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História
do 25 de abril
(Som)A Senha e o Comunicado
Cronologia
do 25 de Abril
1973
JANEIRO
DIA 1 -
Aproveitando a circunstância de se comemorar o Dia Mundial da Paz, um grupo de
cristãos inicia uma acção de cariz anticolonial, de forte impacte: ocupa a
Capela do Rato, em Lisboa, e inicia uma greve de fome, organizando, ao mesmo
tempo, uma assembleia aberta a cristãos e não cristãos, para discussão do
problema da guerra colonial, assunto totalmente proibido pelo Regime.
DIA 2 -
Uma força da Polícia de Choque, comandada pelo capitão Maltês Soares,
irrompe, pelas 19h00, na Capela e prende 70 pessoas.
ABRIL
DIAS 4-8
- Realiza-se em Aveiro o III Congresso da Oposição Democrática. A sua
realização foi cercada de intensas medidas repressivas, entre elas o ataque da
Polícia de Choque aos congressistas quando se deslocavam em manifestação
silenciosa ao cemitério local, em romagem ao túmulo de Mário Sacramento.
JUNHO
DIAS 1-3
- Desenrola-se no Porto o chamado I Congresso dos Combatentes do Ultramar,
através do qual o Governo pretende demonstrar, interna e externamente, a
"adesão entusiástica" dos militares à política ultramarina. A sua
forma de organização antidemocrática desencadeia um amplo repúdio no seio
das Forças Armadas: em Portugal Continental Ramalho Eanes, Hugo dos Santos,
Vasco Lourenço e outros encabeçam um vasto movimento de protesto e, com o
mesmo objectivo, são recolhidas quatrocentas assinaturas de oficiais do Quadro
Permanente em serviço no teatro de operações da Guiné e enviado um telegrama
ao congresso assinado por Marcelino da Mata e Rebordão de Brito.
JULHO
DIA 13
- É publicado, no Diário do Governo, o Decreto-Lei n.º 353/73 (e
posteriormente o 409/73, com pequenas alterações), o qual criava um conjunto
de condições que facilitava o ingresso dos oficiais milicianos no Quadro
Permanente, medida que vem incrementar a contestação já latente nos oficiais
desse Quadro, tornando-se o verdadeiro rastilho para a criação do futuro
Movimento dos Capitães.
AGOSTO
DIA 18
- Reunião de duas dezenas de capitães na sala de jogos do Clube Militar, em
Bissau. Analisa-se a legislação considerada afrontosa, ética e materialmente,
para a maioria dos capitães do QP. Discute-se a atitude a tomar e escolhe-se
uma comissão para elaborar um projecto de carta a enviar às mais altas
entidades das Forças Armadas e do Exército e ainda ao Ministro da Educação.
DIA 25
- Leitura e discussão final do documento que recolheu 51 assinaturas. Foi
constituída uma Comissão, integrada pelo major Almeida Coimbra e capitães
Matos Gomes, Duran Clemente e António Caetano.
SETEMBRO
DIA 9
- Tendo por local de encontro o Templo de Diana, em Évora, 136 oficiais
dirigem-se ao monte do Sobral, em Alcáçovas, a uma herdade de um familiar do
capitão Diniz de Almeida, onde nasce formalmente o «Movimento dos Capitães».
Exige-se a revogação do Decreto 353/73. Um abaixo-assinado será entregue na
Presidência da República e na Presidência do Conselho de Ministros, pelos
capitães Lobato Faria e Clementino Pais.
- neste mês, 94 capitães e subalternos, em comissão em Angola, assinam
colectivamente um protesto e enviam-no a Marcelo Caetano. Em Moçambique
elabora-se um documento idêntico que recolhe 106 assinaturas, entre oficiais
superiores, capitães e subalternos.
DIA 13
- Otelo Saraiva de Carvalho, em fim de comissão, reúne pela última vez numa
sala do Grupo de Artilharia de Campanha de Bissau, recebendo a incumbência de,
em Lisboa, se integrar no Movimento, sendo porta-voz das preocupações dos seus
camaradas.
DIA 24
- O PAIGC proclama, em Mandinga do Boé, a independência do território da
Guiné-Bissau.
OUTUBRO
DIA 6
- Realiza-se uma grande reunião quadripartida, devido à impossibilidade de
conseguir uma sala que albergue delegados de quase todas as unidades do País.
Em discussão a atitude a tomar pelo Movimento caso o Governo não retroceda na
aplicação dos decretos. Foi decidido, nesse caso, a apresentação de
requerimentos individuais de demissão.
DIA 28
- Eleições para a Assembleia Nacional com a desistência da Oposição
Democrática (CDE) que classifica o acto de fraude eleitoral.
NOVEMBRO
Dia 7 -
Remodelação ministerial que afasta o Ministro da Defesa, general Sá Viana
Rebelo e o secretário de Estado do Exército, Alberty Correia. Em sua
substituição são nomeados para as pastas da Defesa Nacional e do Exército,
respectivamente, o Prof. Joaquim da Silva Cunha, até então Ministro do
Ultramar, e o general na reserva Alberto Andrade e Silva, sendo o coronel de
artilharia Carlos Viana de Lemos designado subsecretário de Estado do
Exército.
DIA 24
- As Comissões Coordenadora e Consultiva provisórias do Movimento dos
Capitães reúnem num casarão nas traseiras da Colónia Balnear Infantil de O
Século, em S. Pedro do Estoril. É necessário fazer um ponto de situação e
eleger uma Comissão Coordenadora definitiva que seja verdadeiramente
representativa do Movimento. A «guerra do decreto» devia ser ultrapassada pela
acção e passar-se a uma nova fase de luta. Os delegados são solicitados a
auscultar as suas unidades sobre o caminho a prosseguir pelo Movimento dos
Capitães.
DEZEMBRO
DIA 1
- Reunião no Clube Recreativo de Óbidos. Após se ter tomado conhecimento de
que as bases do Movimento não pretendiam, por ora, ir além das
reivindicações militares, importantes decisões são tomadas:
- vota-se o nome do general Costa Gomes como chefe prestigiado que o Movimento
deveria chamar a si;
- delibera-se alargar o Movimento aos outros ramos das Forças Armadas (Marinha
e Força Aérea);
- elege-se uma Comissão Coordenadora e Executiva (CCE), com 3 oficiais por cada
arma e serviço do Exército.
DIA 5
- 1ª reunião da nova CCE, numa casa de praia na Costa da Caparica. Prepara-se
uma proposta com base em reivindicações militares, a apresentar a elementos
dos outros dois ramos. Esse documento era de tal forma ambicioso que seria uma
forma de pressão quase extrema para o Executivo. Para a CCE foi escolhida uma
direcção: majores Vítor Alves, Otelo Saraiva de Carvalho e capitão Vasco
Lourenço.
DIA 17
- Vislumbram-se insistentes sinais de que estaria em preparação um golpe de
Estado de extrema direita, com a implicação dos generais Kaúlza de Arriaga,
Silvino Silvério Marques, Joaquim Luz Cunha e Henrique Troni, visando a
conquista do poder.
DIA 22
- São revogados os Decretos-Lei 353/73 e 409/73 que haviam estado na origem do
Movimento dos Capitães. Teme-se que a desmobilização da luta alastre à
maioria dos militares.
1974
JANEIRO
DIAS 14-17
- Acções reivindicadas pela Frelimo conferem novas proporções à guerra
colonial em Moçambique. Na Beira, enquadrados por elementos da PIDE/DGS, cerca
de quatrocentos brancos e negros da população local manifestam-se, em fúria,
insultando gravemente as Forças Armadas.
DIA 23
- É redigida a 1ª circular do Movimento (circular n.º1/74), por decisão da
sua direcção. A mesma é amplamente distribuída, relatando os acontecimentos
ocorridos em Moçambique e apelando a que cada militar "...dentro das mais
estritas regras da disciplina..." se empenhe na exigência de um desagravo
à instituição. Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Lourenço avistam-se com
Spínola, dando-lhe conhecimento da posição do Movimento. Esta circular viria
a ser citada na BBC, no Le Monde e na emissora Rádio Portugal Livre de Argel.
FEVEREIRO
DIA 5 -
O Movimento dos Capitães politiza-se de forma galopante. É necessário adoptar
um programa. Para isso realiza-se um encontro alargado da CCE no qual é eleita
uma Comissão de Redacção do Programa do Movimento. Dela fazem parte o
tenente-coronel Costa Brás, majores Melo Antunes e José Maria Azevedo e
capitão Sousa e Castro.
DIA 23
- É publicado o livro Portugal e o Futuro, da autoria de António de Spínola,
que se esgota rapidamente, conhecendo um enorme sucesso. O general defende uma
solução política e não militar para o Ultramar. Fica demonstrado
publicamente o conflito existente no seio do regime em torno de uma solução
para o problema colonial.
MARÇO
DIA 5
- Miniplenário do Movimento dos Oficiais das Forças Armadas, em Cascais, o
último antes do 25 de Abril. Presentes 194 oficiais, das unidades de
Infantaria, Artilharia, Cavalaria, Engenharia, Administração Militar,
Transmissões, Serviço de Material, Pára-quedistas e Força Aérea (FA),
representando 602 militares. O documento, de índole política, «O Movimento,
As Forças Armadas e a Nação» recolhe 111 assinaturas.
DIA 6
- Marcelo Caetano faz defesa inflamada da política do Governo para o Ultramar,
em discurso proferido perante a Assembleia Nacional e transmitido pela RTP. No
seu seguimento é aprovada pelos deputados uma moção de apoio à
"política ultramarina do Governo".
DIA 9
- Os capitães Vasco Lourenço, Antero Ribeiro da Silva e Pinto Soares são
detidos, tendo os dois primeiros, decorridos alguns Dias, sido transferidos
compulsivamente para os Açores e a Madeira, respectivamente, enquanto o
terceiro foi internado num estabelecimento hospitalar.
DIA 14
- As chefias das Forças Armadas e de Segurança e os oficiais generais dos
três ramos vão a S. Bento afirmar ao Presidente do Conselho de Ministros e ao
Governo a sua fidelidade e apoio à política ultramarina, em nome das
respectivas instituições.
DIA 15 -
Os jornais anunciam com grandes parangonas a exoneração dos generais Francisco
da Costa Gomes e António de Spínola dos cargos de Chefe do Estado Maior
General das Forças Armadas e vice-CEMGFA, respectivamente.
DIA 16
- Às 04h00 da madrugada, uma coluna do Regimento de Infantaria 5 das Caldas da
Rainha passa os portões do aquartelamento, comandada pelo capitão Armando
Marques Ramos. Pretende executar um golpe militar, marchando sobre Lisboa e
depondo o Governo. Apenas a três quilómetros da capital terá a noção de que
se encontra isolada. Um precipitado e deficiente planeamento da acção leva ao
seu fracasso, sendo presos quase duas centenas de militares - oficiais,
sargentos e praças - entre os quais o tenente-coronel João de Almeida Bruno,
majores Manuel Monge e António Casanova Ferreira e capitães Marques Ramos e
Virgílio Varela. Constituiu, embora, um importante balão de ensaio para o 25
de Abril.
DIA 18
- Otelo e Vítor Alves redigem a Circular 2/74, procedendo a uma análise dos
acontecimentos e apelando à firmeza e perseverança nos objectivos do
Movimento.
- Encontram-se com Melo Antunes, no Café Londres, e pedem-lhe que elabore um
programa político do Movimento dos Oficiais das Forças Armadas (MOFA), com
base no Manifesto aprovado no plenário do dia 5.
- O diário República, dirigido por Raul Rêgo, desde sempre ligado à
oposição ao Estado Novo, publica, de forma criptográfica, na página
desportiva, a notícia intitulada «Quem travará os leões» na qual se conclui
que «perdeu-se uma batalha, mas não se perdeu a guerra».
DIA
21 - Após um contacto estabelecido
no alto do Parque Eduardo VII por iniciativa do capitão Luís Macedo, colocado
no Regimento de Engenharia 1 (RE 1), em que solicita a Otelo, em nome de muitos
camaradas, que assuma a condução militar do Movimento, este aceita a missão e
designa-o seu adjunto operacional.
DIA 22
- Reunião em casa de Vítor Alves de um pequeno núcleo de oficiais do
Exército, da Força Aérea e da Armada. Melo Antunes lê a primeira versão do
programa político do Movimento, sendo por todos aprovada.
- Melo Antunes comunica que, por ironia do destino, em resultado de um pedido
seu, deferido apenas naquela altura (!), irá partir nessa noite para Ponta
Delgada, devido a ter sido colocado no Comando Territorial .....dos Açores (CTIA).
Fica combinado o célebre telegrama em código que o irá informar do grande
momento: "Tia Aurora segue dia...Um abraço António".
- O comandante Almada Contreiras acompanha Melo Antunes ao aeroporto, sendo
apresentado por este a Álvaro Guerra, jornalista do República.
DIA 24
- A CCE reúne. É aprovado por unanimidade que os dois elementos da direcção
ainda activos assumam a responsabilidade da preparação militar e da
preparação política do movimento. Otelo aceita, perante os presentes, gizar
um plano operacional e elaborar a «ordem de operações» respectiva. Garante
que o golpe será desencadeado entre 20 e 29 de Abril e, desta vez, para
conduzir à vitória.
DIA 28
- Marcelo Caetano faz, na RTP, a sua derradeira «conversa em família».
ABRIL
DIA 15
- Otelo Saraiva de Carvalho conclui o Plano Geral das Operações, que intitula
simbolicamente "Viragem Histórica". Divide o país em duas grandes
áreas de operações: Zona Norte e Resto do País, sendo este segmentado em
quatro áreas. As unidades do Norte deveriam convergir para o Porto, onde
ocupariam pontos estratégicos, nomeadamente o Quartel-General, instalações de
forças de segurança, estações de rádio e televisão, aeroporto e pontes. As
unidades situadas a Sul do Douro adoptariam idêntica manobra relativamente à
capital, sendo atribuídas a algumas das colunas mais importantes missões de
natureza táctica. (EPC e EPA). Nesse mesmo dia entrega-o ao tenente-coronel
Garcia dos Santos para que este elabore o Anexo de Transmissões.
- Encontro no restaurante Califa, em Benfica, de Otelo, do capitão Frederico
Morais e dos tenentes milicianos Luís Pessoa e Miguel Amado com vista a planear
a tomada da Emissora Nacional.
- Escolha do Rádio Clube Português (R.C.P.) para posto emissor do MFA, em
virtude de possuir uma rede que cobre o país e o Ultramar, emitir noticiários
de hora a hora em simultâneo e de dispor, nas instalações da Rua Sampaio e
Pina, nº 26, de um estúdio compacto, de gerador de emergência com entrada
automática em funcionamento e rádio-telefone para o centro emissor em Porto
Alto.
Meados de Abril
- Álvaro Guerra, elemento de ligação entre alguns oficiais do MFA e meios
civis da oposição, obtém a colaboração do núcleo do República, no qual se
conta o seu director, Raul Rêgo, bem como os jornalistas Álvaro Belo Marques,
Carlos Albino, Fernando Assis Pacheco, José Jorge Letria e Vítor Direito.
DIA
16 - Otelo Saraiva de Carvalho
reúne, no RE 1, com o major Eurico Corvacho a quem explica a ideia geral de
manobra, particularizando as movimentações a levar a cabo na Zona Norte. A
pedido deste, agrega-lhe as forças do Centro de Instrução de Operações
Especiais (CIOE) de Lamego, cometendo-lhes a missão de reforçar as tropas do
Porto.
DIA 17
- Otelo Saraiva de Carvalho distribui as missões aos delegados do Agrupamento
Norte (November), no apartamento de Dinis de Almeida, estando presentes todos os
agentes de ligação para esse sector, facto que se repete nas restantes
reuniões.
DIA
18 - Otelo Saraiva de Carvalho
distribui as missões aos delegados do Sector Centro (Charlie), em sua casa,
contando-se entre estes o capitão Correia Bernardo, em representação da
Escola Prática de Cavalaria (Santarém).
DIA 19 - Otelo
Saraiva de Carvalho distribui as missões aos delegados do Sector Sul (Sierra),
em casa do major Fernandes da Mota.
DIA 20
- Finalmente, na mais importante das reuniões, Otelo Saraiva de Carvalho
distribui as missões aos delegados das unidades da Região Militar de Lisboa
(Lima), na residência, então vaga, do pai do tenente Américo Henriques, em
Cascais.
- Conclusão do essencial dos textos políticos (em cuja redacção, coordenada
por Vítor Alves, participaram Franco Charais, Costa Brás, Vasco Gonçalves,
Nuno Lopes Pires e Pinto Soares, pelo Exército; Vítor Crespo e Lauret, com a
participação menos activa de Teles e Contreiras, pela Marinha e a ocasional
presença do major Morais e Silva e do capitão Seabra). A partir desta data,
Otelo, que também assegura a ligação com Spínola, passa a efectuar os
contactos, por razões de segurança, através do major de cavalaria na reserva
Carlos Alexandre de Morais. São da lavra do general algumas das modificações
introduzidas, nomeadamente a designação de Movimento das Forças Armadas (MFA),
em substituição da versão anterior de Movimento dos Oficiais das Forças
Armadas (MOFA) e de Junta de Salvação Nacional (JSN) em alternativa à
proposta de Directório Militar.
DIA 21
- Encontro, na marginal em Oeiras, de Otelo e do major Moura Calheiros com os
coronéis Rafael Durão (representante do general Spínola) e Fausto Marques,
com vista a obter a adesão do Regimento de Caçadores Páraquedistas, comandado
pelo último oficial, iniciativa que se revela inconclusiva.
DIA 22
00h01 - A partir do
início deste dia, todos os delegados do Movimento nas unidades entram em estado
de alerta, preparados para receber o contacto do agente de ligação, portador
das instruções finais.
- A Escola Prática de Transmissões (EPTm), localizada em Sapadores, recebe
autorização do Estado-Maior do Exército (EME), por proposta do
tenente-coronel Garcia dos Santos, para o estabelecimento de uma linha directa
com o RE 1, da Pontinha, numa extensão de 4 quilómetros. Inicia-se, sem
demora, a sua instalação, efectuada por uma equipa comandada pelo furriel
Cedoura, que ficará concluída em menos de 24 horas. Tal iniciativa viria a
permitir ao Posto de Comando do MFA o acesso permanente às escutas das redes de
transmissões militares e das forças de segurança, missão de apoio técnico
cometida à primeira unidade militar, em que se destacaram os capitães Fialho
da Rosa, Veríssimo da Cruz e Madeira.
c.
11H00 - O capitão FA Costa Martins contacta João Paulo Dinis, no Rádio Clube
Português (R.C.P.), por incumbência de Otelo, que o tivera como subordinado no
Comando Chefe na Guiné, com o objectivo de emitir um sinal radiofónico para
desencadear o movimento. O radialista, que desconhecia o emissário, desconfia
da sua identidade, mas aceita, depois de muito instado, aprazar um encontro
entre os três, nessa noite, num bar lisboeta.
Noite - Reunião de
Otelo, na Reboleira, com os grupos de comandos coordenados pelo major Jaime
Neves
DIA 23
00h15
- Otelo Saraiva de Carvalho e Costa Martins, protegidos pelo major FA Costa
Neves, avistam-se, no Apolo 70, com João Paulo Diniz. Este esclarece que apenas
colabora no programa matutino Carrocel do R.C.P., razão pela qual não poderá
emitir a senha pretendida. Obtêm, contudo, a garantia de transmissão do
seguinte sinal, entretanto combinado, "Faltam cinco minutos para a
meia-noite. Vai cantar Paulo de Carvalho «E depois do adeus»", através
dos Emissores Associados de Lisboa (E.A.L), que apenas dispõem de um raio de
alcance de cerca de 100 a 150 quilómetros de Lisboa. A limitada potência do
emissor torna, assim, necessária a emissão de um segundo sinal, através de
uma estação que alcance todo o País.
- Deslocam-se, seguidamente, para junto da Penitenciária de Lisboa, onde
aguardam que o ex-locutor do Programa das Forças Armadas em Bissau obtenha
informação no Rádio Clube Português sobre a constituição da equipa que
entrará de serviço na madrugada de 25. Este apura que o serviço de
noticiário estará a cargo de Joaquim Furtado mas, conhecendo-o mal, não
arrisca estabelecer contacto.
Manhã - Otelo
carrega, no porta-bagagem do seu automóvel, estacionado na Academia Militar, os
aparelhos rádio Racal, obtidos por Garcia dos Santos, que se destinam às
unidades que não dispõem de material de transmissões, designadamente o Centro
de Instrução Anti-Aérea e de Costa (CIAAC) e o Regimento de Cavalaria 3 (RC
3).
Final
da manhã - Álvaro Guerra, contactado por Almada Contreiras em nome do
Movimento para conseguir a emissão de um sinal radiofónico de âmbito nacional
que sirva de código para o desencadeamento das operações, solicita a Carlos
Albino, seu colega no República e um dos responsáveis pelo Limite - um
programa independente que aluga tempo de antena à Rádio Renascença - a
transmissão, no início da madrugada de 25 de Abril, da canção Venham mais
cinco, de José Afonso. Carlos Albino pede a Álvaro Guerra para devolver a
resposta de que tal canção estava proibida pela censura interna da
Renascença. Sugere alternativas, entre as quais Grândola, Vila Morena.
15h00 - Otelo entrega
ao major Neves Rosa os documentos finais para policopiar (anexo de
transmissões, alterações de missão, indicação do grupo data-hora (GDH) de
execução, modo de confirmação da Hora H e a senha e contra-senha a utilizar
nos contactos com tropas). Esta missão é efectuada num período inferior a
três horas, numa firma de artigos electrónicos na Rua Luciano Cordeiro, 78,
pertencente ao referido oficial que coordena o sector da ligação operacional,
coadjuvado pelo capitão Sousa e Castro.
Tarde - Encontro de
Otelo com o tenente-coronel de cavalaria Correia de Campos, num bar na zona do
Rego (Lisboa), onde o último aceita participar no Movimento e assumir o comando
do Regimento de Cavalaria 7, coadjuvado pelos tenentes Cid, Cadete e Aparício,
logo que concretizada a detenção dos oficiais superiores daquele regimento que
deveria ser efectuada por grupos de comandos coordenados pelo major Jaime Neves.
18h00 - Otelo inicia,
na Avenida Sidónio Pais, junto ao Parque Eduardo VII, a entrega dos
sobrescritos lacrados contendo as instruções finais, bem como de um exemplar
do jornal Época - porta-voz do regime, código escolhido para identificar as
equipas de ligação (dois oficiais por unidade, circulando cada um na sua
viatura e seguindo preferencialmente itinerários diferentes, de modo a prevenir
diversas eventualidades) - e, ainda, em alguns casos, material de transmissões.
20h00 - Na
residência do comandante Vítor Crespo, no Restelo, realiza-se uma reunião
final de Otelo e Vítor Alves com representantes da Armada, nomeadamente os
comandantes Geraldes Freire e Abrantes Serra, onde foi obtida a garantia da
neutralidade das forças da Marinha.
- O capitão Santa Clara Gomes, oficial de ligação, procede à entrega, na
residência do capitão Teófilo Bento, da ordem de missão referente à Escola
Prática de Administração Militar (EPAM).
2?h00 - Otelo decide
pernoitar, por razões de segurança, no RE 1.
23h00 - Chegada a
Santarém dos capitães Candeias Valente e Torres, oficiais do Movimento,
portadores da ordem de operações para a Escola Prática de Cavalaria.
Comunicam telefonicamente com o tenente Ribeiro Sardinha informando que já se
encontram na cidade, na Pastelaria Bijou. Este contacta Salgueiro Maia.
23h30 - O capitão
Salgueiro Maia desloca-se à Pastelaria Bijou, no Largo do Seminário, em
Santarém, para se encontrar com os agentes de ligação.
23h55 - Na viatura de
Salgueiro Maia, estacionada junto ao Jardim da República, é-lhe entregue a
ordem de operações e acertados os últimos detalhes. Uma viatura da PIDE/DGS
ronda a zona e segue o capitão à distância.
DIA 24
03h00 - O agente de
ligação entrega ao major Albuquerque, do Centro de Instrução e Condução
Auto 1 (CICA 1), as ordens de operações referentes às unidades da Zona Norte.
Madrugada –
Recepção, no Regimento de Infantaria 14 (RI 14), em Viseu, da ordem de
operações. O capitão Ferreira do Amaral transmite as instruções a Lamego e
o capitão Aprígio Ramalho à Guarda.
08h00 - O capitão
Castro Carneiro e o alferes Pêgo, do CICA 1, iniciam a viagem destinada a
entregar as ordens de operações às unidades de Lamego (capitão Delgado da
Fonseca), Vila Real (capitão Mascarenhas) e Bragança (Capitão Freixo).
08h30 - Os oficiais
da EPC, ligados ao MFA, iniciam nas paradas, no maior sigilo, os contactos com
os cerca de cinquenta graduados (oficiais subalternos do Quadro Permanente,
alferes, aspirantes, furriéis e cabos milicianos), individualmente,
comunicando-lhes que, se a senha e contra-senha forem para o ar, a operação
decorrerá nessa madrugada.
c.
09h30 - O capitão Santa Clara Gomes, oficial de ligação, entrega ao major
Cardoso Fontão a ordem de missão referente ao Batalhão de Caçadores 5 (BC
5).
10h00 - Álvaro
Guerra comunica a Carlos Albino a escolha definitiva de Grândola Vila Morena
como senha nacional, garantindo este a sua transmissão.
c. 10h00 - Otelo
envia, da estação dos CTT da rua D. Estefânia, o telegrama cifrado a Melo
Antunes, contendo o GDH.
11h00
- Carlos Albino adquire na então livraria Opinião o disco «Cantigas de
Maio», para garantia, já que, desde Dezembro de 73 havia indícios de que a
PIDE se preparava para um assalto aos escritórios do Limite, na Praça de
Alvalade.
- O capitão Costa Martins contacta João Paulo Dinis e informa-o que o sinal
foi antecipado em uma hora.
14h00 - O jornal
República insere uma curta notícia, intitulada «LIMITE», com o seguinte
teor: "O programa «Limite» que se transmite em Rádio Renascença
diariamente entre a meia-noite e as 2 horas, melhorou notoriamente nas últimas
semanas. A qualidade dos apontamentos transmitidos e o rigor da selecção
musical, fazem de «Limite» um tempo radiofónico de audição obrigatória.»
14h?? - O major Neves
Rosa comunica a Otelo que o último elemento de ligação tinha cumprido a
missão.
15h00 - Encontro
decisivo de Carlos Albino com Manuel Tomás (técnico da Rádio Renascença e um
dos responsáveis pelo programa Limite que regressara de Moçambique com fama de
democrata) para a execução da senha e garantia da sua transmissão. Refira-se
que, sendo o Limite um programa independente, era obrigado a passar por duas
censuras: a da Rádio Renascença e a oficial, esta última corporizada num
coronel que acompanhava as emissões em directo e visava previamente os textos.
Para maior segurança, retiram-se dos estúdios para um local seguro.
15h30 - Na Igreja de
S. João de Brito, simulando rezar, combinam todos os pormenores técnicos da
senha.
17h00
- Os tenentes Baluda Cid, Ramos Cadete e Silva Aparício saem da EPC e
dirigem-se a Lisboa, com a missão de "controlar", "aliciar"
alguns oficiais e tentar "inoperacionalizar" algumas viaturas
blindadas do RC 7.
- Manuel Tomás convoca Leite de Vasconcelos (um outro responsável pelo
referido programa, companheiro de Manuel Tomás em Moçambique), em dia de folga
na locução do Limite, para «gravar poemas». Carlos Albino escreve textos
para serem visados pelo censor.
17h30 - Os graduados
milicianos da EPC ultimam os preparativos para a operação, designadamente
quanto a material e equipamentos.
19h00 - Os censores
na Rádio Renascença autorizam os textos e o seguinte alinhamento do bloco com
a duração de 11 minutos: quadra, canção Grândola, quadra, poemas Geografia
e Revolução Solar, da autoria de Carlos Albino, e a canção Coro da
Primavera.
20h00 - Na Rádio
Renascença, Leite de Vasconcelos procede à gravação dos textos que lhe são
apresentados, desconhecendo o seu objectivo.
21h00 - Otelo entrega
ao capitão António Ramos, no Jornal do Comércio, o conjunto de documentos
finais e um saco com granadas. Pede-lhe para permanecer toda a noite junto de
Spínola, juntamente com outros oficiais de confiança, assegurando-lhe que uma
força militar iria garantir a segurança próxima da residência do general,
sita na rua Rafael Andrade, ao Paço da Rainha.
- Os oficiais da Força Aérea (tenente-coronel Sacramento Gomes, majores Costa
Neves e Campos Moura e capitães Correia Pombinho, Mendonça de Carvalho, Santos
Silva e Santos Ferreira) que constituem o «10º Grupo de Comandos» reúnem-se
em frente ao Grill do Hotel Ritz e iniciam a vigilância ao Rádio Clube
Português
21h30 - Fecho da
porta de armas da EPC. Os militares contactados, que haviam saído da unidade,
fazem a sua entrada, trajando à civil, para não alertar os elementos da PIDE/DGS
que rondam o quartel.
21h50 - O tenente
miliciano Sousa e Silva, oficial da dia na EPC, é substituído nesta função,
para poder tomar parte na operação.
c. 21h45 - O capitão
Santos Coelho, do RE 1, junta-se aos seus camaradas do «10º grupo de
comandos» e distribui-lhes armas e munições. Procede, em seguida, à leitura
da ordem de operações e à recapitulação das missões.
22h00 - Otelo
regressa ao RE 1, onde se farda. Recebe do major Sanches Osório os primeiros
quatro comunicados, entregues por Vítor Alves, bem como a notícia de que o
Regimento de Infantaria 1 (Amadora) não adere, deixando, assim, de garantir o
cerco à prisão de Caxias e a protecção de Spínola. Entrega os comunicados
ao seu adjunto para que este os faça chegar ao grupo de comandos que tomará o
R.C.P.
- O capitão Salgueiro Maia, que vai comandar a coluna militar da EPC, na
"Operação Fim Regime", dá início a uma breve reunião, no piso dos
quartos dos oficiais, para dar a conhecer a Ordem de Operações, distribuir
missões e definir detalhes para o desencadear da operação.
22h30 - No Posto de
Comando encontra-se reunido o Estado Maior do Movimento das Forças Armadas,
dirigido pelo major Otelo Saraiva de Carvalho e constituído pelos
tenentes-coronéis Garcia dos Santos e Nuno Fisher Lopes Pires, major Sanches
Osório, capitão Luís Macedo, adjunto operacional, e comandante Vítor Crespo,
que assegura a ligação com a Marinha, garantida pela presença permanente do
comandante Almada Contreiras no Centro de Comunicações da Armada (CCA).
Contam, também, com a colaboração de quatro oficiais do RE 1 (Frazão,
Máximo, Reis e Cepeda).
c. 22h48 - Uma falha
técnica suspende, durante alguns minutos, a transmissão dos Emissores
Associados de Lisboa, facto que causa natural apreensão nas largas dezenas de
militares que aguardam ansiosamente o primeiro sinal para entrar em acção.
c. 22h51 -
Restabelecimento da emissão dos E.A.L..
22h55 - 1ª senha: a
voz de João Paulo Dinis anuncia aos microfones dos Emissores Associados de
Lisboa Faltam cinco minutos para as vinte e três horas. Convosco, Paulo de
Carvalho com o Eurofestival 74 «E Depois do Adeus». Era o primeiro sinal para
o início das operações militares a desencadear pelo Movimento das Forças
Armadas.
23h00 - Na Escola
Prática de Artilharia (EPA), em Vendas Novas, os capitães Mira Monteiro e
Oliveira Patrício e os tenentes Marques Nave, Cabaças Ruaz, Sales Grade,
Andrade da Silva e António Pedro procedem à detenção dos comandante e 2º
comandante da unidade, respectivamente coronel Mário Belo de Carvalho e
tenente-coronel João Manuel Pereira do Nascimento, ocupam as centrais rádio e
telefónica e assumem o controlo do quartel.
- Recolhem à Escola Prática de Infantaria (EPI) as forças que se encontravam
em exercícios de campo.
- O «10º grupo de comandos» divide-se em equipas, distribuídas por 4
automóveis, para constituir patrulhas destinadas, além de manter a vigilância
ao R.C.P., a observar as principais instalações das Forças de Segurança (GNR,
PSP, LP e DGS), e dos quartéis da Calçada da Ajuda (RC 7 e RL 2):
- No BC 5 o major Cardoso Fontão comunica aos oficiais presentes o que está a
acontecer e os objectivos do MFA. A adesão é total.
- O capitão António Ramos abandona as instalações do Jornal do Comércio e
dirige-se para a residência do general Spínola, aonde acorreram, durante a
madrugada, o tenente-coronel Dias de Lima e o major Carlos Alexandre de Morais.
23h25
- O capitão Garcia Correia chega à porta de armas da EPC, acompanhado do 2º
comandante, tenente-coronel Henrique Sanches, que nessa noite havia convidado
para jantar em sua casa, na expectativa de o aliciar para o movimento, o que se
revelara infrutífero. Este, verificando que o oficial de dia fora substituído,
ordena-lhe que retire imediatamente o braçal, no que não é obedecido.
23h30
- Henrique Sanches convoca para o seu gabinete o major Costa Ferreira, os
capitães Garcia Correia e Correia Bernardo, o tenente Ribeiro Sardinha e o
oficial de dia substituto, capitão Pedro Aguiar. O seu objectivo é demovê-los
da acção revolucionária. No entanto, é informado da sua determinação em
prosseguir a acção, bem como de todos os oficiais presentes nessa noite na EPC.
DIA 25
00h00 - João Paulo
Dinis conclui o programa nos E.A.L. e regressa a casa, seguindo instruções do
chefe militar do MFA.
00h20 – Nos
estúdios da Rádio Renascença, situados na Rua Capelo, ao Chiado, Paulo
Coelho, que ignora os compromissos assumidos pelos seus colegas do programa
Limite, lê anúncios publicitários. Apesar dos sinais desesperados de Manuel
Tomás, que se encontra na cabina técnica acompanhado de Carlos Albino, para
sair do ar, o radialista prossegue paulatinamente a sua tarefa. Após 19
segundos de aguda tensão, Tomás dá uma "sapatada" na mão do
técnico José Videira, provocando o arranque da bobine com a gravação que
continha a célebre senha: a canção Grândola Vila Morena, de Zeca Afonso.
c. 00h30 - Na EPAM,
um grupo de capitães e subalternos armados dá voz de prisão ao oficial de
dia, alferes miliciano Pinto Bessa, e ao oficial de prevenção, aspirante
miliciano Leão. O capitão Gaspar assume provisoriamente as funções de
oficial de serviço.
- No Campo de Instrução Militar de Santa Margarida (CIMSM) começam-se a
encher carregadores na arrecadação de material de guerra.
- Na EPA continua-se (iniciada às 23h00) a preparação final do golpe, onde o
capitão Santos Silva assumira já o comando, acolitado pelos tenentes Ruaz,
Sales Grade e Sousa Brandão.
- Na EPI, os capitães Rui Rodrigues, Aguda e Albuquerque ordenam a formatura da
companhia de intervenção, a três bigrupos de cinquenta homens. O capitão
Silvério executa o plano de defesa do quartel. Os majores Aurélio Trindade e
Cerqueira Rocha convidam o coronel Jasmins de Freitas a aceitar o comando da
unidade.
00h40 - Na EPC, em
Santarém os oficiais do MFA procuram obter a adesão ao Movimento do tenente
coronel Henrique Sanches. Não o conseguindo, procedem à sua detenção.
- No Campo de Tiro da Serra da Carregueira (CTSC) os capitães Oliveira Pimentel
e Frederico Morais iniciam a preparação dos homens para levar a bom termo a
sua missão - conquistar a Emissora Nacional.
01h00 - No BC 5 o
major Fontão ordena ao alferes Frazão que controle e mantenha pessoal de
guarda à central telefónica. Manda fechar os portões e neutralizar a central
rádio.
- No CIMSM o tenente Luís Pessoa reúne os cabos milicianos e consegue a sua
adesão imediata.
- Na EPC o major Rui Costa Ferreira assume o comando.
01h30 - Na EPC
Salgueiro Maia manda acordar o pessoal e formar em parada. A adesão é
entusiástica. Salgueiro Maia comandará a força tendo o tenente Alfredo
Assunção como seu adjunto.
- No CIAAC, em Cascais, um grupo de jovens oficiais vê impedida a sua entrada
na unidade que, ao contrário do que se previa, não adere ao Movimento.
Contactam o Posto de Comando pedindo nova missão.
- Na EPAM os soldados são armados. No exterior tudo está tranquilo.
- No RI 14 os capitães Gertrudes da Silva, Silveira Costeira, Aprígio Ramalho,
Ferreira do Amaral e Augusto convocam os oficiais subalternos e esclarecem a
situação. Controlam a central telefónica e os postos de rádio da ordem
pública e do Serviço de Telecomunicações Militares (STM).
- No Regimento de Cavalaria 3 (RC 3), em Estremoz, é problemático o
cumprimento da missão: marchar sobre Lisboa com uma coluna de autometralhadoras,
estacionando na zona da portagem da Ponte Salazar, aguardando ordens do Posto de
Comando. O comandante, coronel Caldas Duarte, mostra-se indeciso e pede tempo
para reflectir.
02h00 - No RI 14, em
Viseu, inicia-se a preparação da companhia que vai seguir para a Figueira da
Foz, onde se juntará a outras unidades em acção (RI 10, CICA 2, RAP 3) com
vista a constituir o agrupamento «November».
- A companhia de intervenção a três bigrupos comandada pelo capitão Rui
Rodrigues abandona a EPI, em Mafra, para seguir por Malveira, Loures, Frielas e
Camarate até ao Aeroporto da Portela, que deverá ocupar e defender.
- No BC 5 o major Cardoso Fontão manda distribuir armas, munições e aparelhos
de rádio e formar as companhias.
- Do CTSC saem duas viaturas pesadas e um jipe, com um total de 47 homens, e
dirigem-se para o seu objectivo.
02h30 – Os
capitães Dinis de Almeida e Fausto Almeida Pereira executam vitoriosamente o
plano de controlo do Regimento de Artilharia Pesada 3 (RAP 3), na Figueira da
Foz, neutralizando os subalternos milicianos em serviço. Almeida Pereira abre o
portão da unidade aos oficiais da Escola Central de Sargentos (ECS) de Águeda.
- Forças da EPI iniciam a ocupação dos pontos chave de Mafra, assegurando o
domínio da vila e dos respectivos acessos.
02h40 - Forças da
Escola Prática de Engenharia (EPE) saem de Tancos para se dirigirem à ponte da
Golegã-Chamusca, e aí se juntarem às Companhias de Caçadores 4241/73 e
4246/73 oriundas de Santa Margarida.
02h50 - Uma coluna da
EPAM, num total de cerca de cem homens, montados em duas viaturas ligeiras e
três pesadas, comandada pelo capitão Teófilo Bento, inicia a curta marcha em
direcção ao objectivo.
03h00 - A Rádio
Televisão Portuguesa (R.T.P.) - Mónaco na linguagem cifrada dos militares
revoltosos - é tomada de assalto pela força da EPAM.
- As 16 viaturas militares, precedidas de um automóvel de exploração civil,
que constituíam a força da EPA - composta por uma bateria de artilharia (BTR
8,8) e uma companhia de artilharia motorizada comandadas, respectivamente, pelos
capitães Oliveira Patrício e Mira Monteiro - cruzam a porta da unidade e
partem de Vendas Novas em direcção a Lisboa.
- Uma bateria de artilharia (BTR 10,5) da EPA, comandada pelo capitão Duarte
Mendes, ocupa posições a cavaleiro das estradas de Montemor-o-Novo e Lavre,
assegurando a interdição destes eixos viários e garantindo a segurança
próxima da unidade.
- Abrem-se os portões do quartel do BC 5 dando saída a duas companhias
operacionais.
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Maj. C. Moura
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Cap. C. Pombinho
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- O major Campos
Moura e o capitão Correia Pombinho, encarregues de assinalar a saída dos
homens do BC 5 e que aguardam na viatura do primeiro, escondida por detrás de
sebes fronteiras à Penitenciária, partem de imediato para informar o 10º
«Grupo de Comandos» do facto.
- Em Lamego, no Centro de Instrução de Operações Militares (CIOE), o seu
comandante, tenente-coronel Sacramento Marques dá ordem de saída a uma
companhia de tropas especiais que, após cinco horas de percurso, entrará no
Porto.
- Nesta cidade, uma força do CICA 1, comandada pelo tenente-coronel Carlos
Azeredo, penetra no Quartel-General da Região Militar do Porto (QG/RMP),
transformando-o no posto de comando das forças em operações na Região Norte.
03h07
- Encontro do 10º «grupo de comandos» com a segunda companhia do BC 5,
comandada pelo tenente Mascarenhas, na confluência da rua Castilho com a
Sampaio Pina. O major Fontão estabelece contacto proferindo a senha Coragem! a
que o capitão Mendonça de Carvalho responde com Pela Vitória!
03h12
- Efectuada a junção com êxito, encaminham-se para a entrada do Rádio Clube
Português que o porteiro Alcino Leal virá a abrir, dando entrada a oito
oficiais, sete dos quais armados com pistolas Walther. Estava conquistado sem
incidentes o R.C.P., tendo o capitão Santos Coelho informado, de seguida, o
Posto de Comando de que México passara para as mãos do MFA.
03h15 - A coluna do
CTSC, comandada pelos capitães Frederico Morais e Oliveira Pimentel, chega à
Emissora Nacional (E.N.) e ocupa a estação de rádio oficial. Tóquio viera
completar o domínio de três objectivos fundamentais na área da comunicação
social.
c. 03h15 - As
Companhias de Caçadores (Ccaç) 4241/73 e 4246/73 encontram-se com a EPE. A
Ccaç 4241/73 marcha para o centro emissor do R.C.P., em Porto Alto; a Ccaç
4246/73 dirigir-se-á a Vila Franca de Xira para dominar a Ponte Marechal
Carmona e a EPE seguirá para Lisboa a fim de ocupar posições de defesa na
Casa da Moeda.
03h16 - No posto de
comando do MFA é interceptada uma conversa telefónica entre o general Andrade
e Silva, ministro do Exército e o Prof. Silva Cunha, ministro da Defesa, trocam
impressões sobre a situação geral, revelando que tinham conhecimento de que
se preparava um jantar importante de carácter conspirativo, mas que a DGS
vigiava os oficiais. O primeiro membro do governo, entre outras considerações,
afirma que "A situação está sem alteração e perfeitamente sob
controlo...está tudo sossegado e não há qualquer problema em qualquer ponto
do País." A chamada é interrompida porque o responsável máximo da DGS
se encontrava noutro telefone para falar com o ministro da Defesa.
03h30 - A força da
EPC - com 10 viaturas blindadas, 12 viaturas de transporte de tropas, duas
ambulâncias e um jipe e precedida por uma viatura civil, com três oficiais
milicianos - comandada pelo capitão Salgueiro Maia, cruza a porta da unidade e
sai de Santarém em direcção a Lisboa.
- A primeira companhia do BC 5, comandada pelo capitão Bicho Beatriz, toma
posições de cerco ao Quartel General da Região Militar de Lisboa (QG/RML). O
oficial de serviço, aspirante Silva, informa o chefe do Estado-Maior, coronel
Duque, da situação. Inicia-se, a partir de então, de acordo com a cadeia
hierárquica, o processo de prevenção dos principais responsáveis das Forças
Armadas.
- Carlos Albino e Manuel Tomás retiram-se das instalações da Rádio
Renascença.
c. 03h30 - Surge o
primeiro alarme oficial das forças governamentais sobre a eclosão do
Movimento, na cidade do Porto: o coronel Santos Júnior, comandante da PSP
local, informa o Comando da GNR da tomada do QG/RMP pelos revoltosos.
03h31 – Os
ministros da Defesa e do Exército retomam o diálogo telefónico, acabando por
concluir que o Presidente da República, nesse dia, "pode deslocar-se à
vontade, porque, por lá (Tomar), está tudo calmo".
03h40 - A coluna do
RI 10 de Aveiro, comandada pelo capitão Pizarro, chega aos portões do RAP 3. O
coronel Sílvio Aires de Figueiredo, comandante da última unidade, é detido,
nessa altura, pelo capitão Dinis de Almeida. Decorrerá ainda algum tempo até
que se constitua o Agrupamento Norte: a coluna do RAP 3 demora a formar, é
preciso municiar as tropas chegadas de Aveiro, aguarda-se que cheguem as forças
do Centro de Instrução de Condução Auto 2 (CICA 2) da Figueira da Foz e do
RI 14 de Viseu.
03h55 - A companhia
do RI 14 autotransportada, comandada pelo capitão Silveira Costeira,
constituída por 4 viaturas pesadas, 1 ambulância e 1 viatura de exploração
civil, sai do quartel passando por Tondela, Santa Comba Dão, Luso, Anadia e
Cantanhede.
03h56 - O Posto de
Comando toma conhecimento que foi quebrado o factor surpresa. O documento onde
são anotadas as escutas telefónicas – intitulado A Fita do Tempo – regista:
«Concentração que avança sobre Lisboa. Ele (Min. Ex?) vai já para lá
(?)».
03h57 - A ausência
de notícias da coluna da EPI, que ainda não conquistara o Aeroporto, conduz ao
adiamento da transmissão do primeiro comunicado inicialmente prevista para as
4h00.
04h00 - Um pelotão
do BC 5 desloca-se para a residência de António de Spínola, a fim de garantir
a sua segurança.
- O programa «A noite é nossa», do R.C.P., deixa de transmitir publicidade,
passando a emitir apenas música.
04h15 - O general
Eduardo Martins Soares, comandante da RMP, apela aos coronéis Rui Mendonça,
comandante do RI 8, e Carneiro de Magalhães, comandante do RI 13, ambos de
Braga, para avançarem sobre o Porto e libertarem o QG das mãos dos
insurrectos. Nos dois casos, os oficiais das unidades recusam-se a cumprir tais
ordens.
04h20
- A coluna da EPI, comandada pelo capitão Rui Rodrigues, assume o controlo do
Aeródromo Base nº 1 (Figo Maduro) e do Aeroporto de Lisboa. O capitão Costa
Martins emite um comunicado NOTAM, interditando o espaço aéreo português e
desviando o tráfego para os aeroportos de Las Palmas e Madrid. Nova Iorque
encontra-se sob o controlo do Movimento.
04h22 - Em resposta a
um telefonema de Silva Cunha, a mulher do Ministro do Exército informa-o que
«O Alberto saiu agora de casa».
04h26
- O Rádio Clube Português transmite o 1º comunicado do Movimento das Forças
Armadas, lido por Joaquim Furtado. Seguem-se o Hino Nacional e marchas
militares, designadamente uma da autoria de John Philip de Sousa que se viria a
transformar no hino do MFA. Os portugueses começam a tomar conhecimento de que
algo de muito importante se está a desenrolar no País.
- No Grupo de Artilharia Contra Aeronaves 2 (GACA 2) de Torres Novas os
capitães do Quadro Permanente, Pacheco, Dias Costa e Ferreira da Silva,
conseguem a adesão dos tenentes milicianos comandantes de companhias
mobilizadas para o Ultramar e que aguardam embarque.
04h30 - Rendição do
QG/RML. O major Cardoso Fontão comunica ao posto de comando que Canadá fora
ocupado sem incidentes.
- Forças do CICA 1 detêm, à saída da sua residência, o chefe do
Estado-Maior do Q.G./R.M.N., coronel Ramos de Freitas.
04h45 - O 2º
comunicado do MFA é emitido, apelando à desmobilização de eventuais acções
contra o Movimento.
- O primeiro grupo do BC 5, comandado pelo major Fontão, penetra no interior do
R.C.P.
- O alarme é dado no Quartel-General da Região Militar de Coimbra (QG/RMC).
Rapidamente se apercebem de que a maior parte das unidades segue o Movimento.
- O governador da Região Militar de Lisboa reúne-se com o corpo do seu
Estado-Maior na residência do respectivo subchefe.
05h00 - Após uma
viagem sem problemas, a coluna da EPC passa na portagem da auto-estrada, em
Sacavém.
c. 05h00.- No
Quartel-General da Região Militar de Évora (QG/RME) é recebida ordem do
Ministério do Exército para entrar de prevenção rigorosa.
- Marcelo Caetano recebe um telefonema do director-geral da PIDE/DGS, major
Silva Pais, que lhe comunica estar a Revolução na rua, sendo a situação
muito grave, pelo que se tornava necessário que o Presidente do Conselho se
refugiasse no Quartel do Comando-Geral da GNR no Largo do Carmo.
05h15 - Leitura do
3º comunicado que, entre outros apelos, aconselha a população a permanecer em
casa. Grande parte desta, pelo contrário, vai para a rua, passando a manifestar
um acolhimento eufórico à iniciativa dos militares, misturando-se com eles,
conferindo, assim, ao golpe militar, muitos dos contornos de uma verdadeira
revolução.
05h19 - O general
Nascimento telefona ao recém nomeado CEMGFA, general Luz Cunha, a informá-lo
que "está muita tropa na rua e é preferível seguir para aqui".
c. 5h20 - O general
Viotti de Carvalho, vice-chefe do Estado-Maior do Exército (EME) determina ao
comandante da EPTm para proceder à escuta das comunicações militares e as
relatasse para o Estado-Maior. No entanto, há largas horas que a referida
unidade militar desempenhava aquela missão, mas a favor do MFA.
05h27 - O ministro do
Exército ordena ao RI 6, do Porto, que liberte o Q.G./R.M.P, determinação que
não será cumprida, uma vez que a unidade era afecta ao MFA.
05h30 - No
itinerário para o Terreiro do Paço, Salgueiro Maia cruza-se com viaturas da
Polícia de Segurança Pública, no Campo Grande e, cerca de 10 minutos depois,
com a Polícia de Choque, na Av. Fontes Pereira de Melo, que não se manifestam.
c. 05h30 - O Comando
Territorial do Algarve (CTA) ordena a entrada em prevenção rigorosa das suas
três unidades.
05h32 – O ministro
do Exército determina ao general Carvalhais que se ocupe da protecção dos CTT,
Águas e Electricidade.
05h45 - O 4º
comunicado sintetiza os anteriores alertando para que a situação não se
encontra ainda totalmente controlada.
05h46 - O Ministro do
Exército ordena ao comandante do Regimento de Cavalaria 7 (RC 7), coronel
António Romeiras Júnior, que, com os carros de combate M47, tome posições em
Vale de Cavalos para deter uma coluna da EPC que fora «referenciada no Cartaxo»
e que «vem a caminho de Lisboa».
05h50 - Uma força do
CICA 1 ocupa o centro emissor de Miramar (Porto) do R.C.P.
c. 05h55 - As forças
de Salgueiro Maia instalam-se no Terreiro do Paço, de forma marcadamente
intimidatória. Encontram-se cercados os ministérios, a Câmara Municipal, a
Marconi, o Banco de Portugal e a 1ª Divisão da P.S.P., estando dirigidas as
metralhadoras para as janelas do Ministério do Exército. «Estamos aqui para
derrubar o Governo» declara Salgueiro Maia ao jornalista Adelino Gomes.
05h59 - O ministro do
Exército telefona ao coronel Romeiras Júnior, e ordena-lhe que "veja se
consegue salvar esta coisa, pois estamos todos cercados", recebendo a
resposta que as forças daquela unidade iam a caminho e já se encontravam na
Av. 24 de Julho.
c. 06h00 - O
Quartel-General da Região Militar de Tomar (QG/RMT) ordena às unidades que
passem ao estado de prevenção rigorosa. Mas já há algumas horas que forças
de Tancos (EPE), de Santa Margarida (Ccaç 4241 e 4246) e de Santarém se
movimentam em apoio do MFA.
- A companhia do GACA 2 de Torres Novas, na qual ocorrera uma viragem da
situação (de força inimiga passa a apoiante), ocupa o Quartel e resiste a
todas as ameaças, apesar de se manter sem contactos com o Posto de Comandos do
MFA até às 20h00 do dia 26.
06h05 - O alferes
miliciano David e Silva chega ao Terreiro do Paço comandando um pelotão de AML/Chaimites
reforçado com Panhards do RC 7, favorável ao Governo, mas adere imediatamente
ao Movimento, colocando-se às ordens de Salgueiro Maia. A mesma atitude será
tomada por dois pelotões do Regimento de Lanceiros 2 (RL 2) que guardam o
Ministério do Exército, à excepção de sete elementos que virão a
possibilitar a fuga aos membros do Governo aí refugiados.
06h10 - O ministro do
Exército pede ao general da FA Henrique Troni para "mandar dois aviões
sobrevoar o Terreiro do Paço".
06h50 - A bateria de
obuses do Regimento de Artilharia Pesada 2 de Vila Nova de Gaia toma posição
em ambas as entradas da Ponte da Arrábida, no Porto, dando acesso unicamente
às «forças amigas» (do MFA).
- Uma força do RL 2, comandada pelo tenente Ravasco, tenta, sem êxito,
recuperar o QG/RML.
07h00 - Forças da
EPA de Vendas Novas, comandadas pelos capitães Patrício e Mira Monteiro,
ocupam a colina do Cristo-Rei, em Almada (com o nome de código Londres).
- Surge no Terreiro do Paço, do lado da Ribeira das Naus, um pelotão de
reconhecimento Panhard do RC 7, orientado pelo seu 2º comandante,
tenente-coronel Ferrand de Almeida que, perante o dilema de ter de disparar ou
de se render, opta por esta última posição, sendo preso.
- Uma coluna do RC 3 de Estremoz, sob o comando do capitão Andrade Moura e
Alberto Ferreira, sai do Quartel e dirige-se a Setúbal, a fim de atingir a
Ponte Salazar (actual Ponte 25 de Abril). Juntam-se-lhe os capitães Miquelina
Simões e Gastão Silva, colocados no Regimento de Lanceiros 1 de Elvas, na
sequência do frustrado golpe das Caldas.
- O Agrupamento Norte – envolvendo, nesta altura, forças do RAP 3 e CICA 2 da
Figueira da Foz e do RI 10 de Aveiro - sai a porta de armas do Quartel e mete-se
à estrada em direcção a Leiria.
07h30
- O RI 14 de Viseu chega à Figueira da Foz e integra as forças do Agrupamento
Norte muito antes da sua chegada a Leiria, assumindo o comando o capitão
Gertrudes da Silva.
- É lido por Luís Filipe Costa o 5º comunicado do Movimento das Forças
Armadas, em que se fornecem elementos acerca dos objectivos do MFA.
- É detido, nas imediações do R.C.P., o tenente-coronel Chorão Vinhas,
comandante interino do BC 5.
- Uma segunda coluna da EPC, constituída por cinco carros de combate (2 M47 e 3
M24) e dois pelotões de atiradores (cerca de 60 homens), comandada pelo
capitão Correia Bernardo, atinge o perímetro de Santarém, pronta para
avançar para Lisboa em apoio da coluna de Salgueiro Maia. A evolução
favorável dos acontecimentos acabou por tornar desnecessária tal medida.
07h40 - A Companhia
de Caçadores (Ccaç 4241/73) ocupa o centro emissor do R.C.P., em Porto Alto.
07h50 - Os capitães
Glória Alves e Ferreira Lopes, à frente de um pelotão do Centro de
Instrução de Condução Auto 5 (CICA 5) de Lagos, ocupam o centro
retransmissor de Fóia.
08h00 - Verifica-se o
corte de energia ao centro emissor do R.C.P., em Porto Alto, que passa a
funcionar com o gerador de emergência.
- A Companhia do CIOE, comandada pelo capitão Delgado da Fonseca, chega à
cidade do Porto, dirigindo-se ao CICA 1.
08h15 - Uma força da
GNR saída do Quartel do Cabeço de Bola, constituída por 12 "Land Rover",
toma posição no Campo das Cebolas. Após um breve diálogo com Salgueiro Maia
e face à disparidade de meios, o comandante é convencido a abandonar o local.
08h22 – O CEMGFA,
general Luz Cunha, informa o chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), general
Paiva Brandão, que "pretende utilizar meios da Escola Prática do Serviço
de Material (EPSM) para tomar posições e libertar o AB 1. Irem pela
auto-estrada e tomarem estrada secundária. Terem cuidado com o Cmdt. dessa
força porque a entrega do Ferrand o deixou muito em baixo".
08h30 - É lido, pela
primeira vez na Emissora Nacional, um comunicado do MFA.
08h50 - Uma coluna de
nove viaturas militares da EPE de Tancos estaciona no centro emissor do R.C.P.,
a fim de reforçar a sua defesa. Mais tarde segue para Lisboa onde ocupa a Casa
da Moeda, seu objectivo inicial.
09h00 - A fragata
Almirante Gago Coutinho, comandada pelo capitão-de-fragata Seixas Louçã, toma
posição no Tejo, em frente ao Terreiro do Paço, intimidando directamente as
forças de Salgueiro Maia. Perante esta situação, a artilharia do Movimento,
já estacionada no Cristo-Rei, recebe ordens do Posto de Comando para afundar a
fragata no caso desta abrir fogo. O vaso de guerra terá recebido ordem do
vice-chefe do Estado-Maior da Armada, almirante Jaime Lopes, "para se
preparar para abrir fogo". A ordem de disparar nunca chegou.
- O major Cardoso Fontão detém, nas imediações do Q.G./R.M.L., o brigadeiro
Serrano que, no 16 de Março, comandara o cerco ao RI 15.
- Chega à residência de Spínola o médico Carlos Vieira da Rocha, amigo do
general e proprietário do automóvel Peugeot que os haveria de transportar, no
final da tarde, ao Quartel do Carmo.
09h15 - Uma força da
EPC, com uma AML e uma ETT/Panhard, comandadas pelo alferes Sequeira Marcelino e
pelo aspirante Pedro Ricciardi, vai reforçar a protecção do QG/RML, em São
Sebastião da Pedreira.
09h35 - Chega ao
Terreiro do Paço uma força comandada pelo brigadeiro Junqueira dos Reis, 2º
comandante da RML, constituída por 4 CC/M47, uma companhia de atiradores do
Regimento de Infantaria 1 e alguns pelotões da Polícia Militar. Dois dos
carros de combate, comandados pelo major Pato Anselmo, tomam posições na
Ribeira das Naus, enquanto os outros dois, sob o comando do coronel Romeiras
Júnior, penetram na Rua do Arsenal.
09h40 - Protegidos
pelos blindados do RC 7, os ministros da Defesa, Silva Cunha, do Interior,
César Moreira Baptista, do Exército, Andrade e Silva, da Marinha, Pereira
Crespo, o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, Joaquim Luz Cunha,
o governador militar de Lisboa, Edmundo Luz Cunha, o subsecretário de estado do
Exército, coronel Viana de Lemos e o almirante Henrique Tenreiro, fogem pelas
traseiras do Ministério do Exército, abrindo um buraco na parede que comunica
com a biblioteca do Ministério da Marinha. No parque de estacionamento interior
tomam lugar numa carrinha que os transporta ao Regimento de Lanceiros 2, onde
instalam o Posto de Comando das tropas leais ao Governo.
10h00 - Na Rua do
Arsenal, o tenente Alfredo Assunção, da EPC, empreende uma tentativa de
negociação com o coronel Romeiras Júnior e o brigadeiro Junqueira dos Reis.
- Este oficial-general agride com três murros o emissário dos revoltosos que
responde com continência e uma rígida posição de sentido. O brigadeiro
manda, em seguida, abrir fogo sobre ele, não sendo obedecido, por intervenção
directa do coronel Romeiras. Assunção regressa, então, para junto das suas
tropas.
10h10 - Chega ao
Terreiro do Paço o tenente-coronel Correia de Campos, enviado do Posto de
Comando da Pontinha, com a missão de coordenar as operações.
10h15 - Um grupo de
comandos, que integra Correia de Campos e Jaime Neves, passa revista ao
Ministério do Exército, confirmando a fuga dos ministros que tinha por missão
prender, procedendo à detenção de diversos oficiais superiores,
designadamente o coronel Álvaro Fontoura, chefe de gabinete do ministro do
Exército que seriam, pouco depois, transferidos para o RE 1.
10h30
- Depois de algumas tentativas infrutíferas para a rendição do major Pato
Anselmo, na Ribeira das Naus, esse intento é alcançado por um civil, o
ex-alferes miliciano Fernando Brito e Cunha, que actua às ordens de Correia de
Campos. Os dois carros de combate e as tropas que os seguiam passam-se para o
lado dos revoltosos, ficando sob o comando de Salgueiro Maia.
- O Agrupamento Norte, comandado pelo capitão Gertrudes da Silva, atinge
Peniche, com o objectivo de ocupar essa odiosa prisão política do Regime. Face
à resistência da PIDE/DGS, a companhia do CICA 2 e duas secções de obuses do
RAP 3 montam cerco àquele objectivo, seguindo o grosso da coluna para Lisboa.
10h45 – Face à
perda de metade da sua coluna, o 2º comandante da RML transfere o CC/M47 do
alferes miliciano Fernando Sottomayor (RC 7) para a Ribeira das Naus.
Seguidamente, o brigadeiro Junqueira dos Reis ordena-lhe que abra fogo sobre
Salgueiro Maia, quando este se encontra entre a esquina do Ministério do
Exército e o muro para o rio Tejo, numa tentativa para obter a rendição do
remanescente das forças fiéis ao governo. O oficial miliciano recusa-se a
obedecer, sendo detido e transferido para o RL2.
10h50 - Junqueira dos
Reis ordena, sem sucesso, aos soldados que abram fogo. Perante a desobediência
generalizada, o oficial-general dá dois tiros para o ar e dirige-se para a Rua
do Arsenal, onde se encontra o carro de combate do comandante do RC 7.
11h00 - Incapaz de se
fazer obedecer, o 2º governador militar de Lisboa conserva as forças que lhe
restavam nas posições que ocupavam, não tomando, naquela altura, mais nenhuma
iniciativa.
- O governo consegue cortar a emissão em FM do R.C.P., desligando o comutador
de Monsanto.
- É detido, por forças do BC 5, nas instalações do Quartel Mestre General, o
seu responsável, general Louro de Sousa.
11h30 - As unidades
estacionadas no Terreiro do Paço dividem-se, avançando:
- a Escola Prática de Cavalaria para o Quartel do Carmo, sendo, ao longo de
todo o percurso, aclamada entusiasticamente pela população.
- forças dos Regimentos de Cavalaria 7, Lanceiros 2 e Infantaria 1 - que
contavam com 16 blindados - comandadas por Jaime Neves e pelos tenentes de
Cavalaria Cadete e Baluda Cid, para o Quartel-General da Legião Portuguesa
(Marrocos).
11h45 - Difundido
novo comunicado do MFA ao País, informando que, de Norte a Sul, a situação se
encontra dominada e que "...em breve chegará a hora da libertação."
12h00 - A fragata
Almirante Gago Coutinho retira para o Mar da Palha.
- No Rossio, uma companhia do Regimento de Infantaria 1 , da Amadora, comandada
pelo capitão Fernandes, tenta barrar o caminho para o Quartel do Carmo, à
coluna da EPC. Após curto diálogo com o comandante das tropas, estas passam
para o lado de Salgueiro Maia.
12h30 - É montado o
cerco ao Quartel da GNR, no Carmo, pela coluna da EPC.
12h45 - Forças
hostis da GNR ocupam posições na retaguarda do dispositivo de Salgueiro Maia.
13h00 - Um comunicado
do MFA tranquiliza as famílias dos militares envolvidos no movimento revoltoso.
- Face ao cerco do Quartel do Carmo, o brigadeiro Junqueira dos Reis dirige-se,
com os dois CC/M47 e os lanceiros e atiradores que lhe restavam, para o Largo de
Camões, na esperança de, conjuntamente com forças da GNR, tentar libertar o
Presidente do Conselho. Tais intenções rapidamente se verificam inexequíveis.
A companhia do RI 1 passa-se para as fileiras do MFA e uma parte da guarnição
de um M/47 abandona-o, confinando o brigadeiro a uma posição de crescente
fraqueza face ao aumento do poderio dos revoltosos.
13h15 - A coluna do
RC 3 de Estremoz atinge o seu objectivo, a Ponte Salazar.
13h30 - Um
helicanhão sobrevoa o Largo do Carmo, causando grande ansiedade entre militares
e civis.
13h40 - O comandante
e o Estado-Maior da Legião Portuguesa apresentam a sua rendição.
14h00 - Corte de
energia ao emissor de Miramar (Porto) do R.C.P.
14h30 - É lido por
Clarisse Guerra, aos microfones do Rádio Clube Português, um comunicado do
MFA, no qual se dá conta dos objectivos e posições controlados e do ultimato
para a rendição de Marcelo Caetano.
c. 15h10 - Salgueiro
Maia solicita, com megafone, a rendição do Carmo em 10 minutos. Momentos antes
recebera do Posto de Comando do MFA uma mensagem escrita pelo major Otelo
Saraiva de Carvalho na qual ordena que apresente um aviso-ultimato para a
rendição.
15h15 - São
libertados da Trafaria os onze militares que aí se encontravam detidos em
consequência do falhado golpe das Caldas.
15h30 - Não sendo
atendido após 15 minutos, Salgueiro Maia ordena ao tenente Santos Silva para
fazer uma rajada da torre da Chaimite sobre as janelas mais altas do Quartel,
repetindo o apelo de rendição logo a seguir.
15h45 - Do Quartel do
Carmo sai o major Hugo Velasco, membro do MFA, para falar com o capitão
Salgueiro Maia.
16h00 - O coronel
Abrantes da Silva, a pedido de Salgueiro Maia, entra no Quartel para dialogar
com os sitiados.
- Forças do CIOE dirigem-se aos estúdios da R.T.P. (Monte da Virgem) e do
R.C.P. (Tenente Valadim), no Porto, para proceder à sua ocupação.
16h15 - O capitão
Salgueiro Maia dá ordens ao alferes miliciano Carlos Beato para instalar os
seus homens no cimo das varandas do edifício da Companhia de Seguros Império e
fazer fogo sobre a frontaria do Carmo, agora com armas automáticas G-3.
16h25 - O comandante
da força da EPC, na ausência de resposta por parte dos sitiados no Quartel do
Carmo, ordena a colocação de um blindado em posição de tiro e chega a dar
"voz" de "um, dois"..., sendo interrompido pelo tenente
Alfredo Assunção que conduz dois civis até ele. Trata-se de Pedro Feytor
Pinto, director dos Serviços de Informação da Secretaria de Estado da
Informação e Turismo, e Nuno Távora, que se dizem portadores de uma mensagem
do general Spínola para Marcelo Caetano.
16h30 - Salgueiro
Maia autoriza a entrada no Quartel dos dois mensageiros.
c. 16h30 - Spínola
comunica ao Posto de Comando do MFA ter recebido um pedido de Marcelo Caetano
para ser ele a aceitar a rendição do chefe do governo. Otelo, após recolher a
opinião dos presentes, concede-lhe esse mandato.
16h45 - Os dois
mensageiros saem do Quartel do Carmo e deslocam-se num jipe, acompanhados por
Alfredo Assunção, para casa de Spínola que, entretanto, se dirige já para o
Carmo.
17h00 - Salgueiro
Maia desloca-se ao interior do Quartel e fala com Marcelo Caetano que, após ter
colocado algumas perguntas, lhe solicita que um oficial-general vá efectuar a
transmissão de poderes (Spínola, com quem, aliás, falara já ao telefone)
para que o poder não caia na rua.
17h00 - Salgueiro
Maia pede a Francisco Sousa Tavares e a Pedro Coelho, oposicionistas ligados à
CEUD e ao PS, para ajudarem a afastar a população. Sousa Tavares sobe para uma
guarita da GNR e, usando o megafone, apela à calma.
17h45
- Chegada ao Largo do Carmo do general António de Spínola, acompanhado pelo
tenente-coronel Dias de Lima, major Carlos Alexandre Morais, capitão António
Ramos e dr. Carlos Vieira da Rocha. Após longos minutos envolvido pela
multidão, o Peugeot que transportava Spínola consegue, finalmente, chegar
junto da porta de armas do quartel.
18h00 - António de
Spínola, acompanhado por Salgueiro Maia (que o informa sobre o modo como os
membros do Governo serão retirados das instalações), entra no Quartel do
Carmo para dialogar com Marcelo Caetano.
18h15 - Spínola
encontra-se com Marcelo e informa-o dos procedimentos que serão adoptados para
a sua saída do local e posterior evacuação para a Madeira. Enquanto isso,
Salgueiro Maia pede à população que abandone o Largo do Carmo, a fim de se
proceder à retirada do Presidente do Conselho e dos ministros. O apelo é
ignorado.
18h20 - Um comunicado
do MFA informa o País da entrega de Marcelo Caetano e de membros do seu
ex-governo, refugiados no Carmo.
18h25 - Às ordens de
Salgueiro Maia, soldados formam um cordão em frente da porta de armas do
Quartel, por forma a ser possível retirar Marcelo Caetano em segurança.
18h30 - O Agrupamento
Norte chega a Lisboa.
- Numa manobra difícil, a autometralhadora Chaimite penetra, de marcha atrás,
no Quartel do Carmo.
19h00 - Marcelo
Caetano, Rui Patrício e Moreira Baptista abandonam o Quartel do Carmo, sendo
conduzidos na autometralhadora Chaimite "Bula", em direcção ao
Quartel da Pontinha.
- A Baixa de Lisboa é invadida por enorme multidão que vitoria as Forças
Armadas e a Liberdade.
19h50 - Comunicado do
MFA anunciando formalmente a queda do Governo.
20h05 - É lida,
através dos emissores do RCP, a Proclamação do Movimento das Forças Armadas.
c. 20h30 - Na Rua
António Maria Cardoso, onde se situa a sede da PIDE/DGS, agentes desta polícia
política abrem fogo sobre a multidão que se aglomera na referida artéria,
causando 4 mortos e dezenas de feridos.
21h00 - A Chaimite
"Bula" e a coluna da EPC atingem o Quartel da Pontinha.
c. 21h00 - Forças do
RAP 3 e da EPI deslocam-se ao Comando da 1ª Região Aérea, em Monsanto, para
proceder à detenção dos ministros da Defesa, do Exército e da Marinha, e de
outras altas patentes militares que ali se haviam refugiado desde a tarde,
conduzindo-os ao RE 1.
22h00 - Forças de
pára-quedistas chegam à prisão de Caxias, onde a PIDE/DGS continua a
resistir.
23h30 - Chegada da
EPC ao RC 7 e RL 2 que ocupa, perante a rendição, sem resistência, dos seus
comandantes.
DIA 26
01h30 - A Junta de
Salvação Nacional - de que fazem parte o capitão-de-fragata António Rosa
Coutinho, coronel Carlos Galvão de Melo, general Francisco da Costa Gomes,
brigadeiro Jaime Silvério Marques, capitão-de-mar-e-guerra José Pinheiro de
Azevedo e o general Manuel Diogo Neto, ausente do Continente - apresenta-se à
Nação, através da Rádio Televisão Portuguesa, lendo uma proclamação e
tendo o general António de Spínola como Presidente.
c. 07h00 - O
tenente-coronel Almeida Bruno desloca-se à Rua Almirante Saldanha, ao Restelo,
para solicitar ao ex-Presidente da República, Américo Tomás, que o acompanhe
ao aeroporto a fim de embarcar no DC-6 que o conduzirá à ilha da Madeira.
- O tenente-coronel Lopes Pires acompanha ao aeroporto o ex-Presidente do
Conselho, Marcelo Caetano e os ex-ministros Silva Cunha e Moreira Baptista.
07h30 - O major
Vítor Alves lê, perante a Comunicação Social, a versão definitiva do
Programa do MFA.
07h40 - O DC-6
levanta voo da pista da Portela e parte rumo ao Funchal.
09h46 - Na Rua
António Maria Cardoso, sede da PIDE/DGS, verifica-se a rendição incondicional
daquela polícia política, sendo o edifício ocupado por forças do Exército e
da Marinha
c. 10h00 - Rendição
do Forte de Caxias.
11h00 - Salgueiro
Maia e as forças da EPC ocupam o edifício da Secretariado-Geral da Defesa
Nacional, na Cova da Moura, onde a Junta de Salvação Nacional e o MFA
passarão a funcionar.
13h00 - Inicia-se a
libertação dos presos políticos nas cadeias de Caxias e Peniche.
- Divulga-se o Programa do MFA que havia sido apresentado pelo major Vítor
Alves, no Quartel da Pontinha, ao princípio da manhã, depois da 1ª
conferência de imprensa da Junta de Salvação Nacional.
DIA 28 -
Mário Soares regressa a Portugal.
DIA 30
- Álvaro Cunhal regressa a Portugal.
MAIO
1 de MAIO –
Centenas de milhares de pessoas, em todo o País, festejam nas ruas o Dia do
Trabalhador, em democracia e liberdade. "O Povo está com o MFA" será
a palavra de ordem mais gritada.
Pesquisa: Celso Brasil
Parceria: Nossos especiais agradecimentos ao Instituto Camões www.instituto-camoes.pt
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