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A Contemporaneidade e os gêneros literários:
pedagógico e/ou performático
A sociedade do imitatio literário e as atuais interrogações
Ainda hoje Aristóteles está por trás das reflexões sobre poética.
Mas, será que a sua classificação atende ao dinamismo da Contemporaneidade? Será que o modelo aristotélico de pensar a poética não reforçaria o que hoje queremos abandonar, a não-leitura de outras expressões literárias e o desrespeito a diversidade? Será que a leitura que foi dada à sua obra não foi atenta o suficiente para observar os “reais” objetivos de seu modelo filosófico da realidade idealizada dos gregos e tão imitada pela sociedade ocidental; como puramente imitatio
descaracterizando a mimese, totalmente descontextualizado. Conseqüentemente, utilizando-se dessa corruptela filosófica, a poética, também, é levada a uma proposta universalista, a partir de uma visão reducionista1 do homem e seus modos de
expressão. Tentativas para a construção de novos modelos que suportassem um novo pensar na poética foram feitas a exemplo do TEXT-SORTEN, em que se apresenta um universo direcionado para a classificação histórica, no que tange à assimilação de grupos e gêneros com “a aproximação entre teoria e práxis literária, que tem lugar a partir de um papel cada vez maior da segunda na reflexão sobre os gêneros, é o que faz das abstrações genéricas categorias flexíveis” (BERRIO/FERNÁNDEZ, 1999:160). Em outra provável resposta ao reducionismo dos gêneros, Genette propõe, de maneira sutil, apenas a preocupação com a transcendência textual, ou seja, a transtextualidade como resposta à problemática da diversidade literária contemporânea, e alude de onde adviria a “raiva de sair: do texto pelo gênero, do gênero pelo modo, do modo”(GENETTE, p.97). Porém, ainda fica a clara impressão que continuaríamos presos aos gêneros essenciais. Permanece a questão: Já está na hora de criarmos, ou ainda é necessário o uso de “modelo ideal” grego? Em busca de respostas para a diversidade contemporânea.
É verdade que a cosmovisão e a linguagem que dela adveio foram o leitmotiv de uma tendência em busca da renovação em que a imaginação lírica e subjetiva se associava a engajamento político, não somente partidário, mas como construtor do processo dialético do homem. É construída uma nova visão filosófica do mundo, a qual questionaria a metafísica aristotélica, tendo como suporte as reflexões de Nietzsche, onde o homem tem direito à cisão: não é mais fruto de uma essência inacessível, em verdade ela nem existiria. Existe sim, a contradição que “remete a uma realidade histórica e cultural apriorística e ganha um novo sentido, social e literário, por força da reelaboração mobilizada tanto pela razão filosófica – nietzschniana (inserção nossa) quanto pela imaginação poética – reflexo do contexto histórico (inserção nossa) “ (dois gumes.html:2). Toma-se um pouco da idéia de Genette, transtextualidade, e a partir do texto tem inicio um processo de compreensão da organicidade complexa de seus múltiplos e às vezes contraditórios componentes. Aqui, a categorização clássica de gêneros e modos não tem razão de existir; o processo agora interpretativo, busca a compreensão interdisciplinar e subjetiva/objetiva de dados de significação da interação sujeito/objeto e objeto/sujeito. Um método dialético que pode atender às questões de conteúdo/forma, tipo/modo, desde Platão/Aristóteles, mesmo com sua visão metafísica, até as atuais traduções do caráter da narrativa das nações e suas interpretações do pedagógico2 e/ou performático3, como provável releitura do tipo e/ou modo da visão clássica, em uma abordagem com base na cisão do homem fazendo interpretações e oportunizando, sem tendências e exclusões, a diversidade literária da contemporaneidade.
Silviano Santiago já denuncia a necessidade de quebra contra o imitatio ocidental, bem como a construção de um novo modelo, quando diz que “declarar a falência de tal método implica a necessidade de substitui-lo por um outro em que os elementos esquecidos, negligenciados, abandonados pela crítica policial serão isolados, postos em relevo, em benefício de um novo discurso crítico, o qual por sua vez esquecerá e negligenciará a caça às fontes e às influências e estabelecerá como único valor crítico a diferença” (SANTIAGO, 1978:21). O que já era sinalizado por Roland Barthes, em S/Z, ao propor a divisão dos textos em textos legíveis e textos escrevíveis. O contemporâneo anuncia necessidade de mudanças.
Insiste-se, ainda hoje, encontra-se saídas, para a questão da poética, a partir do modelo grego, apesar de todas os estudos do contexto histórico. O que só reforça o tipo literário de modelo linear, excludente, com caráter instrucional, caracterizando o que podemos denominar de modelo pedagógico da exclusão, que falaciosamente refletiria o modo literário que denominaríamos de performático. Este problema vem se acentuando com os tempos, a ponto de na Contemporeidade – onde a mídia e os recursos tecnológicos possibilitam oportunizar um número maior de informações para um número cada vez maior de segmentos sociais e conseqüente diversidade cultural e representações, até então excluídos – encontramos o “novo entrando no mando” (HALL, 2000:92) que os mais ortodoxos chamam de “decadência cultural”, por não estarem em consonância com o modelo pedagógico excludente. Temos como exemplo de diversidade, um texto – Uirapuru, de Waldemar Henrique, onde estão presentes os sentimentos e as emoções, em que uma exposição
poético-subjetiva, como no gênero lírico a exemplo dos versos “Caboclinho, meu amor/ Arranja um para mim”, ao mesmo tempo em que temos o sinal marcente da narrativa do gênero épico, com uma exposição objetiva nos versos “Certa vez de montaria? Eu descia um “paraná”. Além de termos o claro papel da alteridade, enquanto o narrar de uma voz interprete do outro, a ação da cisão do sujeito que é escrita no momento em que o narrador se utiliza da figura metonímica do “caboclo falador” nos versos “O caboclo que remava/ Não parava de fala á á/ Que caboclo falador!“, e do “caboclinho”em torno dos quais gira uma questão de identidade nos versos “O caboclo vai sofrer/ Eu vou desassossegar/ O seu bem querer á á/ Ora deixa ele pra lá...”Como fazer um juízo de valor a partir desse hibridismo cultural, dessa alteridade tentando sintonizar uma harmonia das identidades inseridas no texto? A não-possibilidade de respostas no espaço analítico da categorização literária clássica no novo momento histórico, em que a arte já não procura uma essência absoluta, mas uma interpretação que traz o texto para si, incorporando-a a
“mundos”, de forma a poder devolve-la dentro da alma do contexto vivido, leva-nos a necessidade de encontrarmos novas pedagogias que reflitam o performático da diversidade, a partir de uma ruptura do modelo de bases metafísicas, o que nos levaria a entender que todos os embates na categorização dos gêneros se dão em função da mimese em torno de duas realidades que Aristóteles, mesmo em um momento mimético da Antiguidade Clássica, sinalizava que: “não é oficio de poeta narrar o que aconteceu; é sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade (grifo nosso). (POÉTICA, 1993:53 – 1451b). Sabemos que verossimilhança remete a coerência interna da obra literária no tocante ao mundo imaginário das personagens e situações recriadas, mas para que isso aconteça é necessário a referencialidade de uma realidade, que Waldemar Henrique narrou em seus versos: “Me contou do lobishomi/ Da mãe-d’ água, do tajá/ Disse do jurutahy” que para Nietzsche “os gregos tinham sido os primeiros a reconhecer quanto a vida humana dependia das faculdades mitopoéicas do homem,de sua capacidade de se dedicar a um sonho de saúde e beleza em face de sua própria aniquilação iminente” (WHITE, 1995:345). A diversidade dos textos na Contemporaneidade, leva-nos ao encontro de problemas com a verossimilhança e mimese em um loccus analítico, onde a linguagem dos textos sugere uma “...circulação do significante em sua duplicidade e deslocamento, o significante não permite ao signo nenhuma divisão recíproca, binária, de forma/conteúdo, superestrutura/infraestrutura, eu/outro. É somente pela compreensão da ambivalência e do antagonismo do desejo do Outro que podemos evitar a adoção cada vez mais fácil da noção de um outro homogeneizado, para uma política celebratória, oposicional, das margens ou minorias.”(BHABHA, 1998:87), presente nos seguintes versos: “O diabo foi-se embora/ Não quis me dar/ Vou juntar meu dinheirinho/ Pra poder comprar” e a necessidade da manutenção da “plena consciência dos fundamentos fictícios em que...” (WHITW, 1995:346) repousa as realidades defendidas, assim como nos versos: “Que mangava de visagem/ Que matou surucucu/ E jurou com pavulagem/ Que pegou uirapuru á á/ Que caboclo tentado”. Mas se não for assim qual será o objetivo da arte? Propiciar a exclusão ou ser um dos instrumentos de leitura social? É importante rompermos com categorizações lineares, homogêneas, que perpetuem a exclusão das culturas; no entanto, é necessário categorizarmos o homem enquanto agente da sua própria história, num processo em que o Text-Sorten focalizaria a relação da obra com o sujeito e do sujeito com a obra, quebrando a idéia de neutralidade, de leitura unidirecional e contemplando o método analítico interdisciplinar, favorecendo a dialética do homem.
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1.Decorrente da visão do homem como essência, não observando as especificidades.
2.Modelo de ensino com visão instrucional e ideológica.
3.Atuação,agir.
4.Texto que pode ser lido, mas não escrito, não reescrito.
5.Texto como modelo produtor e não representacional.
BIBLIOGRAFIA
· ARISTÓTELES. Poética. Tradução: Eudoro de Souza. São Paulo: Ars Poética, 1993.
· BERRIO, Antonio Garcia, FERNÁNDEZ, Teresa Hernández. Poética: tradição e modernidade. Tradução: Denise Radanovic Vieira. 1a. Ed. São Paulo: Littera Mundi, 1999.
· BHABHA, Homi K. O local da Cultura. Tradução: Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: ED.UFMG, 1998.
· CHAVES, Nilson, LIMA, Vital. Waldemar. Belém: Outros Brasis. Digital, stereo. 1 CD.
· GENETTE, Gerard. Introdução ao arquitexto. Lisboa: Veja, 1986 (Universidade).
· HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. (Tradução de Tomaz Tadeu da Silva ) 4a. Ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.
Daniel dos Santos Fernandes
Mestre em estudos literários.
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