|
|
Ao longo da história, ocorreram várias tentativas no sentido de privilegiar
uma ciência em detrimento de outra. Doutrinas diversas foram criadas e calcadas
na razão e na lógica, negando a validade de qualquer outro tipo de
conhecimento, viesse ele de onde viesse, principalmente da metafísica e da
religião.
O
Cartesianismo, o mais ousado de todos, como doutrina, fracassou. E não era para
menos, vez que seus cultuadores, embriagados pelo êxito de suas teorias,
desejavam uma sociometria, uma econometria e outras formas de transformar a
liberdade humana, os sentimentos, o comportamento, a criatividade e a
inspiração numa questão meramente matemática. Números, formulas e
equações tudo explicaria.
Descartes
chegou ao cúmulo de julgar ser possível uma demonstração geométrica da
existência de Deus. A mecânica e a astronomia, a despeito de várias
descobertas e previsões, até hoje, ainda não explicaram, de maneira perfeita,
se quer o movimento dos planetas.
Alguns
cientistas sempre se julgaram substitutos de Deus, em nome da razão e em
detrimento do emocional e do espiritual. Parece que o ditado aqui se aplica: As
aparências enganam.
Num
excelente ensaio de jornalismo econômico, de autoria de Joelmir Beting, fora
proposto dois tipos de problemas, para serem resolvidos no início do século
XX.
O
primeiro problema que se colocava, envolvia dificuldades como transportar um
elefante pelos céus, a uma velocidade maior do que a do som; depois,
reproduzir, com fidelidade, a voz de uma pessoa falecida; e, ainda, transmitir,
instantaneamente, a imagem e o som de um fato ocorrido noutro continente; e,
finalmente, desenvolver um modo de comunicação capaz de transmitir 500.000
conversas simultâneas.
O
segundo problema colocado para solução, propunha estabelecer a paz entre os
povos; erradicar o analfabetismo; a miséria e a fome; melhorar a distribuição
da renda; acabar com a inflação, etc.,.
Em
se comparando as dificuldades dos dois tipos de problemas, levantados pelos idos
de 1900, as pessoas, muito justificadamente, apostariam que o segundo grupo de
problemas seria bem mais factível de resolver, posto que exigiria apenas um
pouco de bom senso e cooperação.
Já
os problemas do primeiro grupo, anteriormente assinalados, como, por exemplo,
transportar, via aérea, objetos pesados, tal qual elefantes, exigiram
descobertas tecnológicas e procedimentos fantásticos, inimagináveis no limiar
daquele século e, por isso, tais problemas seriam muito mais difíceis de serem
resolvidos.
Entretanto,
findo o século XX, pudemos constatar que o primeiro grupo de problemas, o
daqueles aparentemente mais difíceis, foram resolvidos com certa facilidade.
Por conta, principalmente, dos avanços na aeronáutica, na eletrônica, na
informática e na bio-engenharia e na genética. Basta ver os enormes aviões
que circulam pelos ares. Basta verificar as possibilidades de cura, via
transplantes de órgãos e etc.
Já
os problemas do segundo grupo, aparentemente de fácil solução, levantados à
época, como, por exemplo, erradicar o analfabetismo, a fome no mundo, etc.,
continuam, até hoje, esperando por soluções. Desde à época medieval, até o
mundo globalizado de nossos dias, o econômico tem prevalecido sobre o social. A
acumulação de capitais, a especulação financeira, as barreiras impostas
pelos países mais ricos, enfim, traduz-se no abandono aos princípios de
justiça e de liberdade, da ética e da moral, nas relações entre os povos.
A
idéia reinante é a de que, mais cedo ou mais tarde, todos os problemas serão
resolvidos pelo ângulo da economia. Por conta desse pensamento cartesiano, não
se concede incentivos e importância ás questões sociais. Moedas, bolsas e
índices econômicos resumem, em nossos tempos, a soberba intelectual que sempre
ocupou o topo pensamento dos que detêm o poder..
Na
verdade, a economia não consegue resolver nem os problemas que lhe são afetos:
como a criação de empregos, distribuição de renda, endividamento público,
etc. Só promessas desgastadas, de esperar o bolo crescer para depois
reparti-lo, atingindo em cheio uma massa de seres humanos que, a bem da verdade,
necessita, tão-somente, para sua sobrevivência e ascensão social, de coisas
simples, como educação, habitação, alimentação, saúde e emprego.
Quase
nada, se comparadas aos gastos com armamento e pesquisas aeroespaciais.
Coloca-se homens na lua, e satélites em Marte. Fabricam-se bombas ao custo
unitário de um milhão de dólares. Mas não se consegue produzir e distribuir
alimentos para todos.
Domingos
Oliveira Medeiros
© Todos Direitos Reservados
|
|