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"Chanson" (francês) ou canção origina-se de "cantius" (latim), uma pequena composição musical de caráter popular, sentimental ou satírico, destinada a ser cantada, e Geste (francês) ou movimento feito tem origem na palavra latina "gestus", movimento do corpo, da mão ou do braço. "Chanson de Geste" é um poema épico cantado, da Idade Média, que exalta os feitos de personagens históricos ou lendários. As Chanson de Geste francesas são divididas em três grandes feitos: o feito (geste) do Rei dos Francos, Carlos Magno; o feito (geste) de Garin de Monglane; e o feito (geste) de Doon de Mayence. As Chanson de Geste foram compostas do Século XI ao Século XIV, e são um conjunto de poemas recitados oralmente por um cantor profissional, exaltando o ideal do mundo feudal e de uma civilização cristã, dominada pelo espírito de cruzadas contra os infiéis. O Clero da Religião Celta-Gaulesa pertencia à "Ordem dos Druidas"e compreendia em três classes na hierarquia sacerdotal: os Druidas, os Adivinhos e os Bardos ou poetas sagrados. Estes últimos deram origem aos cantadores de poemas épicos, das Chansons de Geste. Junto com o tríplice preceito druidístico, relatado por escritos greco-romanos de "Honrar a Deus", "Não fazer o mal" e "Dar provas de coragem", compõem a base popular para a criação do "Geste". Não devemos nos esquecer que os muçulmanos chegaram a Poitier, no coração da França no ano de 900 e, só, foram definitivamente expulsos da Península Ibérica em 1492, com a união dos Reinos de Aragão e Castela. As Chanson de Geste foram desenvolvidas na Europa, ao longo das rotas de peregrinação.
As rotas aos locais de peregrinação na Idade Média eram Jerusalém, Roma e Santiago de Compostela ou Saint-Jacques de Compostelle ("Santiago" ou "São Tiago", em espanhol, tem como correspondente na língua francesa "Saint Jacques", e Compostela vem do latim "Campus Stella", ou seja, Campo das Estrelas) eram feitas por caminhos preestabelecidos. Existem, ainda hoje, diversas trilhas ou caminhos para atravessar os Pirineus - da França para a Espanha - na rota de Santiago de Compostela.
Dentre as rotas mais conhecidas ou famosas está o caminho por "Roncevaux", do francês Provençal (Ronce = espinheiro de silvas ou sarça, obstáculo, dificuldade e Vaux = vale) ou "Roncesvalles", em espanhol. É, também, por este lugar que se desenvolve a "Chanson de Roland".
Da história à lenda
A Chanson de Roland é a mais antiga e a mais bela das Chanson de Geste e parece remontar ao início do Século XII. Mas, só, foi conhecida após a publicação, em 1837, do Manuscrito de Oxford, que havia sido escrito em 1170. Ela compreende 4.002 decassílabos divididos em 291 laisses sem repetição. No sentido dos bardos, não havia poemas, do francês poème. O laisse vem do verbo laisser ou deixar. Os bardes "deixavam" suas histórias ou lendas. Elas foram transmitidas primitivamente, escrita ou oralmente, num outro dialeto e transpostas, mais tarde, para o anglo-normando. Chegaram até nós neste idioma intermediário.
A História
Segundo a Vita Caroli (em latim), de Eginhard, o jovem Rei Karl (Carlos), de 36 anos e futuro Charlemagne (Carlos Magno) aliou-se a chefes árabes em luta contra outros muçulmanos. Atravessando os Pirineus, na primavera (abril) de 778, tomou a ville chrétienne (vila cristã) de Pampelune e sitiou Saragoça. O local da
travessia dos Pirineus - no Cirque de Gavarnie - ficou conhecido até hoje como La brèche de Roland A brecha de Roland). (Repelido pela presteza de um ataque dos
Saxões e por um levante na Aquitânia (região que vai do Rio Loire aos Pirineus e do Atlântico a Cévennes, somente anexada definitivamente à coroa francesa em 1453 por Charles VII), ele levantou o cerco a Pampelune e atravessou os Pirineus de volta. No dia 15 de agosto de 778, sua retaguarda é surpreendida pelos montagnards basques (montanheses bascos) que eram cristãos, que massacraram seus soldados, pilhando a tropa e se dispersando impunes. Entre as vítimas, encontrava-se Roland, "Comandante da Marcha contra a Bretanha".
A Lenda
Tal como encontramos na Chanson, escrita três séculos após o acontecimento histórico, ela nos revela as transformações e os embelezamentos, que conduziram os fatos reais à epopéia. Roland era o sobrinho do futuro Imperador Carlos Magno, "o barba colorida". O poeta inventou um personagem para ele, seu amigo Olivier. A expedição tem o sentido de uma "cruzada" e dura sete anos. A emboscada dos montanheses se transforma num ataque de 400.000 cavaleiros sarracenos. A vitória destes é devida à traição de Ganelon, sogro de Roland. Carlos Magno vinga seu sobrinho, arrasando os Sarracenos e punindo Ganelon. O simples combate da retaguarda no Século VIII transforma-se numa "cruzada", que faz vibrar o sentimento dos franceses do Século XI ao Século XII. Fé no entusiasmo, amor aos grandes combates e explosão dos gestos cavalheirescos, no sentido épico?
Teoria das Cantilenas (Canto de Caráter Épico)
Na segunda metade do Século XIX, Gaston Paris desenvolveu uma teoria sobre o nascimento das epopéias, baseada principalmente em pensadores germânicos como Friedrich August Wolf [1759-1824], filósofo e erudito alemão, que sustentava que a Ilíada e a Odisséia eram constituídas por justaposição de pedaços de épicos de épocas diferentes). Ele era filho de Paulin Paris [1800-1881], erudito francês conhecido por seus estudos sobre a literatura da Idade Média. Gaston [1839-1903], também, publicou seus trabalhos sobre a poesia na Idade Média. A origem de todas as grandes epopéias gregas, hindus, persas, teve sua origem em curtos poemas anteriores e cantos primitivos criados espontaneamente pela alma popular dentro da emoção das vitórias ou dos feitos. Dentro desses poemas, a realidade se transforma, a lenda é elaborada e embelezada. Mais tarde, na apresentação do poeta épico, o bardo organiza os fragmentos épicos espontâneos e os funde em grandes obras coerentes. Assim, o entusiasmo dos guerreiros de Carlos Magno deu origem ao nascimento, na sua época, às rudes poesias exaltando certos heróis e seus feitos. Esses poemas transmitidos pessoalmente de um a outro receberam diversos embelezamentos como, por exemplo, à traição de Ganelon e o ataque dos Sarracenos, para explicar honradamente a perda da retaguarda. Um dia os jongleur (artista de rua, ilusionista), sucessores dos Bardos, poetas por profissão, chegam a um centro e ordenam os poemas populares daquele lugar. E a epopéia nasce, enfim, no Século XI ou no Século XII. Esses curtos poemas lírico-épicos recebem o nome de Cantilenas (do latim, Cantilena), que, no latim da Idade Média, servia para designar as Chansons de Geste. Esta teoria, admitida por muito tempo, foi progressivamente derrubada, à medida que um estudo minucioso das epopéias forneceu argumentos contrários. O primeiro desses argumentos é que, evidentemente, não foram conservados ou não nos foi possível conhecer algumas dessas Cantilenas e, portanto, as hipóteses são puramente gratuitas.
Teoria das Lendas Épicas
Por volta de 1910, Joseph Bédier (da Academia Francesa e medievalista, nascido em Paris [1864-1938], autor das Lendas Épicas, que junto com Paul Hazard, escreveu a História da Literatura Francesa), destacou a relação que parece existir entre as cidades dos diversos lugares nas Chanson de Geste e as etapas das grandes peregrinações, para onde iam os fiéis do Século XI. De Paris a Saint-Jaques de Compostelle, de Paris a Roma e de Paris a Jerusalém. Ele supõe, então, que os peregrinos encontravam nas Abadias e nos Santuários, onde repousavam, "lembranças" dos heróis do Século VIII ao Século X. Os Monges e Padres embelezavam estas "lembranças", aguçando a curiosidade de seus hóspedes. Mostravam essas relíquias, muitas vezes forjadas, com o intuito de vendê-las aos visitantes. Os peregrinos divulgavam a lenda pelo caminho e, talvez, acrescentassem elementos heróicos recolhidos em outros lugares, no curso de peregrinações anteriores. Assim, crê-se que, no Século XI, o assunto épico teve sua fermentação, para ser, posteriormente, fabricado por um poeta, dando origem ao nascimento da Chanson de Geste. Por exemplo, antes de 1100, no caminho de Blaye a Saint-Jacques de Compostelle, que passa por Roncevaux, fala-se de Carlos Magno como herói e de Roland como um mártir. Em Roncevaux, sempre, havia problema para acolher os visitantes, após uma dura subida da montanha. Nos albergues e nos Santuários, os Monges tinham todo o interesse de narrar e reviver as tradições lendárias. Na imaginação apaixonada dos peregrinos e dos guerreiros, Roland e seus companheiros deviam ser cavalheiros, animados de honra feudal, em luta com os infiéis. Carlos Magno era o soldado de Deus, consciente de sua missão heróica para com a França. A lenda tem, assim, um desenvolvimento contínuo, em pleno Século XI, até o dia que um poeta inteligente cristaliza, de maneira épica, a imaginação dos Padres e peregrinos. Em resumo, para Joseph Bédier, no início, havia um caminho com os santuários, onde nasceram as lendas apresentadas pelos poetas épicos do Século XI ao Século XII.
O Problema Continua
Pauphilet (România, 1933) demonstrou que antes de 1100, data provável de Roland, os santuários estavam mudos e que a aparição dos documentos indicados por Bédier (inscrições, relíquias etc) são posteriores, como também a Chanson que ligava os Monges e seus santuários, a lenda de Carlos Magno. Não é, portanto, o poema que nasceu das lendas locais, mas são as lendas que dão origem aos poemas. Assim, a referida epopéia seria apenas um episódio da lenda de Carlos Magno, difundida em toda a Europa. Como muitas outras epopéias, será necessário um longo período de elaboração artística, supondo toda uma produção épica anterior; talvez, várias Chansons de Roland, antes dessa. Lot e Fawtier tentaram provar que, desde o Século X ou mais tarde, haviam cantos relativos a Roland e a Roncevaux e que, se a peregrinação é um dado importante para a difusão, haveria, portanto, dentro da própria lenda qualquer coisa anterior à peregrinação; algo, por exemplo, como nas tradições familiares locais. Podemos dizer que ainda não se disse a última palavra sobre a origem da Chanson de Roland em particular e das demais Chanson de Geste de uma maneira geral. Mas o ponto principal é que a luz, que Bédier jogou sobre o problema, permite-nos afirmar que a Chanson de Roland é tão habilmente composta, que, certamente, é obra de um único artista, perfeitamente consciente de sua arte. Ou seja, alguém, em algum momento, conseguiu reunir a epopéia de Roland, dando-lhe forma poética consistente de tal forma, que passou a ser repetida integralmente até ser um dia escrita.
Não devemos, contudo, esquecer-nos de alguns fatores na difusão oral da lenda como: a origem Celta dos bardos; o papel da preservação da escrita através do ciclo de Cluny; e dos interesses da cristandade na época. Os Celtas não tinham escrita própria, nem utilizavam a escrita de outras culturas. Apresentavam o argumento de que a escrita poderia ser deturpada mais tarde, prejudicando os espíritos dos personagens. No entanto, a arte celta é de extrema beleza e muito procurada atualmente. Cluny era a sede da maior rede de Abadias da Idade Média, cuja influência rivalizava com o Papa. Foi destruída na Revolução Francesa junto com a realeza. Atualmente, está em curso um projeto de reconstrução de Cluny, liderado pela UNESCO, com a participação de várias empresas multinacionais.
Cozinha Medieval
Ingredientes
- 2 colheres de sopa de azeite
- 2 xícaras de cenouras em rodelas
- 1 nabo em pequenos cubos
- 1 cebola grande bem picada
- 400 gramas de carne picada (como feito para um fondue)
- 1 xícara de vinho tinto
- 10 xícaras de caldo de carne
- 1 folha de louro
- 1 colher de mesa de tomilho
- 2 colheres de chá de alecrim
- 2 colheres de chá de cominho
- 1 colher de chá de mostarda seca
- sal e pimenta
- 2 xícaras de champignons
Le brouet soutenant
(O caldo sustentador)
Modo de preparo
Coloque dentro de uma panela, funda e espessa, as cebolas e o nabo no azeite por 2 a 3 minutos; em seguida, a carne, e cozinhe por mais 2 a 3 minutos. Junte, finalmente, os demais ingredientes, menos o champignon o sal e a pimenta, até que chegue ao ponto de baixa fervura. Deixe cozinhar em fogo baixo por uma boa hora e, finalmente, coloque os champignons, o sal e a pimenta a gosto. O caldo está pronto, mas estará melhor no dia seguinte depois de aquecido.
Observação:
Na Idade Média, as panelas iam do fogo direto para a mesa, onde os convivas se serviam com suas facas e uma única colher que circulava pelos convivas. Era difícil uma casa possuir mais de um cômodo. As medidas em colheres de sopa e chá, além das xícaras, não existiam. O garfo, com somente duas pontas, só apareceu na corte francesa em meados do século XVII. Essas medidas são utilizadas, aqui, unicamente para dar uma noção das quantidades. Quando se menciona "caldo de carne", não se está fazendo referência aos produtos existentes hoje em dia. Devemos utilizar o verdadeiro "caldo de carne". Quanto mais fiel formos à receita, mais nos aproximaremos do verdadeiro paladar medieval. Essa receita é anterior ao século XV. A batata e o tomate, oriundos da América do Sul, só começaram a aparecer no cardápio europeu no final do século XVI. Quando se menciona "uma panela funda e espessa" não se esqueça que, na Idade Média, todos os utensílios eram feitos de ferro. E a comida era feita na panela de ferro, colocada pela alça, no tripé dentro do fogo. Se morar em apartamento, por questão de segurança, não precisa exagerar.
Moacyr Mallemont Rebello Filho
Todos os direitos da pesquisa pertencem ao Historiador
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