direito... já faiz tempo essa ida... só sei que Soledad é argo
como sardade o coisa paricida. Que dói e o peito arde. Vem e acaba com a vida.
Celso
Brasil
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