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Há tempos que se fala em reformas neste país. E uma delas, a reforma
política, no meu entendimento, é a mais importante de todas. Pelo menos na
ordem de tratamento. Porque ela irá definir, com segurança e transparência, o
processo através do qual a população fará a escolha dos nossos
representantes. Tanto no Congresso Nacional, como no Poder Executivo. Escolhendo
o responsável pela condução dos destinos dessa grande e amada nação chamada
Brasil: o nosso presidente.
Precisamos dar maior
consistência, transparência e segurança ao processo eleitoral. Não podemos
permitir a continuidade de disfunções atualmente existentes. Questões como a
imunidade parlamentar e a infidelidade partidária, por exemplo. Não menos
importante, a questão da representatividade. Não é possível continuar com a
figura do suplente, pelo menos da maneira como atualmente se coloca. Um estranho
no ninho. Que chega ao poder pela porta dos fundos. Sem ser nomeado e sem passar
pelo crivo das urnas.
Outra questão: a do voto
vinculado. Que consegue o paradoxo político de eleger pessoas com votação
irrisória, muito aquém de seus pares. É o caso do Deputado Enéas, cuja
maciça votação permitiu o acesso ao poder de um grupo de candidatos
reprovados pelas urnas. Em detrimento de quem obteve maior votação.
Simplesmente, inadmissível.
E tem mais: a necessidade
de reorganização do processo legislativo. Que envolvem comportamentos e
procedimentos. Como o voto secreto, o voto de liderança, o trancamento da
pauta, a votação em bloco, e a votação sem a devida análise, por conta de
atraso e acumulação de projetos-de-lei que se acumulam por faltas constantes
dos parlamentares às seções da Casa. E também por conta da desnecessária
correria, quase sempre forçada, para a aprovação de matérias durante a
convocação extraordinária. Extraordinária, na verdade, no que diz respeito
aos ganhos duplicados dos parlamentares. Ganhos que, por certo, poderiam ser
evitados. Se houvesse maior disciplina para o comparecimento e para a votação
das matérias, no decorrer do período legislativo. É questão de disciplinar o
tempo.
E tem ainda a questão do
excesso de partidos e de parlamentares. Acredito que, no máximo, quatro
partidos seriam mais do que suficiente para abrigar todas as correntes e
ideologias possíveis e imagináveis. Assim com acho excessivo o número de
parlamentares. E disforme a sua representatividade. Questiono, também, se não
seria melhor acabar com o Senado e suas funções redistribuídas para o
Congresso Nacional, sem prejuízo de sua eficácia.
O instituto da reeleição
não me agrada. Entendo que ele caminha na contramão da rotatividade do poder.
Talvez aumentar o mandato para seis anos. E acabar com essa possibilidade de
perpetuação no poder. Que sempre traz o malefício da dúvida, no que tange ao
uso da máquina administrativa para conseguir a reeleição. Principalmente
porque ela é extensiva aos titulares dos poderes estaduais. Aliás, tanto no
âmbito estadual como na esfera municipal, há questões a serem modificadas. No
que tange à quantidade de representantes estaduais e municipais, bem como em
relação à necessidade de tantas câmaras de vereadores. Em cerca de 5.700
municípios, talvez, apenas dez por cento poderia justificar representação
política organizada em Câmaras de Vereadores. Há portanto, no meu
entendimento, um excesso de gastos nem sempre assimétrico em relação ao
custo/benefício político, econômico e social. Milhares de cidades poderiam,
tranqüilamente, ter sua administração entregue a uma comissão formada por
três ou quatro representantes locais, que serviriam de elo de ligação junto
ao respectivo governo do estado. A estrutura legislativa brasileira,
principalmente a municipal, de modo geral, é muito dispendiosa e, a rigor, até
atrapalha as ações do governo central e estadual.
E tem outras abordagens
para esta reforma política. São os mitos e os costumes arraigados neste
contexto.. Refiro-me às definições usualmente aceitas, que, ao mesmo tempo
que tentam generalizar posições ideológicas e partidárias, confundem a
opinião pública e favorecem ao descumprimento de compromissos e à
descaracterização dos partidos políticos.
Não é mais possível
falar em direita, esquerda, e centro. São definições obsoletas, superadas e
que, a rigor, nada dizem. O sentido, de agora em diante, deverá ser para a
frente e para o alto. Avançando e crescendo. Até porque, numa roda de
negociação, quem se colocar muito mais à direita, acabará na esquerda, e
vice-versa. E quando a oposição chega ao poder, ela vira situação. E o
conceito de direita e esquerda, muda de lugar. Invertendo o seu sentido original
ou permanecendo (parcial ou totalmente) no mesmo lugar.
Na verdade, precisamos
acabar com essa idéia de o Poder Legislativo construir maioria para dar
irrestrito apoio ao governo. Isso cheira a barganha. Que é sempre perniciosa
para os nobres propósitos da Casa. Há que reforçar a independência dos
Poderes. Precisamos recolocar o país e o cidadão no centro de todo projeto ou
programa de governo. E não ficarmos atrelados a essa questão de “maioria”
que, no final das contas, só serve como moeda de troca para atender interesses
- quase sempre escusos - de grupos ou de pessoas.
A Casa do Povo não é
nenhum triângulo das Bermudas. Invisível. Pouco claro. Já foi o tempo em que
tudo se resolvia à base do "toma-lá-dá-cá". Com o resultado das
eleições, retornamos às origens. Agora, tudo deverá estar voltado para a
base do triângulo. Seu lado maior. O lado de sua construção. Essa é a grande
metáfora. Que se dará através da negociação. Onde as idéias, num primeiro
momento, caminham no sentido de retas paralelas, durante a discussão e análise
isenta das proposições de matérias que forem colocadas para apreciação.
Até que estas retas se encontrem em algum ponto da discussão. E esse ponto
estará sempre situado onde houver convergência de idéias.
E essas idéias deverão
nortear o centro dos interesses maiores. O interesse público. Idéias que
terão formas bem definidas. Idéias que se conformem ao traçado da lógica e
da coerência. Buscando os melhores resultados.
Tudo isso é perfeitamente
possível e desejável. Desde que usemos a régua do bom senso e da justiça
social. Da honestidade de propósitos. Do respeito pelo cidadão. Do amor pelo
Brasil. Esta é a geometria política que todos almejamos.
Domingos
Oliveira Medeiros -
10/03/2003
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