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Cordel, Cultura Brasileira
Que
Deus os tenha. Sou eu quem peço. São dois tesouros. Que nos deixaram. Mais que
saudades. Dois expoentes. Duas verdades. Sempre presentes. Servindo a gente.
Felicidade. Servindo às almas. O mundo atesta. Fizeram a festa. Da
fraternidade. Um foi Antônio, o mais poeta. De rima farta. A mais completa. De
amor, repleta. Seu nome é. Mais conhecido. A Patativa do Assaré. O outro, o
Francisco. O conselheiro, o homem terno. O quase eterno. O espiritual. O sempre
amado. O mais procurado. Nas questões de fé. O cândido e abençoado. Chico
Xavier. Pequeno cordel dedicado aos saudosos Chico Xavier e ao grande Antônio
Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, este falecido dia 08 de julho do ano
em curso e objeto de nosso texto a seguir.
Antônio
Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré, nasceu em Serra de
Santana, no vale do Cariri, situado a 18km da cidade de Assaré, no estado do
Ceará, em 05 de março de 1909.
Começou
a fazer versos aos 13 anos de idade. Cursou até o segundo ano do curso
fundamental, quando abandonou o colégio para juntar-se aos irmãos na luta pela
sobrevivência que o obrigavam ao trabalho agrícola constante. Ainda jovem, em
torno dos vinte anos de idade, esteve no Pará, cantando em praças públicas e
nas feiras-livres, na época de ouro do ciclo da borracha.
E
o fez, segundo consta de livros e enciclopédias, atraídos pelo fato de que,
para o estado do Pará acorreram milhares de sertanejos em busca de trabalho e
de uma vida melhor.Muitos acreditavam que iriam ficar ricos trabalhando nos
seringais da Amazônia Tropical. Não se demorou muito, entretanto, e, em quatro
meses, aproximadamente, estava de volta ao sertão do Cariri.
Sua
fama começou no Município de Assaré, na década de 1940, quando
ridicularizou, em praça pública, o prefeito da cidade, improvisando versos com
pesadas críticas ao mandatário local.
A
obra do repentista é muito extensa. Cerca de dois mil poemas. Toda a obra é
identificada com a temática da crítica social e, ainda, por uma curiosa e
surpreendente preocupação com o meio-ambiente. Na década de 50 compôs um
verdadeiro libelo ecológico intitulado “A terra é naturá -- e a condição
da mulher”.
O
cantor das "coisas rudes e belas do sertão", também ficou conhecido
como Patativa do Assaré, pela alusão comparativa entre o pássaro cantador
(patativa) daquela região, e o poeta cantador e “fazedor” de versos, o mais
fiel cronista popular de todo o Nordeste.
Dentro
de sua temática preferida, falava sempre da miséria e da injustiça social. É
conhecida a cantoria da Reforma Agrária, cujo trecho, a título de exemplo, é
o seguinte: "Se a terra foi Deus quem fez / Se é obra da criação / Deve
cada camponês / Ter seu pedaço de chão.
Outra
composição bem conhecida, “Triste Partida”, que foi gravada por Luís
Gonzaga, o “Rei do Baião”, e seu conterrâneo, Patativa do Assaré denuncia
o descaso dos governos para com o Nordeste e o êxodo de nordestinos para o sul,
fugindo da seca e das condições inóspitas do nordeste, em busca de uma vida
melhor.
Suas
composições foram musicadas e interpretadas tanto por artistas locais, como
por reconhecidos intérpretes nacionais, e, também, foram gravadas. Sua última
gravação data de 1995, e intitula-se “85 anos de poesia”
A
fonte “Patativa do Assaré Barsa Consultoria Editorial Ltda” nos dá a
seguinte informação: “Por iniciativa de pesquisadores, publicou cinco livros
de poemas: Inspiração nordestina (1956), Cantos de Patativa (1967) Patativa do
Assaré (1970), Cante lá que eu canto cá (1974) e Ispinho e fulô (1988). Em
23 de março de 1995 recebeu do presidente Fernando Henrique Cardoso a medalha
José de Alencar”.
“A
literatura popular compreende as obras em verso ou prosa produzidas por artistas
sem formação acadêmica e distanciados da arte culta dos grandes centros
urbanos. No conjunto formado por essas obras distinguem-se no Brasil pelo menos
dois gêneros, os dois muito comuns no Nordeste e nas cidades para onde afluíram
migrantes provenientes dessa região: a POESIA ORAL, improvisada, acompanhada
pela viola; e a LITERATURA DE CORDEL, romances veiculados em folhetos impressos
de forma rudimentar, vendidos a baixo preço. A denominação "de
cordel" provém do fato de serem os folhetos normalmente pendurados em
fios, à maneira de roupas em varal. Tanto os poetas quanto os cantadores são
chamados trovadores”. (...) O trecho da Peleja de Serra Azul com Azulão
ilustra o espírito do desafio, em que dois cantadores nordestinos, de pouca ou
nenhuma cultura formal, competem em inteligência, presença de espírito e
habilidade para fazer versos.
A
Poesia improvisada
“Apresentada
com acompanhamento de viola, nos espetáculos denominados cantorias, pelos
cantadores ou repentistas, a poesia improvisada concentra-se em incidentes do
momento e, em geral, ressalta a personalidade de indivíduos do auditório
mediante elogios ou críticas divertidas, de modo a captar com habilidade a
constante atenção dos circunstantes. Os cantadores interpretam em estilo
direto os sentimentos populares imediatos, exibindo talento poético e
capacidade de observação. A disputa entre uma dupla de cantadores, em parte
decorada e em parte improvisada, denomina-se desafio. Na batalha do desafio
entre cantadores sertanejos, denomina-se repente a resposta inesperada e
perfeitamente cabível que confunde o adversário”.
“Como
o Brasil, outros países latino-americanos têm tradição de poesia de
improviso. O equivalente argentino do cantador nordestino é o payador, que
canta versos em que se narram tanto histórias tradicionais como fatos do
cotidiano ou acontecimentos extraordinários. No México também há o
contrapunteo, semelhante ao desafio nordestino, em que dois poetas buscam tirar
vantagens para sua poesia, proclamar seus méritos, exaltar suas qualidades ou
criticar o adversário”. (Barsa Consultoria Editorial Ltda)
Literatura
de cordel.
A
Literatura de cordel tem a sua origem no romanceiro popular português. Aqui no
Brasil, ela começou a ser divulgada nos séculos XVI e XVII, trazida pelos
colonos portugueses. A partir do século XIX, o romanceiro nordestino, num
processo de absorção e aculturação, tornando-se independente e com características
específicas regionais. “ De forma análoga, as áreas de colonização
espanhola na América beberam das fontes ibéricas. Alguns estudiosos, no
entanto, atribuem as origens remotas da poesia popular à Provença, o que se
confirmaria pelos temas picarescos e pela designação "trovador"
aplicada ao poeta popular”.
“Na
origem, a literatura de cordel se liga à divulgação de histórias
tradicionais, narrativas de épocas passadas que a memória popular conservou e
transmitiu. Essas narrativas enquadram-se na categoria de romances de cavalaria,
amor, guerras, viagens ou conquistas marítimas. Mais tarde apareceram no mesmo
tipo de poesia a descrição de fatos recentes e de acontecimentos sociais
contemporâneos que prendiam a atenção da população.
Na
Espanha, a literatura de cordel era chamada pliegos sueltos, o que corresponde
em Portugal, às folhas volantes, folhas soltas ou literatura de cordel. No México,
na Argentina, na Nicarágua e no Peru há o corrido, apresentação em versos
das histórias tradicionais, oriundas do romanceiro peninsular, como também de
fatos circunstanciais. No Peru e no Chile há grande divulgação de folhetos
populares. Na Nicarágua o corrido compõe-se em geral de dois grupos: o de
romances tradicionais, com temas universais de amor e morte, classificados em
profanos, religiosos e infantis; e os corridos nacionales, com assuntos patrióticos
e políticos, estes últimos os menos cantados. A poesia popular argentina
recebe as denominações de hojas ou pliegos sueltos e se divulga pelos mesmos
corridos, em impressos que se assemelham aos da literatura de cordel
brasileira”. Conselho Editorial Barsa Ltda).
Temática.
A temática utilizada pelos cordelistas é bem diversificada. Dela
constam, entre outras, histórias e historietas contadas e cantadas. “A
literatura de cordel abrange ainda pequenas novelas, contos fantásticos,
moralizantes ou de fundo vagamente histórico, de maneira a agradar o
gosto popular pelo maravilhoso e pelo didático. Os poetas versificam os
acontecimentos de que tomam conhecimento pelos jornais, velhos romances em prosa
aqui chegados no período colonial, como a história de Carlos Magno e os 12
pares de França, contos da tradição oral, enredos de filmes ou peças
teatrais. Embora grande parte das composições seja anônima, é de interesse
observar terem sido divulgadas em folhetos de cordel obras de autores como Gil
Vicente, Baltasar Dias, Ribeiro Chiado, Antônio José da Silva e outros.
Os
versos que mais impressionam a imaginação popular são sobre heróis e
acontecimentos. O conjunto dos versos agrupa-se em ciclos, dos quais os mais
importantes são o ciclo heróico -- que inclui os romances trágicos, épicos e
simplesmente heróicos --, o ciclo do maravilhoso, -- com a presença de seres e
acontecimentos mágicos --, o ciclo religioso e de moralidades, o ciclo cômico,
satírico e picaresco, o ciclo circunstancial e histórico e o ciclo de amor e
fidelidade. Encontram-se subciclos como o de Lampião, no ciclo heróico; e o do
Cancão de Fogo, no ciclo picaresco.”
Os
heróis da literatura de cordel são pessoas que tiveram existência real e, em
correspondência a anseios profundos da coletividade sertaneja, tornaram-se
objeto de culto ou lendas, como o padre Cícero e Antônio Silvino. E há também
os que inventados, como, por exemplo, o valente sertanejo Cobra-Choca. A
Consultotira da Barsa nos dá conta de que “no ciclo circunstancial, ou
folheto de ocasião, incluem-se relatos escritos sobre acontecimentos políticos
ou fatos diários. A primeira guerra mundial foi assunto de vários romances,
assim como a eleição do presidente Jânio Quadros no início da década de
1960 e a deposição do governador de Pernambuco, Miguel Arraes, pelos militares
em 1964. As grandes enchentes, a vida dos artistas mais populares, as façanhas
de Lampião e seus cangaceiros e a epopéia do imperador Carlos Magno são
alguns dos temas dos cordéis de maior tiragem”.
Um exemplo clássico do ciclo circunstancial - e um dos campeões de
vendas – intitula-se “A lamentável morte de Getúlio Vargas.” Conta-se
que quando Getúlio Vargas suicidou-se, em 24 de agosto de 1954, o poeta popular
Delarme Monteiro da Silva ouviu a notícia pela manhã, pelo rádio, entregou os
originais ao meio-dia, recebeu os primeiros impressos na tarde do mesmo dia e
vendeu setenta mil exemplares em apenas 48 horas. A
admiração popular logo mitificou o presidente Vargas e foi dessa
maneira que ele apareceu no romance do poeta Rodolfo Coelho Cavalcante.
“A
chegada de Getúlio Vargas no céu e o seu julgamento, no qual o protagonista
dialoga com Jesus, são Miguel, Salomão, Moisés, Davi, Elias, Daniel, Isaías,
Saul, Abraão, Sócrates, Aristófanes, Hermes, Pitágoras, Platão e Rui
Barbosa. Um dos poetas de cordel mais conhecido, o pernambucano Leandro Gomes de
Barros, nascido em 1865 e morto em 1918, é autor de mais de mil títulos.”
Em
certa medida, as histórias de cangaceiros, cantadores, santos, assassinos,
touros e serpentes misteriosas contribuíram para incrementar a alfabetização
do homem do sertão, que aprendeu a ler e escrever motivado pelo interesse das
histórias ou porque desejava dedicar-se à poesia. A literatura de cordel é
fonte de informação que antecede a vulgarização do jornal como principal
fonte de informação das populações mais pobres do interior. Ela apresenta
profundo sentido vivencial para as classes menos favorecidas, ao traduzir
valores e anseios do povo nordestino. Exemplo disso é a vitória do homem
sertanejo sobre o senhor de engenho, ou sobre os donos de terra da zona da mata,
cantada em prosa e verso pelos poetas populares.
Os
centros principais de impressão e venda dos folhetos no Nordeste são as
cidades de Juazeiro CE, Campina Grande PB, Caruaru PE, Recife PE e Salvador BA.
Impressos
em papel de má qualidade e com pouco cuidado, os folhetos do cordel, na origem,
não iam além de três ou mais conjuntos de folhetos dobrados em quatro. Esses
folhetos apresentavam produção rudimentar, e tinha como suporte pequenas gráficas
familiares. Nos pólos de cultura mais desenvolvidos, no entanto, os textos de
cordel foram eventualmente publicados industrialmente e comercializados como
qualquer outra obra.
Característica
importante do romanceiro nordestino são as xilogravuras que ilustram os
folhetos. A necessidade de tornar as capas mais atraentes aos compradores
iletrados levou os poetas a se improvisarem em gravadores e a cortar na madeira
personagens e cenas de seus escritos.
“O
entalhe a ponta de canivete, faca ou formão se faz em madeira que varia tanto
quanto a ferramenta: tábuas de caixão de vinho ou querosene, pinheiro-do-paraná,
cedro e outras. O material mais comum é a casca de cajá. Anônimas em sua
maioria, as xilogravuras algumas vezes aparecem assinadas, porém sempre há
complementação e fidelidade entre gravura e poema. Delas resultaram peças com
demônios, dragões, cantadores, cangaceiros, santos e assassinos, touros
misteriosos, serpentes de várias cabeças e outros exemplares de arte popular.
Por cerca de cinqüenta anos, literatura e xilogravura andaram juntas, ao longo
de todos os ciclos e sagas de temática da literatura popular.(...).
No
início do século XX, principalmente em São Paulo, maior comunidade urbana de
nordestinos do Brasil, surgiu uma novidade importante: o cordel industrializado,
impresso em gráfica e em papel de melhor qualidade, com conteúdo mais literário
e intenção especial de dar informação imediata sobre os acontecimentos.
Contrariamente
ao que ocorreu em Portugal, onde a literatura de cordel decaiu em função da
expansão do jornal diário, no Brasil ela permaneceu. E essa literatura, é bom
lembrar, exerceu influência em escritores brasileiros de ficção como José
Lins do Rego, Jorge Amado e Guimarães Rosa; Em escritores de peça de teatro,
como Ariano Suassuna; e aos que se dedicavam mais à poesia, como Joaquim
Cardozo e João Cabral de Melo Neto.
FONTE;
Barsa Consultoria Editorial Ltda.
Domingos Oliveira Medeiros
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