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A PROPÓSITO DA BÍBLIA – Abordagem Ecumênica
(por Domingos Oliveira Medeiros)
A Bíblia é, na verdade, uma coleção de escritos antigos, que expressa, de um
lado, valores históricos relevantes, de uma época bem distante de nossos
tempos e, de outro, pela importância e valor religioso de que se revestem tais
fatos para a humanidade. Os títulos, Antigo e Novo Testamento, são usados
pelos cristãos para distinguir duas etapas na história da relação
estabelecida por Deus, entre ele e a humanidade. O Antigo Testamento, reunindo
etapas que abrangem mil anos que antecederam ao nascimento de Jesus de Nazaré.
E a parte restante, o chamado Novo Testamento, que foi escrito durante 100 anos
depois de sua morte.
Todos os cristãos, do mundo inteiro, e seus antepassados - , reverenciam o
Livro Santo: a Palavra de Deus, que contém a revelação de Seu amor por nós
no céu. “O povo judeu, fiel a tradição dos seus antepassados, crê que a
revelação de Deus está contida somente na primeira parte, que consiste na
Lei, nos Profetas e nos Escritos. Há, portanto, alguns entendimentos que,
embora pequenos, em relação ao todo, são divergentes em pelo menos quatro
diferentes tradições religiosas: a Católica, a Protestante, a Ortodoxa
(cristãos orientais) e a interpretação Judaica desta herança religiosa.
Vale registrar, que a lista (ou “cânon”) dos livros do Antigo Testamento
não é a mesma para todos. “Na divisão, os ESCRITOS, os judeus e
protestantes rejeitam certos livros que os católicos e ortodoxos aceitam como
canônicos. “A razão é que o cânon judaico foi fixado aproximadamente no
final do século I d.C., quando incluíram somente livros escritos em hebraico
(ou parcialmente em aramaico), que foram considerados como datados em tempos
não posterior a ESDRAS (século IV a. C.). Porém, três séculos antes, os
judeus em Egito traduziram os seus escritos sagrados ao grego, e esta coleção
grega (chamada os Setenta) incluiu sete livros e algumas seções de outros
livros que mais tarde foram rejeitados pelos rabinos na Palestina.
Por isso, os judeus e os protestantes chamam esses livros de “apócrifos”,
enquanto os católicos os chamam “deuterocanônicos”, isto é, que pertencem
ao segundo Cânon (grego). “Estes livros extras são TOBIAS, JUDITE, BEM SIRA
(Eclesiastes), SABEDORIA DE SALOMAO, BARUC e 1 e 2 MACABEUS; as seções extras
estão em DANIEL e em ESTER.”.
“Os primeiros cristãos usaram a tradução grega do Antigo testamento; os
católicos e os ortodoxos seguem esta tradição, aceitando, pois, estes livros
“extras” como parte da Escritura inspirada.” (O Antigo Testamento).
O novo tratado ou Testamento (O Novo Testamento), segundo a fé cristã, foi
estabelecido por Jesus de Nazaré através de sua morte e de sua ressurreição.
Este tratado foi oferecido a toda a humanidade, com a condição de ter fé nas
palavras do Redentor, enviado pelo Pai, que é o Senhor e Deus de Israel. O Seu
ministério na terra e a Sua revelação constam dos quatro evangelhos. O
restante dos livros do Novo Testamento tratam do testemunho e da experiência e
ensinamentos dos que se chamavam cristãos, “que puseram sua fé Nele como seu
Salvador”.
Estes primeiros cristão viviam em grupos de comunidades chamadas igrejas, que
juntas formavam a Igreja cristã. Tinham o Antigo Testamento como escritos
sagrados, , o qual narrava “o tratamento de Deus com Israel e profetizava a
obra de Jesus de Nazaré”. Os escritos dos cristãos foram recolhidos para
constituir o Novo Testamento e assim completar a Bíblia. (*)
Como dissemos anteriormente, o ministério de Deus na terra e Sua revelação
constam dos quatro evangelhos que fazem parte do Novo Testamento. Evangelho vem
do grego “evangelion” e significa “a recompensa pela boa notícia trazida”,
ou a própria “boa notícia”. No Novo Testamento indica “a boa nova da
salvação trazida por Jesus Cristo (Mc 1,1). Traduz o termo hebraico bissar
(presente também na palavra portuguesa de origem árabe “alvíssara”), que
significa “anunciar a boa nova da salvação”” (Is 40,9; 52,7; 61,1), a
alegre notícia escatológica da irrupção do reino de Deus”. (**).
Nos primeiros decênios da Igreja, os fatos relacionados com a vida e a
pregação de Jesus Cristo foram memorizados e transmitidos oralmente pelos
apóstolos, que testemunhavam sua fé em Jesus Cristo como “Messias e
Salvador, Filho de Deus e Juiz dos vivos e dos mortos”.
Os apóstolos tiveram a preocupação em transmitir com fidelidade o que Jesus
teria dito e feito, procurando interpretar o sentido de Suas palavras e gestos
para a vida da comunidade. A necessidade da catequese acabou por suscitar dos
apóstolos que recorressem a instrumentos de comunicação adequados à melhor
compreensão das palavras de Jesus, na hora que elas fossem repassadas adiante.
Assim surgiu a necessidade de organizar esquemas , conjuntos de parábolas, de
milagres, que mais tarde foram incluídos nos evangelhos. “De grande
importância eram também as reuniões litúrgicas”. Nelas reinterpretavam-se
textos das Escrituras à luz da fé pascal da comunidade nascente, recordava-se
a última ceia, a paixão, a morte e a ressurreição do Senhor”.
Os primeiros escritos do Novo Testamento foram as epístolas de São Paulo, a
partir do ano 50. Quando morrem os primeiros apóstolos, aqueles que
participaram, ativamente, das “caminhadas” de Jesus por este mundo, foi que
surgiu a necessidade de escrever os Seus ensinamentos. Assim começou a
redação dos evangelhos e demais escritos que compõem o Novo Testamento. Pelos
idos do final do Século I, os vinte e sete livros que compõem esta obra está
completa e assim dividida: livros históricos: os quatro evangelhos e os Atos
dos Apóstolos; livros didáticos: as catorze epístolas de São Paulo e as sete
epístolas “católicas”; um livro profético: o Apocalipse.
A partir do século II a palavra “evangelho” passa a designar, também, cada
um dos quatro livros escritos que contém esta mensagem: segundo Mateus, Marcos,
Lucas e segundo João. “Neles foram recolhidos os fatos e ditos de Jesus,
conservados durante cerca de quarenta anos de tradição oral, transmitida e
elaborada pela pregação, liturgia e catequese”.
Embora fiéis aos dados vivos da tradição, cada evangelista selecionava o
material que, na sua compreensão, melhor se adaptasse às necessidades
peculiares de suas comunidades. Há, portanto, entre os evangelhos, muitas
semelhanças mas, também, diferenças.
Apesar das perspectivas próprias de cada evangelista, nota-se nos evangelhos de
Mateus, Marcos e Lucas muita semelhança quanto ao plano geral. Por exemplo: na
pregação de João Batista e batismo de Jesus; ministério de Jesus na
Galiléia; viagem para Jerusalém; paixão, morte e ressurreição de Jesus. Por
isso os três primeiros evangelhos são chamados de sinóticos (do grego
syn-opsis = olhar de conjunto).
Para explicar a “questão sinotica”, isto é, o problema das semelhanças e
diferenças, surgiram várias teorias. As várias formas que a catequese
apostólica teria assumido em Jerusalém (Mateus), em Antioquia (Lucas) e em
Roma (Marcos). Outros supõem a existência de alguns documentos que teriam sido
escritos anteriormente aos atuais evangelhos, e que serviram de fonte, além das
tradições próprias de cada um. Neste sentido, a teoria hoje mais divulgada é
a que supõe duas fontes escritas , utilizadas por Mateus e Lucas. Segundo esta
teoria, o evangelho de Marcos seria o mais antigo.”Com ele Mateus tem
seiscentos versos em comum e Lucas 350. Mateus e Lucas, por sua vez, têm 235
versos em comum, ausentes em Marcos, além de material próprio a cada um. O que
significa que Mateus e Lucas dependem de Marcos e de outra fonte comum apenas
aos dois, denominada Q (do alemão “Quelle” = fonte). (**).
Do exposto, vale lembrar, sempre, que as questões de fé sobrepõe-se as
questões de ordem meramente históricas. E que as diferenças e semelhanças,
existentes entre os diversos testemunhos, por si só, não significam
contradições. Somente o estudo desapaixonado da crítica pela crítica, e com
um mínimo de fé, aplicando-se, inclusive, a própria análise dos fatos, por
conta da exegese, além de um conhecimento maior sobre o tema, seria prudente
para conhecer melhor a palavra de Deus e proferir alguma opinião a respeito.
(*) – Bíblia Sagrada – Edição ecumênica. Tradução do Padre Antônio
Pereira de Figueiredo
(**) – Os Santos Evangelhos- 5a. Edição. Editora Vozes – Petrópolis –
RJ – 1968. Tradução do texto original grego Fr. Mateus Hopers, O.F.M.
Domingos Oliveira Medeiros
09 de agosto de 2002-08-09
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