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Quando o homem pisou na lua,
pela primeira vez, algumas pessoas apostaram: o homem iria dominar as galáxias;
e provar que as religiões não passavam de teorias sem qualquer sentido. Que o
sobrenatural e o divino nunca existiram. Que o homem era o próprio Deus.
Criador e criatura, cuja evolução da espécie se daria a partir de um processo
biológico normal. Ledo engano!
Depois, vieram novos avanços tecnológicos. E o homem continuou com o seu
desejo, enraizado em sua obscura mente, de um dia poder provar que ele seria o
único ente de inteligência superior deste planeta.
Lembro-me da televisão. Em preto e branco. E, logo em seguida, a cores. E,
novamente, o grito do falso rei: o cinema não durará muito tempo. Ledo engano!
Quem haveria de deixar de assistir, em sua própria casa, com direito a suco,
pipoca e banheiro particular, o filme de sua preferência? Resposta: quase ninguém.
E a televisão e o cinema, desde então, caminham juntas. Cada qual com sua
“personalidade” e atrativo próprios. Uma não substitui a outra.
Do mesmo modo, pensava-se em relação ao livro quando os microcomputadores
tornaram-se populares, invadindo residências, escritórios, bancos, escolas,
universidades e mercados de todos os recantos deste planeta. Ledo engano! O
livro convive em perfeita harmonia com a internet. Não são, felizmente,
mutuamente excludentes.
O livro mantém a sua magia. Muito mais, até, eu diria, do que o próprio mundo
virtual dos computadores. A começar pelo formato do livro. Pela facilidade de
transportá-lo. Por permitir contato direto com o leitor; que o sente em suas mãos;
que o folheia, com rapidez; e pelo seu cheiro característico. Seja ele um livro
novo ou velho, todo livro tem odor próprio. “Personalidade” , se me
permitem a força de expressão.
Vou mais longe. O livro ainda leva grande vantagem em relação ao milagre da
comunicação, a internet. No mundo virtual, por exemplo, o cheiro é igual para
qualquer leitura. E a leitura, via telinha, até para textos pequenos, torna-se
incômoda. Fastidiosa. Mesmo que se imprima o texto, não se tem solução
adequada. Com relação ao tato, além de menor, é quase nenhum. E o que se diz
nas entrelinhas do texto, o que se comunica, na verdade, nem sempre é o que se
imagina. De fato, nem sabemos, ao certo, com que estamos trocando nossas idéias.
No livro, ao contrário, a coisa muda de figura. Realidade e fantasia se
misturam num mundo único e verdadeiro. Mundo, aliás, onde não existe o fator
tempo. Presente, passado e futuro pode,acontecer a qualquer momento. E todos
sabemos com quem estamos trocando nossas idéias. Independente de sua idade; e,
até mesmo, se nosso interlocutor está vivo ou morto. Contextos, autores,
leitores e personagens se misturam.
Na semana passada, por exemplo, estive conversando com o poeta Manuel Bandeira.
Falamos sobre sua amizade com o rei de Pasárgada. Trocamos idéias sobre a
cidade que ele tanto ama. E falamos, também, da preta velha, a Irene, sempre de
bom humor, segundo o poeta. A Irene é aquela pessoa que, de tão pura e
bondosa, não precisa pedir licença para entrar no céu, quando chegar a hora
da sua partida. Coisas do poeta Bandeira.
Outro dia, o Mário Vargas Llosa, conhecido escritor peruano, esteve aqui em
casa. Conversamos bastante. Falou-me de sua impressão e admiração pela Madre
Teresa de Calcutá. Ele conheceu, de perto, a obra daquela pequena gigante da
fraternidade e da caridade. Mostrou-se encantado com o trabalho, apesar de que
ele deixou transparecer que, a exemplo do Saramago, escritor português e Nobel
de Literatura, não acredita muito na existência de Deus. Coisas de
determinados intelectuais.
O Mário falou-me do seu último livro, cujo título é “A Linguagem da Paixão”.
Até me deu um exemplar. O livro é bem interessante. Reúne textos publicados
em sua coluna “Pedra de Toque”, no jornal El País, de Madri, entre 1992 e
2000. Os assuntos são diversificados. Discutimos sobre os temas ali abordados.
Não houve concordância entre o meu pensamento e o do referido autor, em relação
à algumas idéias do autor. Cheguei a apresentei-lhe as minhas razões. E ele
ficou calado. Provavelmente num gesto de humildade ou de respeito às minhas
opiniões.
Aqui em casa tem aparecido gente de todos os tempos e idéias. Ontem mesmo,
estive conversando com o Machado de Assis. Falou-me de seu livro “Memórias Póstumas
de Brás Cubas. E o Monteiro Lobato, aquele do sítio do pica-pau amarelo.
Fiquei impressionado com o autor. Ele consegue reunir fantasia e realidade, sem
que a gente perceba a diferença. Verdadeira aula de responsabilidade, amizade,
felicidade, criatividade, respeito aos mais velhos e, sobretudo, um mar de belos
sonhos que inunda a imaginação das crianças.
E não pára por aí. O amor que ele sente pelo Brasil é contagiante. A sua
luta para a preservação de nossas riquezas, como o petróleo, é muito atual,
corajosa e persistente. Além de escrever para um público infantil, o Lobato
escreve sobre temas para adultos, com a mesma precisão, talento e
originalidade. Ele me lembra o francÊs Antoine Du Sant Exupéry, autor de
“Terra dos Homens” e “O Pequeno Príncipe”. Que também já esteve aqui
em casa, se não me engano, ano passado. Ele voltou a falar na mensagem de um de
seus livros, segundo a qual todos nós, de certa forma, somos responsáveis pelo
que cativamos. Fiquei sabendo, também, que o Antoine gosta de pilotar aviões.
Por essas e outras razões é que o livro, de modo geral, é insubstituível. Até
porque ele guarda muitas semelhanças com o ser humano.
O livro, do mesmo jeito que nós, é gerado com muito amor. A inspiração para
escrever um livro é, na verdade, a fase de concepção. Depois vem a fase
embrionária, a partir da qual o livro começa a nascer. A tomar sua forma e a
crescer.
Sua maternidade é passada na gráfica, o seu hospital. Que lhe presta os
primeiros atendimentos. Editoração, revisão e impressão. E nasce mais um
filho nosso. A capa do livro é a sua cara. E a capa, por isso mesmo, deve ser a
cara do pai. Do autor de seus dias, junto com sua mãe, a inspiração. Com
todos os seus traços genéticos. Jeitos e trejeitos.
Desde a fase de sua concepção, de modo semelhante aos bebês de carne e osso,
começamos a pensar e a selecionar um nome para o livro. O livro tem que ter
nome bonito; e bem sugestivo. Para dar o toque de sua “personalidade”.
Finalmente, é bom lembrar que nós, os pais, devemos ter muito cuidado com a
criação e educação de um livro. Do mesmo que fazemos com nossas crianças. O
miolo do livro tem que ter bom conteúdo. Boa formação escolar. De modo a
enfrentar as adversidades da vida.
É preciso ensiná-lo a “falar” e a escrever corretamente. Dotá-lo de boa
cultura. Para que ele possa expressar-se, com clareza, e sobre todos os
assuntos, com sabedoria e preocupação com o próximo.
Só desse modo ele estará em condições de alcançar algum sucesso. Primeiro,
nas livrarias, repassando, para o público interessado, suas idéias e opiniões.
E receber, com humildade, as críticas e sugestões. A fim de que possa ir
aperfeiçoando o seu estilo. Agregando valor e conhecimento, na sadia e necessária
troca de informações com outros autores de outros livros.
E saber envelhecer. E ver os netos - no caso as edições e re-edições -
continuarem a nossa geração de pensamentos e entretenimentos sempre úteis e
positivos.
Nesta hora, já bem idoso, talvez estejamos em alguma prateleira de alguma
escola ou universidade, ou no asilo - os sebos -, nas lojas que vendem livros
usados. Ou, se a sorte for maior, e a cultura local assim permitir, ainda com saúde
e com boas idéias, possamos alongar nossa permanência nas grandes livrarias ou
outros locais afins.
O importante é sabermos que, quando chegar a nossa hora, a hora da morte
material, ficarão, cá na terra, como exemplos para as gerações futuras, as
nossas idéias e os caminhos por nós sugeridos.
Por isso, é sempre muito bom aprender a ler e a escrever. A saber o que ler e o
que escrever. Em benefício do mundo em que vivemos. E das gerações que estão
por chegar.
Domingos Oliveira Medeiros
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