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Nascido
e criado na Capital Alencarina, sempre gostei de ir passar o Natal e Ano Novo na
casa da tia Vanda, em Petrolina/PE, onde, além de desfrutar das belezas do
bucólico sertão são-franciscano, eu ainda esperava a animada e tradicional
Festa de Reis.
Os
reisados do Vale do São Francisco, já hoje quase desaparecidos, eram
contagiantes folguedos populares que encantavam os participantes e os moradores
das casas visitadas pelo alegre grupo na peculiar noite de Reis.
Cantando
ao som plangente de uma clarineta, na marcação binária de um surdo, e
acompanhado por noturnos violões, um punhado de moças e rapazes, todos
fantasiados, lá se ia, rua afora, em demanda da casa de um amigo previamente
avisado (ou não), "tirar um Reis".
O
dono da casa, ao pressentir a aproximação do farrancho, trancava as portas e
janelas, pondo-se a aguardar a nossa chegada.
Quando
chegávamos em frente à porta da morada, cantávamos o primeiro número:
"Bendito,
louvado seja
O
Menino Deus nascido,
Que
no ventre de Maria,
Nove
meses escondido.
Aos
seis dias de janeiro,
Os
três reis magos chegaram
Procurando
por Jesus,
Mas
Ele não encontraram.
Foram
ver Jesus em Roma,
Revestido
no altar,
Com
um cálice na mão
Pra
missa nova cantar.
O
primeiro levou ouro
Até
o trono sagrado;
Levou
incenso o segundo,
Pra
Ele ser incensado.
O
terceiro levou mirra,
Pra ser o trono adorado!
Com
a mesma melodia, passávamos, em seguida, à dedicação (dedicatória):
Ó
senhor dono da casa
Em
sua esposa encostado
A
Deus pedimos contritos
Sejais
bem felicitado.
Senhora
dona da casa
Passe
a mão no travesseiro
Que
do céu lhe vem caindo
Pinguinhos d'água-de-cheiro."
E
encerrando as saudações iniciais, pedíamos licença para entrar, agora com
uma saltitante marchinha bem ritmada e alegre:
Abri
vossa porta
Se
tendes de abrir
Que
somos de longe
Queremos
nos ir.
Queremos
carinho
Paz
no coração
Garrafas
de vinho
Doce
de limão.
Abri
vossa porta
E
acendei a luz
E
cantemos todos
Louvor
a Jesus!
Franqueada
a porta, entrávamos todos, festivos, já pela madrugada, principiando as
danças e os comes e bebes; e, até recebendo algumas prendas e dinheiro.
Isto
acontecido, em sinal de regojizo, cantávamos, em palmas, o coco:
Piaba
é, piaba é,
Vou
m'embora, vou m'embora
Piaba
é, piaba é,
É
mentira, não vou não.
Piaba
é, piaba é,
E
mesmo qu'eu vá embora,
Piaba
é, piaba é,
Fica
nossa gratidão!
Hoje,
a magia desta época encontra-se talvez engolida pelas esfinges do líquido veio
mestre do
“Velho
Chico”, perdida nos confins de sua nascente à orla do Atlântico.
Rubenio
Marcelo
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