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Leitura do Absurdo em Camus - O mito de Sísifo -- 09/03/2003 - 15:23)
Leitura
do absurdo em Camus - O Mito de Sísifo
Camus
esclarece, logo na introdução, que a obra O Mito de Sísifo é apenas um
ensaio e que este contém apenas descrição em estado puro de um mal de
espírito. Ressalta, também, que nenhuma crença, nenhuma metafísica, estão
mescladas ao conteúdo da obra. Camus considerava que avaliar se a vida merece
ou não ser vivida é responder à questão central da filosofia. O restante, se
o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, isto
tudo vem depois. São apenas jogos. Camus cita Galileu , que possuía uma
verdade científica importante, mas dela abjurou com muita facilidade, logo que
tal verdade pôs sua vida em perigo. Para Camus, Galileu fez bem. Afinal, a
verdade não valia a fogueira, pois se a Terra gira em torno do Sol ou vice
versa, isto é um assunto fútil.
É
importante dizer que no ensaio de Camus o suicídio não é enfocado enquanto
fenômeno social; a abordagem é individual e filosófica:
“Matar-se
é confessar. É confessar que se é ultrapassado pela vida e que não a
compreendemos. O suicídio é uma confissão de que a existência não vale a
pena. Assim, morrer voluntariamente implica em reconhecermos, mesmo que
instintivamente, a ausência de qualquer razão profunda de viver e a
inutilidade do sofrimento.” [1]
O
Mito de Sísifo
Os
deuses condenaram Sísifo a empurrar sem descanso um rochedo até ao cume de uma
montanha, de onde a pedra caía de novo, em conseqüência do seu peso. Tal
castigo baseia-se na suposição de que não há castigo mais terrível do que o
trabalho inútil e sem esperança.
Homero
relata que Sísifo era o mais ajuizado e mais prudente dos mortais; há
controvérsias, pois, outros autores relatam que Sisifo cultivava certa
leviandade, tida por censurável, em seu tratamento com os deuses. Revelou os
segredos deles. Egina, filha de Asopo, foi raptada por Júpiter. O pai
espantou-se com esse desaparecimento e queixou-se dele a Sísifo. Este, que
estava ao corrente do rapto, propôs a Asopo contar-lhe o que sabia, com a
condição de ele dar água à cidadela de Corinto. Aos raios celestes, preferiu
a bênção da água. Por tal foi castigado nos infernos. Homero conta-nos
também que Sísifo havia acorrentado a Morte. Plutão não pôde suportar o
espetáculo do seu império deserto e silencioso. Enviou os deuses da guerra,
que soltou a Morte das mãos do seu vencedor.
Diz-se,
ainda, que estando Sísifo quase a morrer, quis, imprudentemente, pôr à prova
o amor de sua mulher. Ordenou-lhe que lançasse o seu corpo, sem sepultura, para
o meio da praça pública. Sísifo encontrou-se nos infernos. E aí, irritado
com uma obediência tão contrária ao amor humano, obteve de Plutão licença
para voltar à terra e castigar a mulher. Mas, quando viu de novo o rosto deste
mundo, sentiu-se inebriado pela água, pelo sol, as pedras quentes e o mar,
recusando-se à voltar para o sombrio inferno. De nada adiantaram as ameaças,
as invocações e a ira de Plutão; ele ainda viveu muitos anos diante da curva
do golfo, do mar resplandecente e dos sorrisos da terra. Até que Mercúrio veio
pegar no audacioso pela gola e, arrancando-o ao prazer da vida, conduziu-o à
força para os infernos, onde o seu rochedo já estava pronto.
Sísifo
é o herói absurdo. Absurdo, tanto por suas paixões como por seu desespero. O
seu desprezo pelos deuses, a sua não-aceitação da morte e a sua paixão pela
vida valeram-lhe esse suplício indizível em que o seu ser se emprega em nada
terminar. É o preço que é necessário pagar pelas paixões desta terra. Não
nos dizem nada sobre Sísifo nos infernos. Os mitos são feitos para que a
imaginação os anime. Neste, observamos o descomunal esforço de um corpo
tenso, que se empenha por erguer a enorme pedra, rolá-la e ajudá-la a levar a
cabo uma subida cem vezes recomeçada; quase podemos ver a face contraída,
colada à pedra; o único suporte ao alcance é o próprio ombro que recebe o
choque da rocha, os pés escorando o peso insuportável, os braços empurrando.
E,
ao final desse incomensurável esforço, quando parece que o objetivo foi
atingido, Sísifo vê, então, a pedra resvalar em poucos instantes para o mundo
inferior, tornando-se imprescindível alçá-la novamente ao cimo. Segundo
Camus, Sisifo o interessa, fascina-o mesmo, nesse breve intervalo de tempo,
nesses microssegundos antes que a pedra resvale, e também no percurso de volta
para a planície, onde tudo recomeça. A certeza do (im) possível? No momento
exato em que empreende a descida dos cimos é que Sísifo é superior ao seu
destino. É mais forte do que o seu rochedo.
É
possível a compreensão de que este mito é tão trágico quanto é presente a
consciência dessa tragédia? Quanto mais sei, mais triste sou. De fato, a
tortura seria entendida como tal, se a cada passo a esperança de conseguir o
ajudasse? A tragédia cotidiana relacionada à suposta inutilidade do viver e do
sobreviver, do sem-sentido do destino, só é verdadeiramente assimilada nos
raros momentos em que nos tornamos conscientes dela. Sísifo reconhece a
extensão de seu tormento, da miserabilidade de sua condição: é nisso que
pensa enquanto desce a montanha.
E,
nesse momento, o rochedo triunfa. O infortúnio é pesado demais para ser
carregado. Ergue-se um rochedo no interior do homem. A noção da tragédia dá
a medida de sua extensão. Mas, há um outro lado: de qualquer forma, ele vai
recomeçar. Essa é uma verdade irrefutável. Essa é a fórmula de sua vitória
absurda. É nesse ponto que o mito e a sabedoria milenar nele embutida,
identifica-se com o heroísmo moderno.
Eis
a descoberta do absurdo em Camus; o sentido do absurdo permeia toda a sua obra.
“O
absurdo é o contrário da esperança. O homem absurdo reconhece a luta, não
despreza a razão e admite o irracional, assim, sabe nesta consciência atenta,
que já não há lugar para a esperança. Não existindo assim aqui nada mais
profundo do que afirmar que o absurdo não é um fato, mas sim um estado. Viver
no estado do absurdo é procurar o que é verdadeiro e não o que é desejável,
deste modo o mundo imobiliza-se, mas ilumina-se!” [2]
A
privação da esperança, a certeza de que não há amanhã, aumenta a
disponibilidade do homem para o AGORA, essa é a iluminação! Para Camus, o que
importa não é viver melhor e, sim, viver mais intensamente.
É
absurda a descoberta de que o destino é assunto dos homens? Devendo,
necessariamente, ser tratado pelos homens? Eis aqui o resgate da alegria de
Sísifo: o seu destino pertence-lhe. O seu rochedo é a sua vida. Dessa mesma
forma, contemplando o nosso tormento, nós, os homens absurdos, fazemos calar
todas as demais vozes; apenas a voz da vida prevalece em seu chamamento secreto,
em seu eterno convite – “vida a que me convidas?” [3].
Os
homens absurdos aceitam esse convite, dizem sim e os seu esforços nunca mais
cessarão.
“Se
há um destino pessoal, não há destino superior ou, pelo menos, só há um que
ele julga fatal e desprezível. Quanto ao resto, ele sabe-se senhor dos seus
dias. Nesse instante sutil em que o homem se volta para a sua vida, Sísifo,
regressando ao seu rochedo, contempla essa seqüência de ações sem elo que se
torna o seu destino, criado por ele, unido sob o olhar da sua memória, e selado
em breve pela sua morte.”[4]
Observemos
a rocha resvalar. Encontremo-nos com Sísifo ao pé da montanha. A fé na vida
é que levanta os rochedos. A luta mesma, para alcançar mais uma vez o cume da
montanha, basta para dar sentido à existência, para preencher o coração do
homem. Como desejava Camus, “é preciso imaginar Sísifo feliz.” [5]
NOTAS
DE REFERÊNCIA
1-
O Mito de Sisifo – comentários de Ana C. Legey
2-
Régis Bonvicino – Poemas Reunidos
3-
Albert Camus – O Mito de Sísifo
4-
Op. cit.
5-
Op. cit. pg 151-152
Sandra
Regina Sanchez Baldessin
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