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A Terra é a nossa mãe. Dela recebemos a vida e a capacidade para viver. Zelar por nossa mãe é nossa responsabilidade e zelando por ela,estamos zelando por nós próprias. Nós, mulheres indígenas, somos manifestações da Mãe -Terra em forma humana.Molestar, destruir, minimizar as manifestações da Mãe- Terra é ir contra a sua natureza, pois na natureza tudo deve fluir, assim como os rios que correm, os mares que enchem e esvaziam, como as cachoeiras que caem, como as pedras que rolam, como os filhotes que nascem e crescem, como a chuva que cai, como as luas que se enchem e vão, como o sol que esquenta e esfria, como a vida humana e animal que brota e transforma-se em húmus para a terra.Ir contra todos esses segmentos é violar o sagrado.A base filosófica de nossas vidas, como mulheres e povos indígenas, nessas 206 nações indígenas brasileiras, com culturas e línguas diferenciadas é o respeito pelo sagrado, pelo que foi criado pela natureza e a mulher faz parte deste sagrado, por isso sua palavra é sagrada, tanto quanto a Terra. E toda a sua cultura e espiritualidade relacionadas ao sagrado humano, deve ser respeitada.
Aqui queremos lembrar as sociedades matriarcais, originais, onde a palavra da mulher era uma força, uma decisão política. Mas o capital, a exploração do homem pelo homem, o egoísmo, a discriminação cultural e filosófica, o poder, a colonização limitaram essa força da mulher. Mas nos últimos dois séculos vemos aqui ou acolá, pipocar um grito estrangulado de uma mulher indígena, um grito estrangulado, mas determinado, como é o caso de alguns desses gritos pelo Brasil afora, resultando nas organizações de base dessas mulheres.E essas mulheres vêm transformado-se em educadoras, reprodutoras, agentes transformadoras da sociedade em que vivem.
Muitas delas como a primeira prefeita no Brasil, a índia Potiguara, enfermeira Iracy Cassiano ( popularmente chamada de Nancy), foi uma vitória no início da década de 90, mas que esbarrou em obstáculos históricos , políticos e culturais, assim como a organização de mulheres indígenas (Grumin) esbarrou, porque ali se formava com seu precioso apoio.A Associação de mulheres indígenas de Manaus foi criada para aglutinar mulheres imigrantes de suas terras originais e que só tinham como opção de trabalho, labutar como empregadas domésticas nas casas dos coronéis ou cair nos prostíbulos ou servir ao tráfico internacional.As aldeadas continuavam a servirem aos militares ou sofrer as violências oriundas das invasões de terras indígenas.
As mulheres sempre estiveram à mercê das drogas perigosas, dos produtos químicos, dos anticoncepcionais, das esterilização, da mineração de urânio, das contaminações nas águas fluviais, dos conflitos armados, dos atos agressivos das multinacionais, dos projetos de diversidade de Genética humana, da pirataria de nossa herança cultural e espiritual e dos recursos biológicos e todas as forças que estão por trás, as modernas instituições financeiras controladas pelo Banco Mundial, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial de Comércio(OMC) e órgãos afins.
Atualmente as mulheres indígenas de Roraima têm-se organizado, assim como algumas delas como Joênia Wapixana formou-se em Direitos.Outras têm buscado esse caminho, pois acreditam que só lutando dentro dos aspectos jurídicos poderão ver os direitos indígenas de seus povos assegurados.
A Assembléia Constituinte de 1991 na Colômbia, rompeu com muitos paradigmas sobre a participação política. E uma das vitórias foi a possibilidade de indígenas na representação parlamentar, isso abriu espaços também para as mulheres, como abriu no Equador para a primeira Congressista Indígena, Nina Pacari.Nas últimas eleições no Brasil, 20 indígenas candidataram-se e nenhum foi eleito, porque povo brasileiro não vota em candidato indígena.O próximo caminho para o governo de Lula seria o estabelecimento de um Congresso Parlamentar Indígena( com representação de todas as etnias e a participação das mulheres indígenas) ao contrário de cadeiras no Congresso e Senado que propusemos no passado bem próximo. E no contexto eleitoral somente uma mulher candidatou-se: Marta Kaiowá pelo PT.
Essa minimização da mulher indígena se dá por aspectos culturais e hitóricos, senão vejamos:
As mulheres foram alvo de perseguição masculina desde o processo de colonização. Eram arrancadas do seu povo para servirem de concubinas e escravas aos estrangeiros. Essa responsabilidade é da política integracionista que paternaliza os povos indígenas até hoje.Mães e pais indígenas sabedores desta realidade proibiram que suas jovens filhas fossem atiradas a esse estigma. Será melhor que se fortaleçam antes de irem às escolas para adquirirem mais consciência, por isso o índice de professores indígenas masculinos(65%) é bem maior que o das professoras.
Outros segmentos de mulheres indígenas estão pobres, discriminadas, excluídas, invisíveis. São mão-de-obra escrava em plantios de cana-de-açúcar, algodão e outros, despreparadas para qualquer função política.
Dentro e fora das aldeias urge um trabalho de conscientização e capacitação dessas mulheres. Um programa imediato referente aos direitos reprodutivos e saúde integral, Educação e desenvolvimento agrário devem ser implantado pelo governo e pelas Ongs para que povos indígenas possam ter dignidade.
A "reparação histórica" referente às dívidas morais que a as mulheres indígenas acumularam há séculos , pode vir a ser vislumbrada se o futuro governo OUVIR o que querem essas mulheres e os povos indígenas, Primeiras Nações do território brasileiro, Terra do Pau Brasil. |