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Por trás do texto



Resumo 

A Semiótica analisa as mensagens, que o texto pretende excitar na mente do leitor, procurando apresentar que o pensamento não se desloca de maneira evolutiva, uniforme através dos tempos. Desde as origens do pensamento ocidental helênico, houve um desenvolvimento lento e progressivo. A mudança do romantismo para o realismo se deve ao progresso do pensamento humanista de mãos dadas com o desenvolvimento tecnológico. Às vezes, um se apoiando no outro e se distanciando em outras oportunidades. Sempre próximos, permitindo serem observados mutuamente. Apreciando-se, admirando-se, aperfeiçoando-se em busca de um ideal hegeliano. 


A teoria lingüística, cujo objeto de análise é a linguagem - que não deve ser entendida como simples sistema de sinalização, mas como matriz do comportamento e pensamento humano - tem por objetivo a formulação de um modelo de descrição desse instrumento através do qual o homem informa seus atos, vontades, sentimentos, emoções e projetos. Apresentando, assim, a linguagem como um dos fundamentos das sociedades humanas, não será difícil prever que a teoria lingüística acabaria por ser solicitada a prestar contas do que ocorria em outros campos gerados e sustentados por aquela matriz fundamental: o campo da arte, da arquitetura, do cinema e do teatro, da psicanálise, da sociologia e outras áreas. E mesmo sem convite, ela acabaria, simplesmente, invadindo esses domínios.[1] 

Se um estudante de história procurar, numa livraria ou numa biblioteca, um livro sobre semiótica, ou seja, a produção, funcionamento e recepção dos diferentes sistemas de signos pelos quais a sociedade se comunica, não vai achar muita coisa. Pior será, se pedir uma definição singela sobre o que é semiótica. Se alguém, porventura, conhece alguma coisa sobre o assunto, dificilmente, conseguirá apresentar uma definição simples sobre o que é semiótica. Alçada ao "status" de ciência, em meados do século XIX, a semiologia busca compreender como os signos são elaborados no seio da sociedade. A busca da verdade leva o ser humano a ordenar suas representações, algumas vezes, de forma inconsciente e outras produzidas intencionalmente, mas igualmente absorvidas e reproduzidas individual ou coletivamente. Não existe um consenso entre os teóricos. Charles Sanders Pierce[2], considerado por muitos o maior filósofo norte-americano, é o primeiro a denominá-la de semiótica (semeion, sinal), ou a doutrina dos signos. Considerava-a como um produto secundário, e a linguagem, um sistema como outro qualquer. Quase na mesma época, o suíço Ferdinand de Saussure[3], no final do século XIX, utilizou, em seus estudos, o método de gramática comparada como instrumento de pesquisa científica, confrontando o idioma grego com os poemas védicos indianos. Essa desconstrução, sob o ponto de vista lingüístico, seria, então, a percepção da identidade de cada um dos elementos comparados, observando-se a tendência à substituição por grupos mecânicos, que tenderiam a gerar um organismo novo, um padrão de comunicação nascente. Ele não considerava a semiótica subordinada ao campo da língua e da sociedade. Mais recentemente, Derrida[4] tende a dispensar o signo lingüístico e suas sistematizações, incorporando modelos lógicos e matemáticos. O campo é extremamente vasto e, por isso mesmo, de difícil sintetização, tornando árdua uma explicação estável. 


Vemos o pensamento de Pierce acompanhar o processo perceptivo (firstness: adverte que é possível que haja algo; secondness: há algo; thirdness: abre-se o caminho para a generalização e para a elaboração do juízo perceptivo) passar da lógica à gnosiologia (knowledge of), do didático (estímulo-resposta) ao triático (estímulo-interpretações-interpretante lógico final).[5] 



Pierce, como todos os demais intelectuais de sua época, nascido sob a influência do positivismo contiano e a lei dos três estados, estabeleceu, também, um padrão lógico com três etapas; "sim", "não" e "talvez". Mais tarde, relacionou-o ao pensamento do matemático inglês George Boole[6], que aproximou a lógica da matemática, dando origem à linguagem da informática[7], baseada também em três pontos; "Sim",
"Ou" e "Não". Boole foi, na realidade, o divisor de águas, cientifizando a comunicação e, com esta racionalização, a linguagem passa a se deslocar lentamente em direção ao realismo. Todo o embasamento filosófico e dualista defendido na retórica platônica e apropriado pela cristandade ocidental, construída em cima de conceitos do bem e do mal, caminha ao realismo, escorada na revolução tecnológica do final do século XIX. 

Apresentaremos adiante, como exemplo, um texto antigo da idade madura de Platão, quando ele deveria ter entre quarenta e cinqüenta anos. Devemos supor que seu discurso, a seqüência em que as sentenças são apresentadas e a escolha das palavras no texto que nos legou foram feitas do modo mais acurado possível. 

No entanto, isso envolve uma série de outros detalhes, que precisam e devem ser levados em consideração por um leitor mais atento. Um estudante comum de História não iria, provavelmente, estudar grego, muito menos o grego clássico, somente, para compreender o pensamento de Platão. A não ser que almejasse uma especialização nesta área. Na realidade, este deveria ser o procedimento ideal. Diante desta impossibilidade real e, em muitas vezes, da premência de tempo, devemos nos ater às traduções existentes. Ai, já, há uma perda substancial na ideologia do conteúdo, pois o tradutor irá colocar sobre o texto sua emoção e concepção própria daquilo que ele acha que o autor gostaria de transmitir. Os textos gregos antigos eram escritos da esquerda para a direita nas linhas ímpares e, da direita para a esquerda, nas linhas pares, além de não haver sinais gráficos, que só surgiram no final da Idade Média. 

Na estrutura mais simples da comunicação, temos o emissor, o meio e o receptor. A origem emissora, no caso Platão, ficaria em parte impregnado com a ideologia do tradutor. E, também, se o tradutor é um aluno de História, sua concepção em relação ao texto, será certamente bem diferente daquela que um especialista em lingüística teria. Este, certamente, estaria centrando suas preocupações no grupo lingüístico do autor, na mensagem cabalística ou não que porventura pudesse existir na rima, na estética da época em que foi escrito, se o sinônimo de uma palavra poderia ter existido naquela época, se a seqüência de palavras estaria acusticamente correta etc. Para certos especialistas em lingüística, a língua é construída pela estrutura da sociedade e comporta linhas positivistas, marxistas etc semelhantes às existentes na história e na sociologia. Sem nos esquecermos da irmã antropologia, em que o estruturalista Claude Lévi-Strauss[8] é o maior expoente. 

Existem muitos meios de leitura e análise literária, sendo um dos mais recentes e, também, mais utilizado o chamado de "Leitor-Resposta". De acordo com esta escola crítica, não existe nenhuma maneira de que um determinado texto produza a mesma compreensão para todos os leitores. Cada leitor responderia ao texto de uma maneira ligeiramente diferente, porque cada um deles possui formação, experiências, interesses e leituras diferenciadas, embora sustentada em suas origens, pelo pensamento cristão ocidental. Até uma leitura posterior do mesmo texto, feita pelo mesmo leitor, poderá apresentar uma interpretação diferenciada. A primeira pessoa a se dedicar às experiências com a teorização da leitura foi a professora de literatura inglesa, Louise Rosenblatt[9], com o livro Literature as Exploration (1938). Segundo seu ponto de vista, a validade da interpretação do leitor pode ser alcançada através de um leque de respostas aceitáveis, julgadas por comparação com outras respostas. Nesse sistema, a interpretação de um texto se torna um acontecimento social e cultural. Semelhantemente, temos o "Novo Historicismo", baseado nos escritos de Michel Foucault[10], autor de Arqueologia do Saber e A Ordem das Coisas. Os novos historicistas vêem o texto como um artefato pertencendo a um conjunto comprimindo vários textos maiores, que devem ser compreendidos no seu contexto. Em outras palavras, é impossível avaliar um texto isolado de seu contexto cultural. Também, é necessário que o leitor, atuando como um arqueologista, compreenda não somente a episteme apresentada no texto, mas que, também, possa apreciar sua própria visão do mundo em relação ao texto. 

Em setembro de 1996, o Dr. Michel Contini, diretor do Centro de Dialectologia da Universidade Stendhal (Grenoble), expôs ao Departamento de Letras da Universidade Federal de Santa Catarina um trabalho extremamente interessante sob o estudo dos fonemas. Com o patrocínio da UNESCO[11], a equipe coordenada pelo Professor Contini desenvolve um mapa lingüístico da Europa. Milhares de pessoas munidas de gravadores percorrem o Velho Continente em busca da maneira de pronunciar palavras de raízes comuns, como, por exemplo, estado (português), stadt (alemão), state (inglês), état (francês), estato (italiano) etc. As variações de pronúncia, num mesmo idioma, ou a proximidade de pronúncia com outros idiomas, podem determinar as fronteiras de comunicação que, cruzadas com outras palavras pesquisadas, permitem avaliar o grau de entrelaçamento fonético entre áreas geográficas da Europa. Esta pesquisa, igualmente importante sob o ponto de vista histórico, poderá determinar, entre outras coisas, os deslocamentos de sociedades passadas. Estudos que poderão permitir, no futuro, determinar a origem de textos, representações folclóricas, canções populares etc. com mais precisão. 

Sob o aspecto lingüístico, o idioma grego, que pertence ao grupo indo-europeu, foi objeto de várias transformações em função das diferentes migrações, situação geográfica etc. Era dividido em quatro grupos dialetais com posterior predomínio do "Ático". Se bem que o "Jônico" foi o que apresentou os primeiros momentos literários da cultura helênica e, portanto, da cultura ocidental, com os Poemas Homéricos. 

O estudante de História procuraria, certamente, o que vem "com" o "texto", o contexto, no sentido econômico, cultural, geográfico etc. Se bem que os enfoques lingüístico e histórico venham a ter o mesmo peso na construção histórico-social. 

Busquemos criar uma base de entendimento desses dois aspectos no texto a seguir, propositadamente, escolhido por diversas razões. 

SÓCRATES - Ouvi dizer que havia perto de Naucratis[12] no Egito um daqueles velhos deuses no país a quem os Egípcios consagravam uma ave chamada Íbis; esse demônio tinha o nome de Theuth; foi ele quem inventou a numeração e o cálculo, a geometria e a astronomia, o gamão, e também a escrita. Tamuz, reinava sobre toda a região, na cidade do alto Egito que os gregos chamam de Tebas egípcia, como eles chamavam Amon, o Rei-Deus Tamuz. Theuth vindo a encontrar o rei; exibiu-lhe suas artes dizendo ser conveniente ensiná-la aos restantes Egípcios. O rei indagou qual seria a utilidade de cada uma delas; o deus as explicou e o rei ora as criticava, ora as elogiava, segundo pareciam bem ou mal realizadas. Diz-se que Tamuz fez a Theuth numerosos reparos, a respeito de cada uma dessas artes, num e noutro sentido. Mas quando chegou a vez da escrita, disse Theuth: 'Aqui está, soberano, um aprendizado que permitirá, aos Egípcios, tornarem-se mais sábios e mais capazes de rememorar; pois eu encontrei o remédio tanto da memória quanto do saber.' O rei respondeu-lhe: 'Ó extraordinário artista Theuth! Um é aquele capaz de criar uma arte, outro o de julgar a medida da utilidade ou prejuízo que advirá para os que se disporão a fazer uso dela: sendo tu o pai das letras atribui por complacência uma eficácia contrária do que elas podem fazer: esse invento proporcionará o esquecimento do aprendido nas almas fazendo negligenciar a memória: só se lembrando das coisas, graças à confiança em sinais estranhos, e não de dentro para fora, do fundo deles mesmos que poderão suscitar suas memórias; encontrastes um meio, não para reter, mas para renovar a lembrança, portanto não encontraste o infalível remédio para a memória, mas para a simples recordação, ensinas aos teus discípulos não a verdade, mas a aparência da sabedoria: pois, tornados eruditos por ti, sem instrução verdadeira, acreditarão ser muito cultos, embora sejam ignorantes na maior parte das coisas, pois eles pensarão ser sábios sem o ser'.[13] 



Os diálogos platônicos incluem, dentro de uma ordem na qual nem todos estão necessariamente de acordo, as obras mestras "República", "O Banquete", e "Fedra". 

Em Fedra, Platão apresenta a escrita como possuidora de um duplo perigo. De um lado permite que o pensamento se encante pelos caminhos do mundo e, por outro lado, faz nos afastar do mundo das idéias. Na concepção de Platão, a ficção, e dela faz parte a poesia, seria uma cópia da cópia de uma cópia. Por isso, era extremamente intolerante em relação a Homero, por se afastar de sua concepção da verdade. 

A lógica foi construída nos corpos do saber, a partir de observações feitas por seu discípulo Aristóteles sobre a associação livre. Sabemos que Aristóteles não empregava uma expressão equivalente à lógica, mas falava da analítica como ponto de partida na constituição de uma premissa sobre a qual estabelecia, no seu entender, uma explicação científica (episteme), e a dialética, visto que a premissa somente se torna verdadeira se for relevante para a opinião comum (doxa). De fato, quando alguém declara que é o primeiro a oferecer uma exposição sistemática de algo, é necessário pensar corretamente, para que ninguém possa desmenti-lo. A dialética e a retórica caminham de mãos dadas no campo do debate e do convencimento, suportados pela representação. 

O problema de Aristóteles, sob esse ponto de vista, era quase o mesmo de Platão, o de se confrontar com adversários teóricos redundantes. Seu sistema filosófico, apesar do belo ordenamento, sua coerência e compreensão, é, particularmente, frágil sob um ponto de vista maior, a incapacidade de estabelecer um conceito da verdade. Aristóteles afirmava que para dizer a verdade bastava se abster de dizer o falso. E isto poderia ser feito dizendo o que é e como é, e o que não é e como não é. Esta formulação é, na realidade, bastante insuficiente. Platão, antes dele, não conseguiu fazer melhor, afirmando que para dizer a verdade, bastava "dizer o que é e como é". 

Se vemos ser criado um sistema de saber como o de Aristóteles e, talvez, por Platão também, uma vez que seus textos teóricos se perderam, estabelecer o conceito da verdade é importante, porque os adversários teóricos mais sérios, os Sofistas, afirmavam que a verdade como tal não existe. Os Sofistas se interessavam enormemente pelo fenômeno da persuasão, aquela capacidade "mágica" de qualquer um convencer o outro de qualquer coisa, com um truque retórico. 

Mais tarde, Santo Agostinho[14] se apoiava em Platão para a elaboração de seu pensamento; mas, depois de ler aqueles livros dos platônicos e de ser induzido por eles
a buscar a verdade incorpórea,...[15] E assim, se mais tarde me lembrar de que agora pude recordar estas coisas, será pela força da memória![16] 


A estrutura do discurso agostiniano está repleta de suportes que a obra de Platão proporcionou e que permeou pela última das civilizações analisadas por Arnold Toynbee[17], a "Civilização Ocidental Cristã". É interessante notar, em relação à obra de Platão e à estrondosa maioria da obra literária e até científica
posterior, o caráter não só dualístico, mas, fundamentalmente, analógico - A imagem construída por comparação, por ausência de uma definição mais apurada do conceito da verdade. 

René Descartes, considerado por muitos como um marco do pensamento, apresenta seus trabalhos por analogia. Sua obra maior, o Discurso da Razão, é apresentada através de comparações, como o do fluxo sangüíneo em relação à hidráulica e com profundo respeito espiritual a Igreja Católica. Até mesmo Charles Darwin, receoso das implicações religiosas que sua obra sobre a origem das espécies pudesse provocar, teria previsto, inicialmente, publicá-la somente após a sua morte. 

Platão tinha a idéia de que os seres humanos possuíam uma alma imortal fora do corpo material, posicionando a separação entre o ser físico e o espiritual. Esta noção de separação da alma e do corpo teve uma influência fundamental na representação posterior do pensamento religioso de Santo Agostinho. 

Aqueles que param de exercitar suas memórias e se tornam esquecidos só se lembrarão das coisas através de signos externos, ao invés de suas próprias forças. 

Ele acreditava que a inovação técnica da escrita desvalorizava todo o saber pela democratização do conhecimento. Educadores, desde o tempo de Platão, reconhecem o poder da literatura para expandir o conhecimento humano. Mas eles, também, sabem que o acesso à literatura envolve o acesso ao poder. O ponto de vista de Platão sobre a literatura é de que esta deveria ser uma ferramenta para o pensamento crítico, e que poderia ser perigosa para a ordem social, se colocada em mãos erradas, ou na mão de muitos. Receava por aqueles que queriam controlar o poder através da palavra escrita. 

Thamuz achava que ao utilizarem a escrita seus súditos perderiam uma parte do intelecto - a memória - por deixar de exercitá-la, da mesma forma que o ser humano atrofia as pernas ao utilizar outros meios de locomoção, que não exigissem exercício físico. A oralidade tinha, naqueles tempos, de forma mais acentuada, o aspecto místico e hipnótico, necessário à dominação político-religiosa. A repetição de versos e lendas, de forma constante e prolongadamente, tem o efeito de entorpecer a mente humana, submetendo-a. As religiões, sempre , utilizaram de orações repetitivas como uma forma de domínio. Não podemos fazer muitas suposições das distorções, intencionais ou não, nas modificações dessas transmissões. 

Platão se mantém fiel ao seu pensamento no sentido que a verdadeira doutrina filosófica não pode ser transmitida através da escrita, ela deve ser transmitida via oral. Só dessa forma, poderia ser moldada, segundo ele, sob a forma de diálogo, na mente de seus discípulos, a construção da imagem dualística. Acreditava na imagem se construía através do diálogo, na diferença. Esta é uma das razões por que não gostava de escrever. Thamus pode ser interpretado, como um hábito comum entre os estudantes que se habituam a fazer anotações, escrevendo furiosamente e decorando grandes quantidades de textos, na esperança de que estas atividades sirvam como substituto para a verdadeira compreensão. 

Essa visão da retórica como essencialmente dialética (ou talvez da dialética como essencialmente retórica) destrói para sempre qualquer possibilidade do modelo retórico de duas etapas, no qual o conhecimento é descoberto por qualquer outros meios e, posteriormente, transmitido pela retórica. Este modelo é bem próximo ao de Platão, mas, também, pode ser visto em Aristóteles, que trata a retórica preliminarmente como uma maneira de descobrir os argumentos para suportar o ponto de vista. Não como uma maneira do descobrimento do ponto de vista em si. 

Se houver alguma diferença entre retórica e literatura, não é na coisa em si, mas no seu uso. O ponto é que os textos literários podem não possuir uma compreensão estável, e nós não poderíamos fazer uma distinção razoável entre os textos literários e os não literários. 

Fica evidente que o conceito de verdade platônico-aristotélico, montada em cima de um discurso analógico, permeia por toda a Idade Média, através de seus intérpretes - Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, transpondo o discurso analógico-espiritual cartesiano[18], chegando até meados do século XIX. O que se pretende demonstrar é que, calcado nos conceitos de verdade de Platão e Aristóteles, montados em representações feitas por comparação, desenvolveu-se na cultura ocidental cristã, com raras exceções, um discurso cultural romântico, policiado pela censura eclesiástica. 

Dentro desse clima, não seria de estranhar que "coisas" fossem "vistas" em borrões de tintas, nas chamas de uma fogueira, nas manchas, nuvens e assim por diante. Alguns, de maneira mais sugestionados que outros... 

Hamlet: Vedes lá embaixo aquela nuvem que tem quase a forma de um camelo? 

Polonius: Virgem Santa! É tal qual um camelo! 

Hamlet: Parece-me uma doninha. 

Polonius: O dorso é como o da doninha, na verdade. 

Hamlet: Ou como o da baleia. 

Polonius: É justamente como o da baleia.[19] 

Um dos escritores românticos mais populares, significativos e sempre lembrado deste período, Alexandre Dumas[20] (1802 - 1870), ao ser indagado como compararia o seu sucesso com o do filho, Alexandre Dumas Filho[21] (1824 -1895), assim se exprimiu: 

"Quanto a mim apanho meus assuntos em meus sonhos, meu filho os apanha na realidade. Enquanto trabalho com os olhos abertos, eu desenho, ele fotografa." Alexandre Dumas[22] 

A resposta expõe não só a diferença entre o romantismo e o realismo na literatura, mas também coloca em cena um detalhe extremamente significativo, responsável por uma das mais significativas mudanças de rumo no campo da cultura de nossa sociedade - a fotografia. A invenção de Nicéphore Niepce[23], em 1816 e mais tarde aperfeiçoada por Daguerre em 1839, alterou profundamente os conceitos da representação. A imagem da "verdade" passa a ter uma outra conotação, alterando a arte da representação baseada na fisiognomonia[24]. 

Os diversos movimentos da alma se exprimem por si só sob nossas vistas, sem interferência de nossa vontade, pelo jogo dos músculos da face.[25] 

No Brasil colônia, a cultura literária se inicia de forma contrabandeada e elitista. A primeira biblioteca aqui aportou, com a chegada do Príncipe Regente em 1808, instalando-a na Ordem Terceira do Carmo, no Rio de Janeiro. Data do mesmo ano, a inauguração da produção gráfica, com instalação da Imprensa Régia, e de sua Junta de Censores. O nosso Theuth não era muito diferente do egípcio. É verdade que outras tipografias foram se instalando, cercadas pelos privilégios concedidas aos nossos patrícios. 

Tomemos um exemplo interessantíssimo sobre um livro de grande repercussão, que teve igual sucesso no cinema - O Nome da Rosa[26], do semilogista Umberto Eco. O nome em si, já, é uma provocação semiológica. Qual é a cor da rosa? "A rosa é vermelha", já se prestou a inúmeras explicações, desde Aristóteles passando por Kant e Hegel. Não se trata certamente nem da Rosa de Luxemburgo, nem da de Tóquio. Não se discute seu comprimento de onda da cor vermelha, nem se esta absorve todas as cores, menos o vermelho. Nem que o vermelho, como o perfume da rosa, é diferente para cada pessoa. Mas o conceito que atribuímos àquela tonalidade, que a todos se assemelha igual, porque atribuímos certos valores, através da linguagem. 

Se não tivesse acontecido algo de novo, estaria ainda aqui a perguntar-me de onde vem a história de Adso de Melk, porém em 1970, em Buenos Aires, espiando nos bancos de um pequeno livreiro antiquário em Corrientes... (p. 13) 

De maneira a homenagear seu grande amigo, o escritor argentino Jorge Luis Borges[27] cria o personagem Jorge de Burgos. 

E se vós sois, como creio eu, frei Guilherme de Baskerville, o Abade precisa ser avisado. (p. 36) 

Clara alusão à obra O cão dos Baskerville[28], de Arthur Conan Doyle, onde o detetive Sherlock Holmes desvenda numa novela de terror habilmente construída, o mistério de várias mortes. Guilherme de Baskerville é apresentado, logo no início, como o detetive que vai desvendar a trama em torno do segundo livro da poética de Aristóteles. Coincidentemente, o papel de Guilherme é entregue ao ator Sean Connery, que se notabilizou através do espião James Bond, que tinha entre as suas funções a investigação. 

Para encontrar a saída de um labirinto, recitou Guilherme de Baskerville,... (p. 206) 

É de amplo conhecimento que Umberto Eco usava o pseudônimo de "Dédalo", que significa labirinto. 

Os exemplos se sucedem, e Umberto Eco não é absolutamente uma exceção. Pelo contrário, o ser humano se exprime em todas as modalidades culturais, colocando seu embasamento cultural intencionalmente ou não, conscientemente ou não. O historiador, como pesquisador, busca desvendar o que não é revelado normalmente nas entrelinhas do texto, mas o que está oculto sob o tecido onde o discurso se apresenta. Como Morelli[29], que desenvolveu a técnica de identificar a autenticidade das pinturas, não pelos traços principais, mas por aqueles descuidadamente deixados pelo artista. 

A Rosa é vermelha, 

As violetas são azuis; 

Os cravos são delicados, 

Como você! 



[1] COELHO NETTO, J. Teixeira. Semiótica, Informação e Comunicação. 5a Edição, São Paulo: Perspectiva, 1999, p. 15. 

[2] univie.ac.at/Wissenschaftstheorie/srb/srb/unbound, 08/08/1999. 

[3]130.179.92.25/Arnason_DE/Saussure, 09/10/1999. 

[4] hydra.umn.edu/derrida/jd, 18/05/1997. 

[5] ECO Umberto, Cult. São Paulo: Lemos, no 20, março 1999, p. 25. 

[6] George Boole (1815 - 1864) é conhecido sobretudo, por suas duas obras fundamentais; Análise Matemática da Lógica e Pesquisas sobre as leis do pensamento. Seus trabalhos deram origem a um novo ramo das ciências matemáticas - a "Lógica Booleneana". A linguagem dos computadores do século XXI, é baseada nos seus princípios. 

[7] Os estudos de George Boole, estabelecendo os conceitos de AND (+), OR (.) e NOT (-), são os pilares não só da lógica digital, mas também da linguagem da informática, extremamente comum e indispensável à pesquisa na Internet. 

[8] .runet.edu/~lridener/courses/MYTH, 28/09/1999. 

[9] coe.ohio-state.edu/deford/mccracke, 04/06/1999. 

[10] geocities.com/Athens/Delphi/2795/michel_foucault, 10/08/1999. 

[11] United Nations Education, Science and Culture Organization.(Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura). 

[12] Naucratis, colônia comercial grega fundada em 610 AC por Mileto, próxima de Alexandria. 

[13] Platão, Phèdre. Paris: Garnier, , 1964. Tradução para o francês por Emily Chambry. 

[14] Santo Agostinho (354 - 430), Doutor da Igreja Católica, autor de As Confissões (397) e A Cidade de Deus (413-427). 

[15] Os Pensadores. Vol. VI. 1a Edição, São Paulo: Abril, 1973, p. 145. 

[16] Ibidem, p.204. 

[17] TOYNBEE, Arnold (1889 - 1975) Historiador inglês, diretor de pesquisas do Royal Institute for International Affairs, dedicou-se à filosofia da história e escreveu Study of History, em 12 volumes. 

[18] René Descartes (1596-1650). 

[19] SHAKESPEARE, William. Hamlet. Ato III, Cena II, 2a Edição, Porto (Portugal): Lello & Irmão - Artes Gráficas, p. 158 - 159. 

[20] Autor entre outros de "Os três Mosqueteiros", "O Conde de Monte Cristo" e o "O colar da rainha". 

[21] Autor entre outras de "A dama das Camélias", "Vida Mundana" e o "O filho natural". 

[22] galleyslaves.com/franlit, 14/07/1999. 

[23] .multimedia.calpoly.edu/libarts/vrc/art314/midterm, 25/06/1999. 

[24] Fisiognomonia, ramo da miologia (parte da anatomia que estuda os músculos), é o conhecimento do homem interior pela observação do homem exterior. 

[25] BELLANGER, Camille. L'Art du Peintre, Tome I. Paris: Garnier, p.207. 

[26] ECO, Umberto. O Nome da Rosa. 7a Edição, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. 

[27] universus.com.br/art26, 14/06/1997. 

[28] CONAN DOYLE, Arthur. O Cão dos Baskerville. 2a Edição, São Paulo: Melhoramentos. 

[29] GINZBURG, Carlo. Mitos, Emblemas, Sinais. 2a Reimpressão, Rio de Janeiro: Companhia das Letras.


Moacyr Mallemont Rebello Filho 
Todos os direitos da pesquisa pertencem ao Historiador.
     

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