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Às vezes, as pessoas acreditam que a ética é inaplicável ao mundo real,
notadamente quando imaginam que seja possível entendê-la ou aceitá-la como
sendo um sistema de normas simples e breves, contendo proibições para vários
tipos de comportamentos. Isso não é possível. E nada tem a ver com a ética.
na acepção mais rigorosa do termo. A ética, também, tem sido muito
confundida com as questões de ordem sexual. O sexo não coloca nenhuma questão
moral sob enfoque. “As decisões relativas ao sexo podem envolver
considerações de honestidade, de preocupações com os outros, etc., mas não
há nisso nada de particular com o sexo”.
São questões que se aplicam, por exemplo, e do mesmo modo, ao ato de dirigir.
Outra confusão que se faz com a ética é a sua abordagem dentro do contexto
religioso. A ética não é inteligível, somente, no contexto religioso. A
ética também não é relativa nem subjetiva. A idéia de que a ética é
relativa a sociedade em que se vive, é verdadeiro num sentido, e falso em
outro.
A abordagem sob o prisma do utilitarismo, uma das teorias sobre a ética
denominadas de conseqüencialistas, é discutível. Para o utilitarista, mentir
seria mau em algumas circunstâncias; e bom em outras. Tudo irá depender das
conseqüências que o ato trará. Mentir para os alemães, dizendo que não é
judeu, pode ser bom nas circunstâncias de uma guerra. Mentir em juízo, para
tentar ser absolvido, pode não sê-lo. Isso não passa de uma forma superficial
de relativismo. Os marxistas adaptaram o relativismo às suas teorias. “As
dominantes de cada período, diziam, são aquelas das classes dominantes,
portanto, a moralidade é relativa a classe econômica que a domina”. Nada
mais falso.
Engels foi mais confuso ainda. Abordou o problema abandonando o relativismo em
favor da afirmação mais limitada de que a moralidade de uma sociedade divida
em classes será sempre relativa à classe dominante, “ainda que a moralidade
de uma sociedade sem antagonismos de classes pudesse ser uma moralidade
realmente humana. Isso já não tem nada de relativismo. Apenas uma série de
idéias relativistas e muito pouco claras.
As crenças e valores dentro dos quais fomos criados podem, de fato, exercer
influência sobre todos nós. Mas quando refletimos sobre esses valores, podemos
agir de acordo como que está sendo sugerido ou não. Ou seja. Quando digo que a
escravidão é errada, na verdade estou dizendo que a minha sociedade condena a
escravidão. Quando os proprietários de escravos de outra sociedade dizem que a
escravidão é correta, Só estão dizendo que eles aprovam a escravidão. É
ambos podem estar dizendo a verdade. Não há o que discutir nestes termos. O
relativista não pode explicar o não-conformista. Estas dificuldades derrubam o
relativismo ético.
Há esboços de concepções sobre a ética. Calcadas na razão que são mais
plausíveis de entendimento. Desde os tempos mais remotos, filósofos e
moralistas vêm expressando a idéia de que a conduta ética é aceitável sob o
ponto de vista que é, de certa forma universal. “O Preceito Áureo,
atribuído a Moisés, que se acha no Levítico e foi, subseqüentemente ,
repetido por Jesus, diz que devemos ir além de nossos interesses pessoais e
amar os nossos semelhantes como amamos a nós mesmos”. Atribuir ao alheio o
mesmo peso que atribuímos aos nossos interesses. Temos que concordar que o
princípio ético não se dá em termos de qualquer grupo, parcial ou local, mas
sim, que a ética se fundamenta sob o ponto de vista universal. A verdade é
única.
Estou com Leonardo Boff:
“Tudo o que existe e vive precisa ser cuidado para continuar a existir e a
viver: Uma planta, um animal, uma criança, um idoso, o planeta Terra. Uma
antiga fábula diz que a essência do ser humano reside no cuidado. O cuidado é
mais fundamental do que a razão e a vontade. ..(...) . Cuidado com a Terra, com
a sociedade sustentável, com o corpo, com o espírito, com a grande travessia
da morte. A ótica do cuidado funda uma nova ética, compreensível a todos e
capaz de inspirar valores e atitudes fundamentais para a fase planetária da
humanidade. Saber Cuidar – ética do humano – compaixão pela terra. Editora
vozes – 7a. Edição..
Domingos Oliveira Medeiros
2003.
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