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Relação de gênero na espiritualidade indígena e
o combate à violência
Por quê agüentamos tanta violência? Nós, mulheres dos segmentos dos povos indígenas e afrodescendentes ainda agüentamos tanta violência porque não reforçamos a nossa mulher interna, a mulher selvagem que existe dentro de nós, a mulher primitiva, no sentido "primeiro". Uma mulher deve andar com a força a sua frente, a profunda natureza intuitiva dessa mulher deve prevalecer na dualidade obrigatória de toda a mente feminina. E QUEM DÁ ESSA FORÇA? Receber a herança ancestral de nossa família ou de uma cultura é uma missão a cumprir, isso é praticamente obrigatório dentro da anima. Mas levar adiante essa herança é SABEDORIA. Quais as rasteiras que devemos dar no neocolonizador, no opressor político-cultural para despertarmos a força interior e transformá-la em sabedoria e arma para o crescimento da humanidade e melhor qualidade de vida? Como purificar a persona que existe em nós, com tantos vícios impostos pelo sistema político e econômico que nos racializa, nos oprime, nos mata e torna nossa auto-estima deplorável e faz com que aceitemos pacíficas, durante séculos, a violência, seja física, psicológica, sexual, mental e até espiritual!!!! Franz Fanon mostra em seu livro "Condenados da Terra" os resultados psicológicos maléficos da opressão política e racial ao povo argelino e há mais de 20 anos temos lido esse texto, tão atual ainda nos dias de hoje!!!!
A chama do conhecimento ancestral seja indígena ou oriunda de outras raízes deve ser despertada imediatamente na anima de todas as mulheres e dos homens também, para que possa despertar o feminino dentro deles e a parceria homem/mulher seja comungada dentro dos princípios dos direitos humanos mais transcendentais. Quando despertamos essa força começamos a reconhecer a sombra negativa da nossa psique, os aspectos negativos de nosso comportamento, o nosso inimigo interno e neste processo começamos a reagir contra a opressão, o racismo e a destruição causados a nossa persona, que vai se somando a milhares e milhares de mentes do planeta Terra nestas partes do mundo que se permitem chamar "Terceiro Mundo", obscuro, oprimido social, racial, econômica e politicamente.
Os aspectos da cultura de alguns povos, como o sacrifício ou a mutilação de partes do sexo feminino numa cultura oriental é uma distorção cultural causada pela ação dos imperialistas. E, em outro contexto, a identidade masculina para defender suas mulheres indígenas, por exemplo, fazendo com que as mulheres tivessem dor no ato sexual, vinculando assim o prazer à dor. Assim, as mulheres indígenas não aceitariam a submissão ou ofertas de qualquer homem branco que chegasse. Ao longo da história, o homem teve que mudar seu comportamento para com a mulher indígena, numa tentativa desesperada e inconsciente que pudesse preservar a família. No período da colonização portuguesa e espanhola, no Brasil, os homens indígenas levavam toda sua família a se jogar do alto dos penhascos, constituindo o suicídio coletivo contra a escravidão e a destruição cultural. Nos tempos modernos, o suicídio, a submissão, o alcoolismo, a desesperança, têm sido sintomas desta opressão.
O empobrecimento econômico de nossas vidas, o racismo, a intolerância, o desequilíbrio da nossa biodiversidade causam timidez, conformismo, baixa auto-estima, sentimento de culpa, infelicidade, angústia interior, insatisfação constante e concessão ao dominador, sim, concessão ao dominador. Esse processo desestabiliza o contexto cultural, espiritual, enfim, a cosmovisão de cada um de nós, negros e indígenas ou segmentos oprimidos.
Por que agüentamos tanta violência subliminar? A intuição é a mensageira da alma, a intuição é a força do conhecimento tradicional, ancestral. A tocha da ancestralidade, inclusive genética, deve ser trabalhada dentro de cada um de nós, pois ela é riquíssima em conhecimentos, sejamos indígenas, negros, amarelos ou brancos. O nosso cérebro, fisicamente, guarda espaços e tradições jamais alcançados, é preciso lembrar/despertar da escuridão mental e espiritual e deixar fluir o inconsciente coletivo para que ele flutue nos mares da consciência, essa que dá a tônica da vida. É preciso uma força extraordinária para resgatar os conceitos e princípios da ancestralidade que cada um tem dentro de si. É ética. É princípio. É busca inclusive da paz que vai se somar à construção da corrente do amor e da ética. Mas, só a conscientização de quem somos nós, como povos indígenas, ou oriundo de outras raízes é que vamos perceber, desvelando a riqueza, a preciosidade que existe adormecida na vastidão das mentes, dos corações e dos espíritos. O homem - o homem masculino - que também tenha buscado esse homem selvagem, esse homem "primeiro", ancestral dentro de si, é o verdadeiro homem que vai conquistar o coração de uma mulher, pois ele vai compreender e reconhecer profundamente a dualidade feminina, a guerreira e a mãe doce e pacífica que existem dentro de todas as mulheres. E a guerreira, a ancestral, a mãe selvagem, a filha, todas reunidas numa só, não vão mais permitir a sombra negativa que ronda o planeta Terra, a submissão, porta aberta para a violência, porque ela, a mulher, purificando sua persona, vai multiplicar muitas outras personas, começando pelo seu próprio filho homem, futuro cidadão, futura cidadania mundial, para construção da cultura da verdadeira paz e da igualdade social. E a relação de gênero neste estágio será bem melhor do que a do tempo contemporâneo, que nos faz sucumbir à dor, que nos leva ao desamor a nós mesmos e ao próximo. Nesse processo de reconstrução do ser humano vamos lapidando o grande diamante que é a consciência humana.
Homens e mulheres fortalecidos, que reconheceram mutuamente o processo de reconstrução da mente e espírito, podem apoiar a criatura interna, o verdadeiro anima, o profundo anseio da alma fortalecida pela ancestralidade que existe dentro de todos nós, a verdadeira ancestralidade do ser "primeiro" - a força interior - esses, sim, estarão construindo a grande força mental e espiritual, a grande FRENTE para a conquista dos Direitos Humanos neste planeta. E homens e mulheres estarão fortes para nunca mais permitirem a opressão, a baixa auto-estima, o conformismo, o racismo, a desvalorização de si mesmo e da verdadeira persona. E estaremos fortes e conscientes para lutar e exigir os nossos direitos civis. Por isso é importante ouvir os sábios e sábias indígenas e afrodescendentes e culturas afins. Mas o sistema político e social arrasta os velhos e as velhas para o corredor da morte lenta, desvalorizando-os, esquecendo-os. Os caminhos e as respostas para um novo mundo estão na aquisição e reconhecimento dos conhecimentos tradicionais das PRIMEIRAS NAÇÕES deste grande e luminoso asteróide azul contra o inimigo interno e externo.
É necessário fazermos uma reavaliação das histórias de vida de nossos velhos profetas, homens e mulheres, sejam eles de qualquer etnia, nação, religião, corrente espiritual dando uma NOVA INTERPRETAÇÃO às suas palavras. Não interpretações segundo crenças viciadas, costumes velhos, velhos modelos, velhos preconceitos, mas novos recomeços e profundas percepções das filosofias deles, para chegarmos aos verdadeiros caminhos para a construção dessa paz e ética.
Mas dentro da cultura indígena, como ocorre o processo de fortalecimento interior e a preservação da identidade cultural para a construção da paz e das relações humanas? |